Havard-Brazil Dialogues Online: História e Pandemias no Brasil



Venham participar dia 13 de Maio da conversa entre os Historiadores Sidney Chalhoub (Harvard University) e João José Reis (UFBA), com mediação da Professora Marcia Castro (Harvard University) sobre pandemias e seus impactos sociais, econômicos e culturais na História do Brasil.
Esse diálogo será realizado via Zoom, quarta-feira, dia 13 de Maio, às 16:00 (horário de Brasília) e será em português.

"Entre a solidariedade e o egoísmo, os patrões escolhem defender seus próprios interesses", afirma o historiador Antonio Luigi Negro


Entre a solidariedade e o egoísmo, patrões escolhem defender seus próprios interesses
Marina Lemle | Blog de HCS-Manguinhos
Em tempos de isolamento social e confinamento doméstico como medidas de proteção contra a pandemia do novo coronavírus, o campo da história social do trabalho ganha visibilidade, e sua importância torna-se ainda mais evidente. Para falar sobre o tema, convidamos o historiador Antonio Luigi Negro, professor da Universidade Federal da Bahia e pesquisador CNPq.

Gino, como é conhecido, recentemente deu uma entrevista extremamente relevante sobre o campo da história social do trabalho ao programa Labuta, produzido pelo Laboratório de Estudos da História dos Mundos do Trabalho da UFRJ, disponível no final desta entrevista concedida ao Blog de HCS-Manguinhos.

“Nesse momento, pelo bem do Brasil, a parte forte deve dividir um pouco de sua força, protegendo e socorrendo os trabalhadores, a fim de que a economia não seja mais duramente afetada agora e se recupere com força total numa fase de normalização”, defende Gino.

O pesquisador é autor de um artigo que será publicado este ano na seção Imagens da revista HCS-Manguinhos (v. 27 n.3), intitulado “O cartão postal no Brasil do início do século XX: suporte para o encontro entre imagem e ação”.

Como o novo coronavírus interfere nas relações de trabalho durante e depois da pandemia?

Carreatas nas cidades brasileiras – com patrões enclausurados em carros com ar condicionado – exigem a volta ao trabalho de empregados que estão em suas casas cuidando de si e das suas famílias, provisoriamente afastados de conduções coletivas caras e de péssima qualidade, além de contagiosas. O coronavírus interfere diretamente nas relações ao provocar uma situação em que, entre a solidariedade e o egoísmo, os patrões escolhem a defesa de seus próprios interesses enquanto tomam os devidos cuidados particulares para evitar o contágio ou tratar sintomas. Patrões devem obrigatoriamente informar seus funcionários da existência de vítimas da infecção no local de trabalho, a fim de certificar os que estão saudáveis. Como todos sabem, o trabalho é a parte fraca das relações empregatícias. Nesse momento, pelo bem do Brasil, a parte forte deve dividir um pouco de sua força, protegendo e socorrendo os trabalhadores, a fim de que a economia não seja mais duramente afetada agora e se recupere com força total numa fase de normalização.

Qual a importância desse campo de pesquisa da história frente a uma pandemia?

A história social tem revelado o quanto os povos indígenas sofreram com a conquista europeia, já que não eram imunes às doenças que os brancos transmitiam. Agora é a nossa vez, pois ninguém tem imunidade ao coronavírus. A história social também já revelou como Rui Barbosa preferia investir em política pública contra a febre amarela a fim de manter a imagem, lá fora, do Brasil como um lugar saudável para estrangeiros. Não houve o mesmo empenho no tratamento da tuberculose, doença que pega nos trabalhadores brasileiros, com alto índice de letalidade. A história social, em acréscimo, já deixou claro que vacinação é uma medida que tem de ser tomada tendo em conta os direitos de cidadania do público a que se destina, sendo a Revolta da Vacina o seu caso paradigmático. A pesquisa em história social adicionalmente demonstra ser necessário o cuidado com todos os seres, humanos e não-humanos. Por fim, a história social contribui decisivamente ao mostrar a importância dos trabalhadores da saúde, não apenas médicos e enfermeiros, mas toda mão-de-obra envolvida nas políticas públicas de saúde: os técnicos nos laboratórios, os agentes contra o mosquito da dengue, por exemplo, os terceirizados, os funcionários da limpeza, transporte e alimentação. Esta é fileira que está na linha de frente do combate frontal contra o coronavírus. A pesquisa científica da área de humanas no Brasil tem excelência internacional e está sendo virulentamente perseguida porque tem compromisso com a verdade dos fatos históricos, o que passa pela avaliação cuidadosa do papel das elites dirigentes na condução dos interesses nacionais.

Gostaria de acrescentar algo?

Sim, gostaria. Nem as redes sociais nem Madero falam a verdade quando dizem ser sua missão construir um mundo melhor. As redes sociais rejeitam controlar o vírus da mentira, do preconceito e do ódio porque lucram com isso. É necessário urgentemente taxar as grandes fortunas a fim de distribuir a renda e cuidar da saúde, educação, moradia e transporte. E também da ciência: é preciso aumentar o número e o valor das bolsas do sistema de pós-graduação do Brasil, bem como dos programas de iniciação científica. Isto é para ontem!

ACESSE A FONTE:  

ASSISTA A ENTREVISTA:

Peça de cerâmica encontrada na Avenida Sete pode ser urna tupi-guarani pré-colonial


(Foto: Bruno Concha/Secom PMS)

Peça de cerâmica encontrada na Avenida Sete pode ser urna tupi-guarani pré-colonial
Uma peça de cerâmica, em formato oval, provavelmente uma urna de sepultura tupi-guarani pré-colonial, foi descoberta durante escavações na Avenida Sete de Setembro, em Salvador. A peça tem com 80 centímetros de comprimento e 60 de largura, e foi encontrado próximo ao Relógio de São Pedro pela equipe de arqueologia que trabalha na obra de requalificação da via e da Praça Castro Alves.


(Foto: Bruno Concha/Secom PMS)

De acordo com a equipe, trata-se de uma tampa e um vasilhame com um corpo sepultado. Há indícios de que o corpo seja de um homem, provavelmente um índio tupi-guarani, que pode ter vivido em Salvador entre os séculos XIV e XVI. O total resgate do material da avenida está em andamento. Em agosto de 2019, restos de uma tupi-guarani já haviam sido encontrados pela equipe de arqueologia.


“O vasilhame tem decoração na parte interna, um indicativo de que foi confeccionado para um ritual de enterramento. O corpo dentro da urna também nos evidencia isso. O material que forma a cerâmica e a pintura nos trazem sinais de que é uma urna tupi-guarani. Para mim, não há dúvidas. A arqueologia ainda não tinha encontrado um vestígio material da existência desses índios. É a primeira urna pré-colonial a ser encontrada em Salvador e pode auxiliar a contar a história da presença desses indígenas aqui”, afirmou o arqueólogo coordenador da obra, Claudio Cesar de Souza e Silva.
O secretário de Cultura e Turismo de Salvador, Pablo Barrozo, destacou a importância do trabalho arqueológico que foi feito na Avenida Sete para a história da cidade. “Ao longo das escavações, pudemos desvendar parte da nossa história. Tudo isso foi feito com muito cuidado e respeito ao passado, com um grande estudo aprovado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional)  e com uma equipe qualificada”, disse.


(Foto: Bruno Concha/Secom PMS)

Artefatos históricos
Mais de 12 mil artefatos históricos foram retirados da Avenida Sete e da Praça Castro Alves durante o trabalho de arqueologia. Além das estruturas fixas, como o achado da Praça Castro Alves (restos de uma fonte e do Teatro São João), foram encontrados ossos humanos, moedas, cachimbos, uma bala de canhão, garrafas de vidro, além de contas de colares e faianças (cerâmicas) portuguesas do século XVI.


(Foto: Bruno Concha/Secom PMS)

As estruturas da Igreja de São Pedro e uma fonte de água foram outros itens encontrados durante as escavações na altura do Relógio de São Pedro. Uma imagem de Nossa Senhora do Rosário ou da Saúde também foi achada na via.

O trabalho de arqueologia teve três etapas (prospecção, resgate e monitoramento) e foi autorizada previamente pelo Iphan, que acompanha todos os achados e autoriza o resgate do material do solo. O terceiro trecho (entre o Relógio de São Pedro e o Sulacap) está agora passando por resgate, quando materiais são recolhidos do solo. Após o fim das obras, todos os materiais serão transportados e disponibilizados para estudo no Centro de Antropologia e Arqueologia de Paulo Afonso.
ACESSE A FONTE: 

SEMINÁRIO ONLINE "HISTÓRIA DA BAHIA: AVANÇOS E DESAFIOS NOS ÚLTIMOS VINTE ANOS"


SERVIÇO DE PESQUISA HISTÓRICA EM TEMPOS DE CONFINAMENTO



Em razão da atual circunstância negativa pela qual o Brasil e o mundo têm passado por conta da pandemia do corona vírus, forçosamente, eu e muitas pessoas que possuem fortes ligações profissionais com os arquivos históricos do Rio de Janeiro fomos postos de quarentena. Até o presente momento, essa interdição – recomendada pelas autoridades de saúde das três esferas de governo, começou a ser praticada na tarde do dia 16/3 e deve se estender por até quinze dias corridos.
Por conta disso, sou forçado a adequar a minha rotina de trabalho a esse atual panorama adverso. E, dentre as tarefas que executo, uma delas é a transcrição de fontes primárias – sejam elas digitalizadas por instituições arquivísticas ou aquelas que são fotografadas por historiadores, antropólogos, sociólogos e cientistas sociais. Assim sendo, se você ou algum colega de profissão estiver precisando de alguém que realize esta atividade, por favor, indique-me. Estes são os meus dados para futuros contatos: 21-99559-0263 (Whatsapp) e cvlcnt@uol.com.br (E-mail).
Coloco-me à disposição para esclarecer qualquer dúvida que surja a respeito.
Um abraço e saúde. Eduardo Cavalcante.

Senado aprova projeto que regulamenta profissão de historiador



O Senado aprovou nesta terça-feira (18), em Plenário, projeto que regulamenta a profissão de historiador e estabelece os requisitos para seu exercício. O texto aprovado foi um substitutivo (texto alternativo) da Câmara dos Deputados ao PLS368/2009. O projeto segue para a sanção presidencial.

De acordo com o substitutivo (SCD 3/2015), poderá exercer a atividade de historiador quem tem diploma de curso superior, mestrado ou doutorado em História; diploma de mestrado ou doutorado obtido em programa de pós-graduação reconhecido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) com linha de pesquisa dedicada à história; e profissionais diplomados em outras áreas que comprovarem ter exercido a profissão de historiador por mais de cinco anos a contar da data da promulgação da futura lei.

 — É uma luta histórica dos historiadores e hoje se torna realidade. Tenho quase certeza de que será sancionado — afirmou o autor do projeto, senador Paulo Paim (PT-RS).

Atribuições
Entre as atribuições dos historiadores, o texto prevê o magistério da disciplina de história nas escolas de ensino fundamental e médio, desde que cumprida a exigência da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/1996) quanto à obrigatoriedade da licenciatura.

O profissional poderá ainda planejar, organizar, implantar e dirigir serviços de pesquisa histórica; assessorar, organizar, implantar e dirigir serviços de documentação e informação histórica; e elaborar pareceres, relatórios, planos, projetos, laudos e trabalhos sobre temas históricos.
Registro
Para o provimento e exercício de cargos, funções ou empregos de historiador, o projeto exige registro profissional junto à autoridade trabalhista competente. Já as entidades que prestam serviços em história deverão manter historiadores legalmente habilitados em seu quadro de pessoal ou em regime de contrato para prestação de serviços.

O projeto do Paulo Paim foi modificado pela Câmara, que introduziu a previsão de que o exercício da profissão de historiador deixará de ser privativo dos historiadores para se tornar apenas “assegurado” a esses profissionais, eliminando a possibilidade de reserva de mercado.


REVISTA MUNDOS DO TRABALHO CHAMADA DE ARTIGOS PARA DOSSIÊ TEMÁTICO 2020



Apresentação:

A construção de estradas, ferrovias, linhas telegráficas, canais, açudes, portos e usinas encontra-se na base dos processos de modernização econômica da maioria dos países. A execução desses empreendimentos promove sensíveis impactos sociais e ambientais, e é comum que a finalização de grandes obras seja marcada por cerimoniais festivos, com engenheiros, autoridades e governantes angariando o prestígio das inaugurações. No outro lado do processo, inseridos no nada prestigiado cotidiano de trabalho, estão os trabalhadores da construção, homens, mulheres e crianças, na maioria pobres, constituindo turmas de operários, afastados de seus locais de moradia, que atravessam duríssimas jornadas executando no anonimato as prosaicas atividades de escavar, carregar, quebrar... Por lidarem com serviços pesados, as turmas de construção costumam ser formadas pelas composições mais desprotegidas das classes trabalhadoras, executando suas tarefas à céu aberto, padecendo de doenças, vivendo em acampamentos precários, muitas vezes sob regimes de trabalho compulsórios, recebendo baixos salários, às vezes com pagamentos atrasados, às vezes ficando sem receber. Como disse Karl Marx, compõem a “infantaria ligeira do capital”, geralmente proveniente do campo, mas que exercem atividades industriais. Este dossiê pretende reunir estudos que abordem essa multifacetada modalidade de trabalhadores da construção, numa perspectiva global e a partir de casos transcorridos nos mais diversificados tempos e lugares. Comporta, portanto, pesquisas focadas nas diversas regiões brasileiras, mas também relacionadas a outros países, incluindo empreendimentos transnacionais que envolvam o trânsito de trabalhadores por fronteiras. Engloba uma temporalidade igualmente ampla, remontando aos primórdios da expansão do capitalismo até nosso tempo presente, com todas as fases de expansão verificadas nos meios de transporte, comunicação e infraestrutura industrial. Não há restrição de abordagens neste dossiê, sendo bem-vindas investigações no âmbito da História Social que versem sobre as condições dos trabalhadores nos processos de construção, suas formas de resistência e protestos. Considerações sobre gênero, etnicidade, nacionalidade, racismo, qualificação no trabalho, controle de classe, organização sindical e articulações políticas são também de grande importância.



Além de artigos em fluxo contínuo (em português, espanhol ou inglês), resenhas e entrevistas, Mundos do Trabalho está com chamada aberta de artigos para o dossiê temático indicado abaixo.

Dossiê: "Trabalhadores de construção: por estradas, ferrovias, açudes e outras obras".

Organização: Tyrone Cândido (UECE) e Robério Souza (UNEB). 

Calendário:
Período para submissão de artigos: 01/02/2020 - 01/07/2020
Período para avaliação e decisão sobre publicação dos artigos: 01/07/2020 - 01/09/2020
Período para publicação dos artigos selecionados: 01/09/2020 – 01/12/2020

Atenção:
Todos os manuscritos precisam estar estritamente dentro das normas de publicação de Mundos do Trabalho. Diretrizes para Autores podem ser acessadas no seguinte link:
Manuscritos submetidos fora das normas serão automaticamente denegados pela Editoria.

ACESSE: 
https://periodicos.ufsc.br/index.php/mundosdotrabalho



16 DE JANEIRO, 130 ANOS DA CRIAÇÃO DO ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DA BAHIA



Em 16 de janeiro de 1890, era criado o Arquivo Público do Estado da Bahia, mas hoje não comemoramos apenas os 130 anos dessa histórica instituição, mas também um ano de seu fechamento para obras.
A história dessa instituição não mudou ao longo de 130 anos, sempre funcionou de forma precária e nunca teve um local apropriado para salvaguardar o seu rico acervo. Vejamos o que nos relata a Revista Ilustrada de 1919.

“O Arquivo, que muito mal acomodado se achava no acanhado pavimento térreo de uma casa à rua da Ajuda, foi a pouco mudado para um belo e espaçoso sobrado, de três pavimentos, sito à rua Carlos Gomes, também alugado. Não é, porém, ainda uma instalação definitiva, porquanto entendo que um arquivo deve ser estabelecido em edifício adrede construído para esse fim, com todas as garantias contra o incêndio e outras causas de perda dos seus importantes documentos e objetos, a qual para muitos deles seria irreparável. E se o Governo ainda não supriu essa falta, mandando edificar para útil repartição de que trato um prédio das referidas condições, foi poque os recursos de que dispunha não foram suficientes para isso, tendo de aplicar-se a outras obras não menos urgentes. Para que, todavia, ficassem guardados com toda a segurança os documentos de maior valor existentes no Arquivo, foi fornecido a este um grande cofre forte, que se assentou em cômodo adequado na casa em que ora se acha a repartição”.
Então, ao sair dos porões do Palácio do Governo, vai para uma casa na Rua da Ajuda ou Rua do Tesouro, essa mudança foi retratada nas páginas do periódico A NOTÍCIA de 19 de março de 1915:

“O transporte foi feito por caminhões e os montões de folhas preciosas do Arquivo eram atirados das janelas do edifício da Escola, dentro do caminhão, sem nenhum cuidado, sem nenhum carinho. A remoção terminou ontem”.

Na década de oitenta foi transferido do prédio da Rua Carlos Gomes e veio para o atual prédio na Quinta do Tanque, ouvi relatos de antigos funcionários que dizem que a mudança não foi muito diferente da ocorrida em 1915.

Chegamos ao século XXI, e o Arquivo Púbico do Estado da Bahia continua instalado em um local improprio, sem espaço adequado e o governo continua sem recursos suficientes para a construção de um prédio apropriado, realizando obras paliativas e não menos urgentes, como sempre.  

Em matéria do Correio de 24 de março de 2019 temos detalhes da terceira etapa de obras no Arquivo Público, mais uma vez não menos urgentes, entretanto, sem priorizar o fundamental, o rico acervo histórico. O investimento maior da obra seria para a construção de um refeitório, nada para a compra de equipamentos como desumidificadores, nem climatização dos depósitos.    

“Obras no Arquivo custam R$ 2,3 milhões, mas não incluem climatização”
“A climatização dos depósitos onde ficam os documentos e também das áreas técnicas, no entanto, não está inclusa no pacote, que tem previsão para ser entregue em nove meses, contados a partir de dezembro passado. De acordo com a diretora do Apeb, Maria Teresa Matos, a atual intervenção é considerada uma terceira etapa de obras no Arquivo, mas é necessário mais investimento”.

O Arquivo Público do Estado da Bahia resiste a 130 anos, não sei por quanto tempo ainda irá resistir, mas ainda resta a esperança de um dia termos um governo que não o enxergue apenas como um depósito de papel velho, pois, infelizmente essa é a visão de todos que ao longo desses 130 anos fizeram reparos não menos urgentes e esqueceram do principal, toda a história de um país que não poderia ser contada sem esse precioso acervo.

“Sem os arquivos, sem as bibliotecas perderiam os indivíduos e os povos, perderia a humanidade inteira o senso da continuidade histórica, que é o fundamento mesmo da civilização, porque é justamente o laço que prende o passado ao presente, preparando o futuro”. Jornal Diário de Notícias, Bahia, quarta-feira, 19 de abril de 1905.


CANTANDO, DANÇANDO E FLERTANDO NOS CHAFARIZES DA BAHIA OITOCENTISTA


Chafariz do Bonfim, instalado cerca de 1860.

Em matéria de O ALABAMA, é possível termos uma ideia do cotidiano dos chafarizes de Salvador no século XIX, um verdadeiro campo negro urbano, parafraseando Flávio Gomes, que forjou o termo ao se referir a localidade de Iguaçu no século XIX. Os chafarizes se mantinham como espaço de sociabilidade entre a população escrava, liberta e livre, que mesmo em momentos de trabalho árduo fazia desse local um ambiente de resistência e refúgio temporário das amarguras da escravidão. 

A BUSCA D’ÁGUA NOS CHAFARIZES

- Ora, não se dá coisa assim!... forte desaforo! Pois estas negrinhas não deixaram a casa ficar sem água?
Gritava raivosa D. Quitéria, indo ver os potes e achando-os vazios. Contudo, suas duas negras, há boas duas horas, foram ao chafariz, que é bem perto de casa. Que diabo fazem elas no chafariz, há tanto tempo.
A busca d’água nos chafarizes, para negras que vivem empregadas no serviço de casa, é uma felicidade, que elas apreciam em extremo, e por isso, quanto mais ali se demoram, ainda que em chegando em casa levem pelas ventas algum bofetão da senhora.
Os chafarizes são para as pretas cativas os rendez-vous de seus amores, o lugar onde desabafam as raivas dos senhores e senhoras; a sala de visita onde recebem as amigas, o escritório onde pagam suas dívidas de ciúmes e tratam em magna sociedade das ações, que veem praticar em casa. Negros e negras, de bons e maus senhores, ali se encontram, e grandes coisas se decidem, enquanto corre a água da bica com doce e suave murmúrio.
Não é pois raro ver muitas vezes, em um mesmo chafariz, uma negra que se derrete para o seu Adonis cor de carvão, e lhe dá desculpa de não ter vindo na véspera ao chafariz, porque foi com sua senhora passar o dia numa casa; outra que briga, profere palavras e rasga a companheira, porque lhe empurrou o barril para fora da bica; uma que enche o pote chorando e rogando pragas ao senhor, que lhe deu uma esfrega de respeito; outra, finalmente, que, em companhia das amigas, como se ninguém a esperasse em casa, como se ali só tivesse vindo para palestrar, relata os namoros da yayasinha, as cabeleiras de seu senhor e as fugidas que faz o sinhozinho de casa, à noite, sem que ninguém saiba, para ir dormir fora, julgando todos de casa dormir ele e seu quarto bem sossegado. São cenas estas todas próprias de um chafariz, e que fazem, por consequência, com que não voltem as negrinhas de D. Quitéria.
Chafariz do Largo do Accioli, instalado cerca de 1858. 

Essas negrinhas tinham ido ao Terreiro, e lá estavam demoradas, querendo dar a sua senhora os privilégios de papagaio, por isso que a deixaram se água em casa.
- Não sabe V., tia Violante, dizia uma delas no chafariz, o que aconteceu em casa?
- Que foi? 
- Sinhazinha tanto andou, até que achou.
- Que foi que ela achou?
- Ora, gentes, V. não sabe o que foi não? Foi na chuva e molhou-se.
- Está bom! Nunca ninguém me disse isto!
- Pois bem! Achou, e meu senhor ainda não sabe de nada. Eu ouvi minha senhora estar dizendo que sinhazinha há de casar. Si yoyô Cazuza não quiser, que ela então conta a meu senhor.
- Que está me dizendo! Germana, V. tome sentido. Olhe, negócio de branco é negócio fino. Toma sentido, negrinha.
- Deixe estar, tia Violante, eu que me importa? Coisa de branco é coisa de branco.
- Tia Nicacia, adeus, dizia a outra, minha senhora está bem zangada. Vm. não leva roupa nem nada. Meu senhor já brigou.
- Negrinha, vá embora, V. não sabe que está dizendo.
Está bom, que me importa!
E ambas, depois de haverem pauteado bem, lá vem com o pote na cabeça, pelas Portas do Carmo, bem a seu gosto, e no caminho se derretendo com os tios, que foram ao chafariz também encherem seus barris, e antes de chegarem à casa ainda fazem meia dúzia de paradas e contam meia dúzia de histórias, até que chegam e se desculpam dizendo que havia muita gente no chafariz; que as bicas estavam ocupadas e que os galés tomaram conta delas; e outras carcavias semelhantes, que uma pobre dona de casa não tem remédio se não aturar.
A busca d’água nos chafarizes é uma coisa agradável para as negrinhas de casa, e dá não poucos cuidados a certos donos de casa, que parecem não dormirem para fazer sair os negros para a fonte, logo as quatro horas da madrugada, o que para os negros é bem duro, porque faz frio; e dizia a velha Monica, velha que podia ser citada como um compendio de ditados, que, se os pretos soubessem que no céu fazia frio, nenhum queria ir pra lá.
É raro também, encontrar uma negra que indo ao chafariz não vá cantando. Parece que buscam nas cantigas de seu país, se não africanas, alívio para as fadigas do trabalho, pois é de supor que sintam este carregar de água todos os dias para os dois e três banhos, que toma sua senhora e a lavagem da roupa de casa. Quem morar em caminho de chafariz ouvirá muita vez, estragadas, estropiadas, e horrivelmente desfiguradas, as belas e sentimentais modinhas, postas na boca das crioulas do país. Escutando-as a sinhá moça, quando as canta no seu piano, dir-se-ia, que buscam o caminho do chafariz, onde ao menos são livres para ensaiá-las e cantá-las, conforme mais ou menos lhes ficou em memória.
Há alguém que muito aprecia a busca d’água, ou necessidade que tem os senhores de beber e lavarem-se, e este alguém, é a turba magna de capadócios, que se ajuntam nas fontes para fazer as suas conquistas. Esses heróis da boa vida, da vida sem cuidados e para que tudo está bem, vão ao chafariz, para se divertirem, como vai um moço de educação ao teatro para ver a sua namora, ou como passa um amável pela rua de seu bem, para rasgar-lhe uma cortejo. No chafariz pauteiam, dão risadas e fazem muita coisa mais que fica e silêncio.
- Oh! O buscar água no chafariz é uma felicidade para as negrinhas de D. Quitéria!
Fonte: O ALABAMA – 12 de setembro de 1868.


           


O FIM DA SAGA DO CHAFARIZ DO TEATRO SÃO JOÃO


Então, concluo aqui a saga do mais badalado achado arqueológico no Brasil de 2019. Nessa última matéria da Revista Bahia Ilustrada, de 1919, coincidentemente após 100 anos da redescoberta, nos é revelado quando se deu o abandono do famoso chafariz. Na excelente matéria salienta-se: "cujas plantas se acham perfeitamente conservadas em nosso Arquivo Público". Não preciso aqui chover no molhado, as tais plantas citadas, são as que postei aqui nesta série, e que graças uma servidora do APEB foram reencontradas este ano, e por mim digitalizadas. Em 17 de janeiro de 2020 o APEB fará um ano fechado para obras, lá também foram encontrados materiais arqueológicos, e esse foi o motivo para o atraso das obras. Espero e confio que, passados cem anos do abandono do chafariz, o achado sirva de exemplo para que o Estado não deixe ao acaso a nossa história e memória e cuide dos nossos Arquivos.  



O que se deve dizer, ou escrever, dentro da verdade histórica, é o seguinte:
Essa estatua, de belo mármore de Carrara, medindo 20 palmos de altura, pelos projetos aprovados pelo governo da antiga província, em 1854, para a construção desse, e de outros, e de todos os chafarizes desta cidade, em virtude da Lei n. 451, de 17 de junho de 1852, que criou o serviço público de abastecimento d’água potável a nossa cidade, e cujas plantas se acham perfeitamente conservadas em nosso Arquivo Público representa Pedro Alvares Cabral em trajes da época: lá está o seu nome assinado.
Ha razões bem fundadas, entretanto, para não se admitir isso, apesar de oficialmente registrado; porquanto todos os retratos e bustos, conhecidos, do descobridor do Brasil, figuram-no barbado, e a estátua em apreço é a de um imberbe, parecendo, antes, ser a de Colombo ou Vespucci; nunca, porém, do Visconde de Cayrú ou de Castro Alves.
A propósito desse belo e artístico chafariz, saiba-se, foram retirados, recentemente, da administração municipal do Sr. Dr. Antônio Pacheco Mendes, os degraus de mármore que tinha em derredor, e todo o gradil de ferro; sendo, ainda, sem nenhuma justificação plausível, voltada para o lado da terra a estátua aludida, que olhava para o mar, desaparecendo, enfim, por mera desestima a estética, o imponente aspecto que apresentava. Não passa, hoje, de simples e deturpado o ornamento de praça, como todos os outros antigos chafarizes de valor, igualmente artísticos, muitos, visto não mais visarem a utilidade pública para que foram feitos.
E para maior desestima, vê-se, atualmente, esse chafariz, erguido no coração da cidade, na principal praça, e junto, bem junto do Theatro São João circundado, não de um tabuleiro de flores, que lhe pudesse em prestar a ilusão de um jardim, mas de uma cultivação desenvolvida de... capim!
 FONTE: Revista Bahia Ilustrada, 1919. 






UM PALCO? UMA FONTE? OU UM CHAFARIZ? O ACHADO DO LARGO DO TEATRO



Fico com a última hipótese.  

Aprovado em conformidade da 2ª parte da 1ª condição do contrato em 17 de janeiro de 1853. Palácio do Governo da Bahia 10 de fevereiro de 1854. João Maurício Wanderley.
Este chafariz também de mármore de Carrara representará Pedro Alvares Cabral, descobridor do Brasil, em trajes da época, e terá candelabros e grade como o da Piedade. 16 palmos de diâmetro e 20 de altura, com degraus a volta.
Fonte:
Arquivo Público do Estado da Bahia. Plantas, Biblioteca Francisco Vicente Vianna. Planta Nº 353.
Para saber mais acesse:  

NEM TUDO ERA ARTE NA BAHIA SETECENTISTA


Nem tudo era arte na Bahia setecentista, pelo menos aos olhos do Ouvidor Geral da Comarca da Bahia, que em denúncia feita a Sua Majestade em 1733, alertava a Metrópole sobre a presença de um Teatro nas dependências da Câmara de Vereança da Bahia. Segundo ele o local era composto de um tablado de comédias e de indecorosas manifestações.    

5 de outubro de 1734.
Do Conselho Ultramarino.
O Vice Rei do Brasil dá conta de uma ordem que se passou por este Conselho ao ouvidor geral da Comarca daquela Cidade a respeito de um Teatro que achara junto das casas da Câmara era viciada e em menos cabo do mesmo Vice Rei; e vão os documentos e cópias que se acusa.   


Dom João. Etc. Faço saber a vos Jozê dos Santos Varjão Ouvidor geral da Comarca da Bahia, que serviu a vossa Carta de 8 de Maio deste presente ano em que me dava conta de que, entrando em correição na Casa da Câmara dessa Cidade avirei indecorosamente ocupada de um tablado de comédias e de uns palanques para acento do auditório, permanecendo sempre armado há três para quatro anos, em que além das representações sérias, se passava a outras de injuriosos arremedos em opróbrio de várias pessoas, por cuja causa parecendo-vos esta indecência indigna de tão veneranda Casa, destinada somente para as mais graves dependências e emprego da República, mandareis vocalmente em presença dos Oficiais da Câmara ao Procurador dela, que dentro de quinze dias fizesse tirar aquele tablado e porque passando quase o referido termo, tornando vós a Câmara, encontrastes nela persistente o mesmo teatro sem que o dito Procurador desse a mais leve causa desta omissão, o mandarei prender; porém que tomando o Visse Rei como própria esta causa, o mandara soltar, ficando o tablado na Câmara, e vendo as mais circunstâncias que precederam e houve nesta matéria. Me pareceu ordena-vos que logo mandeis lançar fora da Casa da Câmara o tablado, sem embargo de qualquer ordem do Vice Rei ou da referida Câmara. El Rei nosso Senhor o mandou pelos Doutores Manoel Francisco Vargas e Alexandre Mettello de Souza e Menezes Conselheiro de seu Conselho Ultramarino. Theodozio de Cobelos Pereira a fez em Lisboa a 9 de outubro de 1733.        
FONTE:
Projeto Resgate - Bahia Avulsos. 
Caixa 49 - Documento 4321. 
Disponível em resgate.bn.br 

DENÚNCIA: ACERVO HISTÓRICO DE SALVADOR CORRE PERIGO!


Repassando a mensagem. 
Prezados, Venho através desta mensagem solicitar à Fundação Gregório de Mattos atenção para as condições do AHMS - Arquivo Histórico Municipal de Salvador. A referida instituição é responsável por um dos acervos de maior importância para a história do Brasil, composto pelo código de posturas do século XVIII e do fundo da documentação municipal iniciando no século XVI ao XX, que compõe escrituras de compra e venda de escravos, certidões diversas, documentação eleitoral e os EPUCS (Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade de Salvador) capitaneado pelo engenheiro Mario Leal Ferreira. Essa documentação é utilizada por diversos estudantes e pesquisadores, de diversos níveis e programas de graduação e pós; assim como a sociedade civil, que com frequência recorre aos serviços prestados pelo arquivo em busca de certidões. Um bom exemplo é a consulta de certidões de nascimento; uma vez localizada, o usuário pode solicitar

DENÚNCIA: ACERVO HISTÓRICO DE SALVADOR CORRE PERIGO!

Chamamos a atenção e buscamos explicações da Fundação Gregório de Mattos para as péssimas condições do AHMS - Arquivo Histórico Municipal de Salvador. O Arquivo representa um dos acervos de maior importância para a história do Brasil, uma vez que Salvador foi a primeira capital da América Portuguesa durante mais de dois séculos, de 1549 a 1763, e permaneceu importante núcleo urbano colonial, imperial e republicano. O acervo histórico é composto de preciosidades documentais, como códigos de posturas dos séculos XVIII e XIX, certidões diversas, listas eleitorais e documentos do EPUCS (Escritório do Plano de Urbanismo da Cidade de Salvador), capitaneado pelo engenheiro Mario Leal Ferreira. Salvador está entre as principais cidades escravistas do Atlântico Negro, só perdendo para o Rio de Janeiro no número de cativos trazidos da África. Uma parte fundamental dessa história se encontra no Arquivo Municipal, a exemplo dos registro de navios negreiros, das escrituras de compra e venda de escravizados, do registro de ganhadores e ganhadeiras que vendiam e transportavam todo tipo de mercadorias nas ruas da cidade, entre outros documentos, entre outras séries documentais relevantes para a memória da população negra soteropolitana.


A documentação do AHMS tem sido utilizada por estudantes e pesquisadores de diversos níveis, ligados a, escolas, universidades, e nestas, a cursos de graduação e programas de pós-graduação. Numerosos pesquisadores estrangeiros também já se debruçaram sobre esses papeis, em projetos sediados em universidades como Harvard, Texas, Johns Hopkins, Paris/Sorbonne, Londres etc. Mas também o cidadão soteropolitano usa o Arquivo com frequência em busca de certidões as mais diversas. Um bom exemplo é a consulta de certidões de nascimento, as quais, uma vez localizadas, os usuários  podem solicitar cópias autenticadas gratuitamente. Cabe destacar que este serviço é atualmente realizado por um único funcionário, que além de transcrever o documento, precisa se desdobrar para atender o público.

 É preciso destacar, ainda, que a Fundação Gregório de Mattos foi transferida para um novo prédio na rua da Barroquinha, deixando para trás o AHMS e seu único funcionário. O argumento recorrente para que o arquivo ficasse onde está, e praticamente inativo, é que será futuramente transferido para uma nova sede localizada no Comércio. Cabe aqui outro detalhe: pelo que se sabe  tal prédio sequer começou a ser construído ou reformado. Com que prazo a Prefeitura trabalha? Torcemos para que, quando isso aconteça, o precioso acervo ainda exista, o que será quase um milagre diante das condições precárias de acomodação dos documentos históricos, sujeitos, inclusive, a serrem consumidos pelo fogo devido à situação calamitosa das instalações elétricas locais (vejam as fotos aqui anexadas).

Recentemente foi publicado no Diário Oficial do Município nº 7522 em 10.12.2019 ( http://www.dom.salvador.ba.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6230:dom-7522&catid=1:dom pág.33), a contratação de um consultor individual, especialista em arquivos, pelo considerável valor de R$ 362.354,40. Aguarda-se uma palavra do contratado, que imaginamos ter uma ideia do que fazer daqui para frente, a começar por um diagnóstico daquilo que viu para elaborar sua proposta.

Como último apelo, chamamos atenção para a contratação de pessoal. É humanamente impossível que um único funcionário seja o responsável por todo o atendimento. Além do atendimento a pesquisadores, especificamente, e ao público em geral, há que ter gente para cuidar da documentação, que precisa ser organizada, higienizada e em grande parte restaurada. Precisa inclusive ser completamente digitalizada para que possamos continuar a acessá-la caso o pior aconteça: um incêndio que destrua toda ela.



CONVERSANDO COM SUA HISTÓRIA, HOMENAGEM A PROFESSORA CONSUELO NOVAIS SAMPAIO



O Centrode Memória da Bahia (CMB) realiza nos dias 11 e 12, o projeto Conversando com a sua história, em homenagem a historiadora Consuelo Novais Sampaio, falecida em outubro de 2013. O evento é aberto ao público e acontece na Biblioteca Central do Estado da Bahia (BCEB/Barris), local onde Consuelo trabalhou de 2003 a 2011, enquanto diretora do mesmo CMB - órgão vinculado a Fundação Pedro Calmon (FPC/SecultBA).

A atividade será realizada na quarta e na quinta da próxima semana. No primeiro dia (11), às 19h, Paulo Novais Quadros, Zulu Araújo, Nelson Leal, Fabíola Mansur, João Carlos Salles, Joaci Góes e Eduardo Moraes de Castro rendem homenagem à professora. Já na quinta-feira (12), às 17h, é a vez de Gino Negro, Paulo Santos Silva e Vinícius Jacob apresentarem a vida e as obras nesta edição especial do Conversando - projeto criado em 2003, pela própria Consuelo Novais Sampaio. Ela também foi responsável pela criação do Memorial dos Governadores Republicanos da Bahia, localizado no Palácio Rio Branco, centro de Salvador.

Walter Silva é o atual diretor do CMB e trabalhou com a "professora Consuelo" (como com carinho é referenciada) no Centro de Memória por anos. Ele ressalta a contribuição que as pesquisas da homenageada deram à história da Bahia. "Consuelo se constitui um verdadeiro bastião da preservação da memória e difusão da história do nosso estado. Homenageá-la é celebrar as pessoas que doaram suas vidas em prol da história e da memória da Bahia", acrescenta Walter.

Consuelo Novais Sampaio foi formada em história pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), conclui mestrado em 1973 (Ufba) e na The Johns Hopkins University (1979); doutorado na The Johns Hopkins University (1979) e foi pós-doutorado em História do Brasil República pela Universidade da Califórnia.
Acumulou ao longo de sua trajetória acadêmica uma série de prêmios em reconhecimento aos trabalhos desenvolvidos. Consuelo também é autora dos livros "Canudos: Cartas para o Barão", "Pinto de Aguiar - Audacioso Inovador", "O Poder Legislativo da Bahia - Primeira República 1889-1930" e "50 Anos de Urbanização: Salvador da Bahia no Século XIX".

Centro de Memória da Bahia (CMB), localizado na Avenida Sete de Setembro, tem como objetivo a difusão da história da Bahia, através da preservação e ordenação de arquivos privados e personalidades públicas, bem como a realização de exposições, seminários e cursos de formação gratuitos. O Memorial dos Governadores Republicanos da Bahia, localizado no Palácio Rio Branco, e a Casa de Cultura Afrânio Peixoto, em Lençóis, são espaços sob a supervisão da unidade. O CMB funciona de segunda a sexta das 8h30 às 17h30.


Serviço
Quando: 11/12, 19h e 12/12, 17h.
Onde: Biblioteca Central do Estado da Bahia

A conturbada vida de João Cândido, líder da Revolta da Chibata preso, expulso da Marinha e internado como louco


ARQUIVO GERAL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Até hoje, quase 110 anos depois, não se sabe ao certo o que levou o comandante do Minas Gerais, João Batista das Neves, a ordenar que o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes levasse 250 chibatadas: a suspeita de ter embarcado, às escondidas, com duas garrafas de cachaça; a acusação de ter agredido um cabo com uma navalha; ou um pouco dos dois.

Em 1910, faltas leves eram punidas pelos oficiais da Marinha com a prisão em solitária, a pão e água, por um período de três a seis dias. Já as ofensas mais graves, como desrespeito à hierarquia, recebiam como castigo 25 chibatadas, na frente de toda a tripulação e ao som do rufar de tambores.

O fato é que, no dia 21 de novembro daquele ano, a sentença imposta a Marcelino, amarrado a um mastro do convés e nu da cintura para cima, revoltou um grupo de marinheiros negros que, cansado de sofrer castigos físicos de seus oficiais brancos, resolveu organizar um motim.

No dia seguinte, às 22h, o clarim não pediu silêncio. Chamou para o combate. Sob a liderança de João Cândido, 2.379 marinheiros — em sua maioria, negros e pardos — assumiram o comando de quatro navios de guerra — Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro —, que estavam ancorados na Baía de Guanabara.

Aos gritos de "Viva a liberdade!" e "Abaixo a chibata!", a marujada içou bandeiras vermelhas de insurreição, apontou 80 canhões na direção do Rio de Janeiro e ameaçou bombardear a então capital da República, caso suas exigências não fossem cumpridas: melhores salários, anistia aos revoltosos e, principalmente, o fim dos castigos.
ACESSE NA ÍNTEGRA: