ALVARÁ SOBRE O MODO DE VIDA DOS CIGANOS


Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor
3 de junho de 1768
Pelo Alvará com força de Lei, de 20 de setembro de 1760, foi Sua Majestade servido determinar e regular o modo de vida que deviam ter os ciganos existentes neste Estado do Brasil; como também as penas que se lhe deve impor pela mais leve transgressão: nele ordena o dito Senhor a respeito das mulheres, que estas vivam recolhidas, e se ocupe naqueles mesmos exercícios, de que usam as do país; e como esta Régia determinação se põe tão clara, e tão expressivamente ao que as suplicantes pretende praticar; a vista do disposto na referida Lei, e de também se achar o mesmo negócio afeto ao recurso ordinário do agravo, que interpuseram pela Relação, e de que sou Juiz Relator, lhes deferirá Vossa Excelência o que for servido. Bahia, de junho, 3 de 1768.
O Desembargador Ouvidor Geral do Crime, José Gomes Ribeiro.

Fonte: Arquivo Público do Estado da Bahia, seção colonial, maço: 175.  

DEGREDADOS E FEITICEIROS NA BAHIA SETECENTISTA

 

Pela parte junta do Cabo da ronda da Polícia da Freguesia da Conceição da Praia, será presente a Vossa Excelência, haver está prendido aos quatro cúmplices, que da mesma constam, em um casebre na Rua denominada da Preguiça, sendo dois deles galés, que separados, por terem aberto a corrente, que os prende, vão andar em semelhantes funções, por consentimento do mesmo guarda, como está o dito cabo pronto a mostrar com testemunhas. Pela carta junta será também presente a Vossa Excelência a pretensão do Intendente da Marinha mal informado pelo guarda, que teme o castigo, que merecia, por semelhantes consentimentos. Os degredados que se acham fora do lugar do degredo são castigados por força da Lei, que assim o manda, e sendo de degredo de galés por toda a vida, tem pena de morte achando-se soltos, o que [porém] deve ser decidido pelas justiças ordinárias, cuja jurisdição não contemplo anexa ao [mutilado] oficio de Intendente de Marinha. Para que se proceda com acerto mande Vossa Excelência o que lhe parecer mais justo. De Novembro o primeiro de 1796. 
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Dom Rodrigo José de Menezes.

O Desembargador Ouvidor Geral do Crime, Joaquim Cassimiro da Costa.
Dou parte a Vossa Senhoria, em como ao meio dia para uma hora da tarde conforme as ordens de Vossa Senhoria, prendi em um casebre na Preguiça a Manoel Nagô, escravo de Custódio Gomes e outro Manoel Nagô escravo de João da [Motta] também forçado da galé e separados da prisão por se achar o elo do meio da corrente aberto, e Miguel jeje, escravo de Dona Maria Luciana e Maria do Rosário preta jeje a qual diz ser forra, que todos se acham na cadeia a ordem de Vossa Senhoria e achei no dito casebre uma cuia com uns pouco de búzios da Costa enfiados, uma caveira de bode com chifres pequenos, outra dita que apresenta ser de cachorro, um chifre de bode, uma tigela com cabeças, pés e pernas de galinha e uma cabaça pequena, que tudo fica em mão do carcereiro e a chave do dito casebre fica em meu poder e dentro dele se acha um bofete [mutilado] frasqueira velha e umas poucas de esteiras e taboas que serviam de cama para o ministério que se costuma fazer no dito casebre e é o que se passa do que dou parte a Vossa Senhoria, que mandará o que for servido. Bahia, 1 de novembro de 1786.
A[ssinado] Joam Elias Ribeiro de Oliveira de Miranda.
Cabo da Freguesia da Praia.    
Correções: J. J. R. 
Fonte: Arquivo Público do Estado da Bahia, seção colonial, Maço: 177.
Para saber mais acesse: 


ESCRAVOS PROSPERAVAM COMPRANDO ESCRAVOS, MAS ERAM ESNOBADOS PELA ELITE

Reprodução de tela de Rugendas 
Escravos prosperavam comprando negros, mas eram esnobados pela elite

Africano chegou a figurar entre os dez homens mais ricos de Salvador

POR RENATO GRANDELLE
30/05/2015 6:00

BRAGA, Portugal — Quando Manoel Joaquim Ricardo morreu, em 1865, tinha 27 escravos, três casas e uma senzala. Era um dos dez homens mais ricos de Salvador. É um grande feito, ainda mais considerando que Manoel era negro e vivia em um país ainda escravocrata.

Em 1841, antes mesmo de ser alforriado, Manoel já era dono de seis escravos. Estendeu sua rede de negócios até a África. Lá, ele e seus sócios trocaram correspondência sobre seu sucesso na importação de “noz de cola” — segundo autoridades britânicas, este era um código para “escravos”. Embora o tráfico negreiro ainda não tivesse sido abolido, a opinião pública era cada vez mais resistente ao trabalho forçado dos negros.

— Mais de 600 escravos eram donos de escravos no Nordeste — revela João José Reis, professor da Universidade Federal da Bahia. — Esta prosperidade estava ligada ao tráfico negreiro. Quando havia grandes desembarques nos portos brasileiros, o preço deles diminuía e permitia a inclusão de pequenos investidores no mercado. Manoel e outros libertos compravam preferencialmente mulheres, que lhes davam crias.

Professor de História da Unifesp, André Roberto de Arruda Machado destaca que a relação entre os negros era desigual.

— Os escravos não formavam apenas um corpo. Havia uma hierarquia evidente entre os escravos nascidos aqui e aqueles que vinham da África. O primeiro grupo se recusava a fazer algumas tarefas, que deveriam ser deixadas aos estrangeiros — lembra.
Mesmo acumulando riquezas e escravos, Manoel nunca obteve reconhecimento na sociedade baiana.

— Com a hostilidade e a negação do africano liberto, perdemos a chance de ter uma elite negra — lamenta Reis. — Os africanos eram trazidos para cá em fétidos tumbeiros e não poderiam ver o Brasil como uma terra de oportunidades. Apenas procuravam se dar bem dentro do possível, e esse possível às vezes surpreende.

(O repórter viajou a convite do Festival de História)
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CONHEÇA O SITE "ÍNDIO EDUCA"


Conheça o site "índio educa" que tem 200 artigos escritos por indígenas que contemplam assuntos diversos, e vão de aspectos históricos ao cotidiano. A ideia surgiu em 2008, quando a Lei 11.645 tornou a temática "História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena" obrigatória no currículo oficial da rede de ensino e tem por objetivo ajudar professores e estudantes.

O BABALAÔ FALA: A AUTOBIOGRAFIA DE MARTINIANO ELISEU DO BOMFIM



O babalaô fala: a autobiografia de Martiniano Eliseu do Bomfim

Félix Ayoh'Omidire; Alcione M. Amos

Em outubro de 1940, Lorenzo Dow Turner, primeiro linguista afro-americano, chegou a Salvador, na Bahia, com a intenção de coletar informações sobre a cultura afro-brasileira.1 Seu principal interesse era investigar as sobrevivências culturais africanas na cultura afro-bahiana, principalmente com relação ao uso de línguas africanas. Turner foi um pioneiro em seu campo de estudos nos Estados Unidos. Ele determinou, na década de 1930, que a língua falada pelo povo gullah, dos estados da Carolina do Sul e da Geórgia, no sul dos Estados Unidos, não era, como estudiosos brancos tinham afirmado, "um inglês mal falado", tratando-se na verdade de uma língua distinta baseada em mais de 30 línguas africanas e no inglês. Eventualmente, o gullah foi identificado como sendo uma língua crioula. 

Em 1940, Turner ainda não tinha publicado os resultados de sua pesquisa entre os gullah. A investigação que estava a ponto de fazer no Brasil iria lhe fornecer uma visão mais completa das línguas africanas que haviam influenciado o gullah. Turner descobriu que em Salvador, Bahia cidade que, até o presente momento, é a mais africana das cidades brasileiras , havia um terreno fértil para sua pesquisa. As entrevistas que ele fez com afro-brasileiros, que foram gravadas para a posteridade, se tornariam uma fonte, ainda não muito bem explorada, de informações valiosas sobre sua língua e sua cultura.

Uma das pessoas entrevistadas por Turner em Salvador foi o famoso babalaô Martiniano Eliseu do Bomfim. Martiniano tinha nascido em 1859, de pais africanos livres. Era considerado um sábio da cultura afro-brasileira, especialmente do candomblé.3 Turner gravou muitas horas de músicas e narrativas do folclore africano, contadas por Martiniano. Este artigo reproduz o conteúdo das entrevistas que recontam a sua autobiografia. As entrevistas foram feitas na residência de Martiniano, no Caminho Novo do Taboão, número sete, entre doze de outubro e nove de dezembro de 1940. Muitos dos originais, gravados em discos de acetato, estão nos arquivos de música tradicional da Indiana University, nos Estados Unidos. Outros estão arquivados na coleção de Turner, no Anacostia Community Museum, em Washington, D.C. O material na Indiana University foi digitalizado e está disponível para pesquisadores mediante o pagamento de uma taxa. Também estão disponíveis as transcrições feitas pelos assistentes de Turner, que falavam iorubá, datadas da década de 1950. Este artigo inclui material contido nas gravações e em transcrições que se encontram na Coleção Africana da Biblioteca da Universidade Northwestern, em Evanston, Illinois. Partes das entrevistas foram reorganizadas para proporcionar maior clareza na sequência da narrativa e para evitar repetições. A narrativa de Martiniano foi extensamente anotada com informações adicionais obtidas de outras fontes, bem como de entrevistas que ele forneceu para outros autores. Todo esforço foi feito para esclarecer referências obscuras, especialmente aquelas relacionadas à família de Martiniano na África.

A importância dessa autobiografia está no fato de que foi gravada na própria voz de Martiniano e contém informações que ele supostamente pensava serem importantes. Ele enfatiza constantemente o seu vasto conhecimento da língua iorubá, que era, evidentemente, uma fonte de grande orgulho para ele, assim como de admiração pela comunidade afro-brasileira. Numa das gravações feitas por Turner, em uma celebração do 81º aniversário de Martiniano, em dezesseis de outubro de 1940, um admirador não identificado afirma em português que lamentava não ser capaz de falar iorubá e o quanto admirava Martiniano, "o professor", que era capaz de falar três línguas: português, iorubá e inglês.5 É interessante notar que, nessas entrevistas, Martiniano deu grande ênfase a sua participação no culto de Egúngún, mas não mencionou seu envolvimento no candomblé.

Existem algumas discrepâncias nas datas e fatos mencionados por Martiniano quando confrontados com o registro histórico e com entrevistas que ele forneceu para outros investigadores. No entanto, tais discrepâncias não diminuem a importância desta entrevista como um documento histórico. Espera-se que este material possa contribuir para o estudo da história da comunidade afro-brasileira na Bahia na primeira metade do século passado, e que seja também uma importante contribuição para o repertório de informações que já estão disponíveis sobre Martiniano.

O material é apresentado da seguinte maneira: o texto da entrevista, em iorubá, está 
acompanhado da tradução em português. Os comentários aparecem nas notas de rodapé. Além disso, um glossário aparece ao final do artigo, incluindo todas as palavras que aparecem em negrito no texto e nas notas de rodapé.

A co-autora gostaria de prestar seus agradecimentos ao Anacostia Community Museum da Smithsonian Institution, em Washington, D.C. pelo o apoio fornecido ao seu trabalho neste projeto. A Félix Ayoh'Omidire pela soberba tradução do iorubá para o inglês e por todo o apoio que ele lhe proporcionou esclarecendo as muitas dúvidas que teve ao produzir as anotações. Também agradece à Lisa Earl Castillo pelos comentários e sugestões, e à Maria Elisa Rodrigues Moreira pelo trabalho de edição do material em português. Quaisquer erros e omissões são de sua inteira responsabilidade.

ACESSE NA ÍNTEGRA: 




IMAGENS RARAS DA BAHIA VÃO VIRAR DVD E LIVRO


Verena Pacheco / Cachoeira, BA 
Xavier Vatin  não imaginava o que poderia encontrar no acervo de gravações antropológicas da Universidade de Indiana (Estados Unidos), um dos maiores do mundo, quando resolveu fazer pós-doutorado na instituição.

Em sua pesquisa, o professor da Universidade Federal do Recôncavo  da Bahia (UFRB) se deparou com um tesouro desconhecido pelos brasileiros: 52 horas de gravações feitas  pelo linguista norte-americano  Lorenzo Turner entre 1940 e 1941, em  sua passagem pela Bahia, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Sergipe e Mato Grosso.

"Eu não conhecia Lorenzo Turner,  um  neto de escravos da Carolina do Norte,  o primeiro linguista a se formar em Havard e a  mostrar que existiam línguas criolas no país. Ele tem uma história de família incrível: em duas gerações foi da escravidão à excelência acadêmica".
A pesquisa de Vatin recentemente ganhou repercussão nacional por conta da descoberta de uma gravação rara que reproduz a voz do poeta Mário de Andrade (1893 - 1945), inexistente no Brasil.

Na época, a tecnologia era cara e literalmente pesada: os equipamentos e discos de alumínio que guardavam as gravações totalizavam cerca de 250 quilos, um obstáculo a mais para quem viajava em navio a vapor. 
Expedição Bahia

No entanto, o que desperta o interesse do etnomusicólogo são as 17 horas gravadas  por Turner em terreiros de candomblé baianos durante sete meses, nos quais registrou filhos e filhas de santo e  sacerdotes  como Martiniano Eliseu do Bonfim, Manoel Falefá, Mãe Menininha do Gantois e  o jovem Joãozinho da Gomeia.

"Cada minuto é muito precioso. A primeira coisa que eu ouvi foi uma gravação de Mãe Menininha, aos 35 anos, isso me fez chorar. São centenas de cantigas e rezas, além de ritos funerários gravados em diversos terreiros de Salvador, Cachoeira, São Félix, Santo Amaro. O precioso para o povo de santo é que muitas dessas canções e rezas se perderam", explica.
Vatin percorreu 5.000 quilômetros nos Estados Unidos para reunir também as fotografias e anotações de Turner feitas na expedição baiana.

O repatriamento do material vai dar origem a  um CD duplo que será restituído aos terreiros, um livro e uma exposição fotográfica, cuja estreia está marcada para julho, no Museu Afro Brasil, em São Paulo.
"O que acho extraordinário, tanto na fotografia, como nas gravações sonoras, é que Turner traz  literalmente a presença dessas pessoas. Talvez por ser negro, ele deu voz ao povo de santo como ninguém fez", defende o estudioso da musicalidade do candomblé.

Segundo Vatin, Turner foi pioneiro na década em que a Bahia se tornou  referência para os estudos sobre a diáspora africana, antecedendo antropólogos como Pierre Verger, que aportou aqui em 1946.

Entre 1937 e 1946, importantes pesquisadores seguiram os vestígios quase que intactos de elementos africanos no estado. "Neste período, a Bahia foi laboratório de pesquisadores da cultura negra como Ruth Landers,  Verger, Melville Herskovits, Roger Bastide, Edson Carneiro, Arthur Ramos. O trabalho de Turner ficou 72 anos esquecido. Se esse homem não fosse negro, com certeza seria muito mais conhecido", opina o francês radicado na Bahia há 23 anos.

Turner pesquisava as línguas criolas faladas  no Sul dos EUA por descendentes de escravos africanos e foi atraído pela Bahia depois de saber que nos terreiros daqui as pessoas falavam fluentemente iorubá, kibungo e fon, entre outras línguas.


"Essas gravações são os únicos documentos que a gente tem que comprovam que  na década de 1940 as línguas africanas eram ainda faladas dentro dos terreiros. Além de uma mina de ouro para o povo de santo, esse material mostra que há muito tempo vem pessoas do mundo inteiro aqui para pesquisar essa cultura. Este trabalho é uma forma de reforçar a legitimidade da cultura afrobrasileira através da tradição do candomblé".
ACESSE A FONTE: 
http://atarde.uol.com.br/cultura/noticias/1681937-imagens-raras-da-bahia-vao-virar-dvd-e-livro-premium

PALÁCIO ONDE VIVEU O CONDE DOS ARCOS VAI A LEILÃO


O Palácio Conde dos Arcos, situado no Garcia e datado de 1781 vai leilão no dia 1º de julho. O prédio que é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pertence a Fundação Dois de Julho, será vendido para sanear dívidas trabalhistas da entidade que giram em torno de R$ 4 milhões.
De acordo com o diretor-geral da fundação, Marcos Portela, a decisão do leilão foi um acordo com a Justiça do Trabalho para quitar o débito da fundação. "Vamos vender apenas uma área do que temos lá. Com o dinheiro do leilão vamos pagar todas as nossas dívidas trabalhistas. Ainda vai sobrar dinheiro para outras dívidas e para outras atividades da fundação", disse.

A penhora e a designação do leilão foram determinadas pelos juízes Ana Paola Machado e Júlio César Massa, da Central de Execução e Expropriações de Salvador, do Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (TRT-5), durante uma audiência realizada no último dia 5. Ao todo o terreno a ser leiloado tem 6.300 m². Segundo Portela, o valor mínimo por metro quadrado do imóvel é de R$ 2 mil, o que resultaria em um lance mínimo de R$ 12,6 milhões. 

"Esse foi o valor acertado com a Justiça, mas esperamos arrecadar mais", completou. Por ser um bem tombado, a empresa que adquirir a área também deverá preservar o casarão. Ainda segundo o diretor, a venda da área não vai desfalcar a estrutura da fundação. "Vamos perder apenas 12 salas, sacrificamos uma parte para não perder o todo", informou Portela. O diretor completou dizendo que os outros prédios que a fundação tem na região não serão afetados pelo leilão. "Vamos manter lá 42 salas e toda a parte administrativa".

O Palácio

Construído em 1781, o Palácio Conde dos Arcos foi a morada do último vice-rei do Brasil, e também governador da capitania da Bahia, o oitavo Conde dos Arcos, Dom Marcos de Noronha e Brito, que residiu no imóvel por sete anos.
Segundo o Iphan, este solar inicia na Bahia, a transição entre o sobrado urbano tradicional e o novo padrão de casa térrea, ligeiramente elevada, integrada ao jardim.

No pavimento nobre encontram-se azulejos "marmoreados" azuis e amarelos, de composição do tipo grinaldas, procedentes da Fábrica do Rato, que ficava em Portugal, no século XIX.
ACESSE A FONTE: 
http://atarde.uol.com.br/bahia/salvador/noticias/1683692-palacio-onde-morou-vice-rei-vai-a-leilao-em-salvador 

"DOM JOÃO NO BRASIL" - "NOS TEMPOS DE BONAPARTE"

Confira o primeiro episódio do programa "Dom João no Brasil", intitulado "Nos tempos de Bonaparte", que mostra o contexto histórico de Lisboa à época da iminente invasão de Napoleão. O episódio faz parte da série de 12 programetes baseados na Revista em Quadrinhos Dom João Carioca a Corte no Brasil de Spacca, escritor e ilustrador, e da historiadora Lilia Moritz Schwarcz.


CARTÓRIOS DE SÃO PAULO GUARDAM REGISTROS DA ESCRAVIDÃO

Lucas Ferraz 
de São Paulo. 
O livro empoeirado e com sinais visíveis de ácaro registra o negócio formalizado pelo senhor José (o sobrenome é ilegível) num longínquo 23 de outubro: a compra da escrava crioula Benta, uma adolescente de 14 anos. Valor: um conto e seiscentos mil réis —aproximadamente R$ 1.750.
No mesmo tomo, há mais registros da escravidão na cidade de São Paulo no ano de 1875: uma relação de escravos —cerca de 300— de uma fazenda no Paraná trazidos para a cidade, cartas de alforria e documentos que mostram até a permuta de escravos por animais.
Foto: Marlene Bergamo/Folhapress
Documentos arquivados no Primeiro Tabelião de Notas, em São Paulo. 
Uma rica documentação sobre a escravidão em São Paulo está dispersa, sem a necessária análise e preservação, no cartório do Primeiro Tabelião de Notas, pioneiro na cidade. O material se encontra num cofre, misturado a outros documentos como escrituras de casas e fazendas na incipiente cidade.
Pesquisadores do período criticam o fato de esses registros, essenciais para entender o cotidiano da escravidão urbana, permanecerem sob o poder de tabeliães, que exercem um serviço público, mas de caráter privado.
"Não faz o menor sentido uma documentação tão valiosa como essa ficar num cartório. É sintomático que São Paulo, que sempre escondeu a escravidão, mantenha esses documentos escondidos", disse a historiadora Maria Helena P. T. Machado, professora titular do departamento de história da USP e especialista em escravidão.
Por ser o último país do Ocidente a abolir a escravidão, em 1888, pululam nos cartórios do país registros como os de compra e venda de escravos e cartas de alforria.
Alguns já destinaram esse acervo para fichamento e estudo, caso do Segundo Tabelião da capital, que enviou para o Arquivo Público do Estado de São Paulo toda a documentação relativa ao período que vai de 1742 a 1937.
No Primeiro Tabelião de Notas, constam registros a partir de 1740. Todos estão no cartório, no bairro de Santa Cecília, e podem ser consultados. Mas não há preservação adequada para documentos tão antigos e faltam também funcionários com expertise para decifrar textos arcaicos, de difícil compreensão.
Marlene Bergamo/Folhapress
No Terceiro Tabelião de Notas, criado seis anos antes da abolição da escravatura, também constam, ainda que em menor número, páginas com registros do período.
A polêmica é quanto à obrigatoriedade de enviar os papéis aos arquivos para serem estudados e preservados.
A Lei de Arquivos diz que a administração da documentação cabe às instituições arquivísticas do Estado. Já a legislação que regulamenta a atividade cartorial nada prevê sobre a destinação desses registros históricos. É o argumento do tabelião Aldo Neves Filho para manter o material no Primeiro Cartório.
"Os arquivos públicos não têm condições de manter todos esses registros", diz Ubiratan Guimarães, presidente do Colégio Notarial do Brasil.

Ele afirma que, para um cartório doar parte do acervo a um arquivo, é necessário uma autorização judicial. 
ACESSE A FONTE: 

III ENCONTRO ESTADUAL DE ENSINO DE HISTÓRIA


CONVERSANDO COM SUA HISTÓRIA


A Fundação Pedro Calmon (FPC), através do Centro de Memória da Bahia (CMB), convida a todo(a)s para participar da palestra “A história da África e as africanidades nas escolas: alguns problemas metodológicos e curriculares para o ensino-aprendizagem uma década após a Lei 10.639/03", que será ministrada pelo professor Me. Antônio Cosme Lima da Silva, em 25 de maio, mês dedicado a discussão Bahia-África no curso Conversando com a sua História, organizado pelo Centro de Memória da Bahia/FPC.

Data: 25 de maio de 2015
Horário: 17 horas

Local: sala Kátia Matoso – auditório da Biblioteca Pública do Estado da Bahia.

ENEARQ SALVADOR


O Instituto de Ciência da Informação da Universidade Federal da Bahia realizará no período de 27 a 31 de julho de 2015, o I Seminário de Pesquisa em Arquivologia da UFBA.
O evento objetiva estimular o debate sobre a pesquisa em Arquivologia, mediante a interlocução entre docentes, estudantes (iniciação científica, mestrado e doutorado) e profissionais que atuam na área de Arquivologia.
Os interessados em apresentar comunicações orais poderão submeter resumos expandidos que destaquem os resultados de pesquisas acadêmico-científicas de pós-doutorado, doutorado, mestrado, especialização, Pibic e TCC, além de projetos de pesquisas em geral na área em apreço.
As inscrições encontram-se abertas e podem ser realizadas, gratuitamente, no sitio eletrônico do evento (http://www.iseparquivologia.ici.ufba.br/).
O prazo de submissão de resumos expandidos ocorrerá de 30/04 a 30/05/2015.
Participem!
Informações:
E-mail: Iseparq@ufba.br
Local: Instituto de Ciência da Informação / UFBA
Rua Basílio da Gama, s/n – Campus Universitário do Canela
CEP: 40110-100  - Salvador/BA




OS BANQUEIROS DO TRÁFICO

                                                                   Torre do Tombo - A contabilidade da escravidão 
                                                                   Uma conta de compra de escravos em Luanda

Documentos antigos evidenciam papel dos grandes negociantes de Lisboa nas operações com escravos em Angola
 CARLOS FIORAVANTI | ED. 231 | MAIO 2015

Em 1740, o português Domingos Dias da Silva era um capitão de navio que transportava tecidos, aguardente, vinho e armas de fogo para Luanda, o maior porto ligado ao tráfico de escravos em Angola, então uma colônia portuguesa. Silva vendia as mercadorias, recebia parte do pagamento na forma de papéis chamados letras ou em livranças, que funcionavam como promissórias, e parte na forma de escravos. Depois de entregar os escravos no Brasil, ele trocava as letras por moedas de ouro, enchia os porões de açúcar e voltava para Lisboa, fechando uma viagem que poderia ter começado dois anos antes. Silva ganhou dinheiro suficiente para participar do leilão de contratos de escravos, promovido pelo governo português, e oferecer mais que os concorrentes. Depois de 25 anos, ele se tornara contratador, cobrando impostos em nome do rei sobre os negócios com escravos e acumulando riqueza, poder e prestígio.

Sua trajetória expõe a complexidade comercial do tráfico de escravos entre Portugal, Angola e Brasil, que o historiador Maximiliano Menz, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), está reconstituindo por meio de dois conjuntos de documentos encontrados por ele na Torre do Tombo, um dos arquivos históricos de Lisboa. O primeiro conjunto, consultado pela primeira vez em 2011, são os quatro livros de contratos de exportação de escravos comprados em Luanda de 1763 a 1770. Nessa época, em média 9 mil africanos saíam por ano de Angola como escravos. Ao longo de três séculos, quase 6 milhões de africanos saíram principalmente de Angola para trabalhar nas minas de ouro e nas plantações de cana-de-açúcar do Brasil.
O segundo conjunto de documentos emergiu em outra viagem, em janeiro deste ano: são os cerca de 230 livros – quatro por ano, cada um com 600 páginas – dos registros de mercadorias que passaram pela alfândega de Lisboa ao serem embarcadas para Luanda de 1748 a 1807. Nos 28 livros que já examinou, Menz contabilizou cerca de 2 mil lançamentos com nomes de pessoas e mercadorias e concluiu que, embora os negócios estivessem concentrados nas mãos de grandes negociantes como Silva, centenas de pessoas participavam, até mesmo padres, que poderiam enviar vinhos a serem trocados por escravos em Luanda. “Sim, padres”, diz ele. “Não havia problema nenhum. Pelo padrão religioso da época, o tráfico de escravos era uma forma de salvar almas do inferno porque os negros recebiam o batismo antes de entrarem nos navios rumo ao Brasil.”

Com esses documentos, Menz está ressaltando o papel central dos contratadores portugueses e dos contratos de exportação na geração dos mecanismos de crédito e de capitais associados ao tráfico de escravos. “O contratador funcionava com um banco, emprestando dinheiro por meio das livranças emitidas em Luanda como forma de pagamento pelas mercadorias”, diz ele. “Os papéis eram trocados por dinheiro no Brasil, quando os escravos eram vendidos.”


Vista panorâmica de Luanda em 1755, com a Sé, na cidade alta (à esquerda) e o forte de São Miguel (à direita)

Menz está confirmando uma hipótese do historiador Joseph Miller, da Universidade de Virgínia, Estados Unidos: “Miller propôs que os mercadores de Lisboa, graças ao controle do contrato de escravos, monopolizavam o financiamento do negócio, fazendo uso de uma série de privilégios garantidos por esses contratos e, desse modo, forneciam a maior parte das mercadorias que eram utilizadas para a compra dos escravos no interior de Angola”.
“Nessa época, os homens de negócio do Brasil atuariam principalmente no mercado de fretes, oferecendo transporte para a mercadoria humana a ser vendida no Brasil”, propõe Menz, apresentando uma alternativa a uma visão comum entre historiadores, segundo a qual os negociantes brasileiros é que controlavam o tráfico. “É esta a interpretação nos trabalhos de Luiz Felipe de Alencastro, Manolo Florentino, Roquinaldo Ferreira e Alexandre Vieira Ribeiro, mas existem pesquisas mais recentes que também reconhecem o protagonismo das comunidades mercantis de Lisboa ou dos mercadores de Luanda e Benguela, como as teses de Gustavo Acioli Lopes, Jaime Rodrigues, Daniel Domingues Dias Silva, Mariana Cândido e o doutorado, em andamento, de Jesus Bohorquez.”

Enquanto ao norte, nas regiões então chamadas de Guiné e Mina, os europeus ancoravam os navios nos portos e apenas compravam os escravos capturados por mercadores africanos, em Angola, por ser uma colônia portuguesa, a participação dos europeus era mais intensa. Em Luanda, a capital, o tráfico de escravos havia se tornado a principal fonte de renda da população formada por portugueses e mestiços, que representavam metade dos cerca de 5 mil habitantes da cidade (a outra metade era de escravos, parte deles à espera dos navios que os levariam para as Américas).

Os portugueses financiavam a compra de escravos no interior pelos comerciantes locais, em geral negros ou mulatos, que podiam dar calote ou morrer, por causa de malária, febre amarela e outras doenças comuns. O risco maior era a perda de escravos, que muitas vezes não resistiam à travessia do oceano rumo ao Brasil, reduzindo o lucro. Para evitar esse risco, os negociantes preferiam receber o pagamento em livranças ou em letras, trocadas no Brasil por ouro ou produtos coloniais como açúcar, algodão e tabaco, enviados para Lisboa.

A corrente de crédito funcionou até que Domingos Dias da Silva, como contratador, resolveu mudar as regras: parou de emprestar para os outros comerciantes, por meio das livranças, e forçou a compra de mercadorias que ele enviava de Lisboa. Não deu certo, porque quase ninguém tinha dinheiro vivo para usar. Segundo Menz, o governador de Angola, Francisco Inocêncio Coutinho, pressionado pelos comerciantes, escreveu para Sebastião José de Carvalho e Melo, o marquês de Pombal e secretário de Estado do reino. Em 1770, para encerrar a confusão, Pombal extinguiu os contratos e determinou que os impostos sobre a venda de escravos seriam administrados diretamente pela Fazenda real. Apesar dos imprevistos, Silva aparentemente não faliu e anos depois morreu rico. O tráfico foi abolido em 1830, mas nos anos seguintes muitos escravos ainda foram capturados e enviados ilegalmente de Angola para o Brasil.

Projeto
Uma história econômica do tráfico de escravos em Angola: financiamento, fiscalidade, transporte (c. 1730-1807) (nº 2014/14896-9); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador Responsável Maximiliano Mac Menz (Unifesp); Investimento R$ 37.344,11 (FAPESP).

Artigo científico

REVOLTA DOS MALÊS 186 ANOS

CONVERSANDO COM SUA HISTÓRIA

Prezado(a)s,

A Fundação Pedro Calmon, através do Centro de Memória da Bahia, convida a todo(a)s para participar da 13ª edição do curso Conversando com a sua História. Iniciado em 2002, esse projeto tem apresentado palestras sobre a História da Bahia nos períodos colonial, imperial e republicano. Os encontros são abertos ao público, tornando cada palestra uma oportunidade de debater acerca da história baiana com pessoas de diferentes áreas, formações e interesses.

A palestra de abertura tem como título “Africanos libertos, catolicismo e a articulação de uma comunidade mercantil (Agoué 1840-1860)”, e será ministrada pelo professor Dr. Luis Nicolau Parés, em 18 de maio de 2015, às 17 horas, na sala Kátia Matoso – auditório da Biblioteca Pública do Estado da Bahia.

Contamos com sua presença!
Maiores informações e inscrição pelo contato cmb.fpc@fpc.ba.gov.br/3117-6067

Resumo:
Esta palestra trata do catolicismo afro-brasileiro levado para a África Ocidental por libertos africanos vindos da Bahia, antes da chegada das missões católicas europeias, na década de 1860. A partir da análise de duas cerimônias batismais celebradas em 1846 e 1855, na cidade de Agoué (no Benim), serão discutidos aspectos parciais da história religiosa dos retornados agudas e como sua adesão (mais do que conversão) ao catolicismo contribuiu para a articulação de uma comunidade mercantil, cuja atividade principal, nesse período inicial, era o tráfico de escravos.

Luis Nicolau Pares é doutor em Antropologia da Religião pela School Of Oriental And African Studies University Of London. Autor do livro A formação do Candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia e co-organizador da obra Sorcery in the Black Atlantic. Desde 2004 é professor adjunto no Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia. Especialista na área da história e antropologia das populações afro-brasileiras e da África ocidental.



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SOFTWARE QUE TRANSFORMA LETRA CURSIVA EM CARACTERES


O americano Thomas Binford e sua mulher, a brasileira Ione, se mudaram para Bangalore e criaram software que transforma letra cursiva em caracteres.

Professor aposentado de ciência da computação na Universidade Stanford, no coração do Vale do Silício, o americano Thomas Binford, 70  anos, chegou a Bangalore no começo da década passada com a mulher Ione, uma brasileira ex-executiva da HP. Desembarcaram com cinco malas carregadas de equipamentos e a intenção
de caçar ideias. “Mal pude carregar  meus sapatos, mas valeu a pena”, contou Ione a INFO. Depois de dez anos e 8 milhões de dólares do patrimônio pessoal investidos, os Binford criaram um software que transforma letra de mão em caracteres digitais legíveis
na tela de um computador ou tablet. Não se trata de escanear os textos.O programa é capaz de transformar garranchos em caracteres legíveis ao interpretar os códigos que saem de cada escrita. O sistema inventario por Tom Binford tem precisão de 94%, cerca de 7 pontos porcentuais acima de programas similares. Documentos escritos à mão, como certidões de nascimento, ou casamento antigas, manuscritos de
empresas e formulários poderão virar arquivos digitais de fácil localização. O princípio é interpretar os padrões de escrita por meio de algoritmos e, com a ajuda de inteligência artificial, análise de sistemas e de semântica, permitir que a máquina reescreva cada frase de acordo com a gramática e o léxico de um idioma. O primeiro será o
inglês. Em sua versão final, prevista para este ano, o software será vendido pela Read-Ink, a empresa do casal.
  
FONTE: Revista Info, setembro de 2011, páginas: 84/85. 

PESQUISAS NA ÁREA DE HISTÓRIA


Chamo-me Eduardo Cavalcante e sou graduado em História pelo Instituto de Ciências Humanas e Filosofia (ICHF) da Universidade Federal Fluminense (UFF). Possuo sólida experiência profissional na área de pesquisa documental, tais como, coleta de dados, transcrição e análise de documentos para os séculos XVII, XVIII, XIX e XX. Desde 1999, atuo prestando serviços de maneira autônoma e sem vínculo empregatício para mestrados, doutorados, pós-doutorados e outros tipos de atividades históricas, coletando o maior número possível de informações que venha a embasar esses trabalhos e detenho experiência prática relativa à organização e ao arranjo dos acervos documentais dos principais arquivos do Rio de Janeiro. Compreendo bem o idioma espanhol e este é o meu e-mail para futuros contatos: cvlcnt@uol.com.br
Para outros esclarecimentos é possível acessar o meu currículo através deste site:

A TRAGÉDIA DO TABOÃO


"Chuvas torrenciais castigam Salvador. Na noite de 02 de maio de 1935, dia que sucede o feriado do dia do trabalho, a sirene do Corpo de Bombeiros é acionada motivando o trem de socorro do 1º Grupamento de Bombeiros- Militares a se deslocarem para o bairro do Taboão no Beco do Frazão onde acabara de acontecer desabamento de casas causado por um deslizamento. Enquanto os bravos bombeiros buscavam por vidas no trabalho rude da escavação da terra para descoberta dos corpos soterrados houve um segundo deslizamento de um bloco grande de terra que encheu todo o beco de Frazão. Alguns eram conduzidos à assistência, sendo medicado, porém, 01 oficial e 07 praças foram soterrados".
ACESSE: 

SOFTWARE PERTITE A TRANSFORMAÇÃO DE DOCUMENTOS MANUSCRITOS HISTÓRICOS EM ARQUIVOS DIGITAIS

Carta do século XIX sobre Mesa Cartesiana 

Registro da escrita
Novo método facilita a transformação de documentos manuscritos históricos em arquivos digitais
MARCOS DE OLIVEIRA | ED. 230 | ABRIL 2015

A dificuldade em manusear documentos históricos raros e manuscritos para análise dos textos levou um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) a desenvolver um método de fotografia que facilita a transcrição e compreensão de fenômenos linguísticos de uma época. “Existem documentos e livros antigos para os quais o método tradicional de obtenção da imagem por escaneamento pode prejudicar ou até destruir o original porque é preciso, muitas vezes, dobrá-los ou desencaderná-los para uso no escâner”, diz o professor Jorge Viana Santos, do Laboratório de Pesquisa em Linguística de Corpus (Lapelinc) da Uesb. O objeto de estudo dos pesquisadores são livros e documentos cartoriais manuscritos do século XIX que já tiveram grande manuseio e cujo estado é bem frágil. “Diferentemente da fotografia, no escaneamento o documento é que se adapta ao aparelho e não o contrário”, diz. Para a digitalização de documentos impressos, já existem softwares bem difundidos que levam o nome de reconhecimento óptico de caractere (OCR na sigla em inglês) e podem ler o documento a partir de escâneres e transformá-lo em digital. Em documentos manuscritos não existe essa possibilidade.

O método criado pelo professor Santos em colaboração com a professora Cristiane Namiuti Tempon, também da Uesb, começa com a captura da imagem em uma câmera fotográfica. Para isso, o documento é assentado em uma espécie de placa plana de plástico de cor cinza e quadriculada milimetricamente, característica que serve para informar no computador a exata medida do papel. Denominada pelo grupo de Mesa Cartesiana, sobre ela também são colocadas escalas de tom de cores, informações catalográficas, paginação e sequência. A página do documento pode tanto ser apresentada no computador com todas essas informações como também de forma recortada, apenas a parte manuscrita.
Transcrição em caracteres para estudo do português da época

Detalhes na tela
A transposição do documento do mundo físico, intermediado pela fotografia, para a formatação digital, é feita por um software desenvolvido também no Lapelinc. Ele permite interpretar esses dados e recuperar numa tela de computador os tons e cores originais de um documento. Assim, o método faz a transposição de documentos manuscritos históricos para a formação de conjuntos de textos eletrônicos com aspecto próprio para pesquisa científica.

As vantagens do Método Lapelinc se expandem também na facilidade de aumentar o texto original na tela do computador para verificar detalhes ou tirar dúvidas em relação à escrita. Com o documento digital é possível fazer várias consultas sem deteriorar o material histórico. Segundo Santos, o novo método contribui para a análise dos paleógrafos, especialistas que leem o texto para estudos de linguagem e fazem a transcrição e adaptação ao português atual se for o caso. A linguística de corpus (texto para análise) necessita do original em caracteres para a compilação de corpora (conjunto de corpus) para análise linguística automática. “Nosso método permite montar o corpus eletrônico que forma um banco de dados no qual é possível identificar cada palavra e etiquetá-la, facilitando o trabalho do linguista na busca pelo seu objeto de estudo; pode-se, assim, etiquetar substantivos e verbos, por exemplo”, diz Santos. “O historiador pode ler na linguagem de hoje, mas o linguista quer saber como o texto foi concebido naquela época para determinar o padrão e a evolução da linguagem.”

O trabalho de estrutura do Método Lapelinc começou em 2008 e ainda não terminou, faltando a finalização do software para fazer a transcrição e a edição do texto. Todo o sistema criado na Uesb também pode ser útil em outras instituições acadêmicas e até em empresas. “Fazemos pesquisa e um apoio externo ou comercial não muda nosso trabalho, mas o protótipo pode levar a um produto, porque o método é passível de uma patente. No momento estamos finalizando seu desenvolvimento”, explica Santos. O trabalho teve financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica (CNPq) e da própria universidade.

Artigo científico

Santos, J. V. e Brito, G. S. Fotografia técnica de documentos para formação de corporadigitais eletrônicos: o método desenvolvido no Lapelinc. Letras & Letras. v. 30, n. 2, p. 421-30. jul./dez. 2014. 
Todos os créditos: Marcos de Oliveira