Dois meses depois de anúncio de leilão, plano para o Arquivo Público não foi definido.

(Foto: Marina Silva/Arquivo CORREIO)

Estado diz que vai adotar medidas para acervo continuar onde está e Apeb completa 132 anos com fantasma à espreita: a falta de casa própria.

A falta de casa própria sempre ameaçou a integridade do acervo do Arquivo Público da Bahia (Apeb). Sem endereço fixo, as mudanças não tinham planejamento e, em cada uma delas, perdas ocorriam. Um dia depois do aniversário de 132 anos do Arquivo, comemorado no domingo (16), a história ainda se repete. Nada se sabe sobre o futuro dele. A possibilidade de o Solar da Quinta, onde hoje os acervos estão localizados, ser leiloado ainda existe e, mesmo após determinação judicial, não há um plano de preservação.

 

Foi na manhã do dia 7 de novembro do ano passado que o fantasma da falta de casa voltou a rondar o Apeb. A notícia perturbou o domingo de defensores do patrimônio histórico: o Solar da Quinta seria leiloado para quitar uma dívida da extinta Bahiatursa, transformada em Superintendência de Fomento ao Turismo da Bahia há sete anos. O anúncio da venda desencadeou uma avalanche de notas de repúdio, até que o leilão foi suspenso (Veja, no fim da reportagem, linha do tempo interativa da história do Apeb).

 

O Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA) interveio com uma manifestação contrária à venda e o juiz George Alves de Assis, da 3ª Vara Cível de Salvador, acolheu a suspensão por, no mínimo, 60 dias. Na decisão, o juiz apontou que, sem um projeto de remoção do acervo, o leilão não aconteceria. Dois meses depois, tendo o prazo ultrapassado, o MP afirmou à reportagem que ainda aguarda o estado enviar o Plano de Salvaguarda e Remoção.

 

O diretor da Fundação Pedro Calmon, Zulu Araújo, diz que o governo da Bahia manterá uma "posição firme de que o acervo e o patrimônio devem continuar onde estão". Para isso, completa Araújo, "nós vamos adotar todas as medidas que forem necessárias no campo político, administrativo, jurídico, para que isso seja assegurado". Sobre o plano, em si, não explicou.

 

"Com isso, nós estamos assegurando a proteção do acervo documental, a proteção do edifício arquitetônico, e, consequentemente, a proteção do patrimônio cultural da Bahia. Nós não cogitamos abrir mão daquele edifício, como não cogitamos a remoção desse acervo", afirma o diretor da fundação responsável pela administração do Apeb.

 

Essa remoção de arquivo já ocorreu, pelo menos, seis vezes - a quantidade de vezes que o Arquivo Público mudou de sede. Primeiro, o Apeb foi acomodado na Academia de Belas Artes, depois improvisado no Palácio do Governo e mais adiante amontoado numa velha casa da Rua do Tesouro, no bairro do Comércio.

 

Ainda houve a transferência para o Palacete Tira-Chapéu, na Rua Chile, em seguida a mudança para o prédio onde hoje funciona a Delegacia de Defesa do Consumidor, até que o Apeb foi acomodado no atual endereço: o Solar da Quinta, datado do século XVI, que já serviu de abrigo para jesuítas - o Padre Antônio Vieira escreveu lá muitos dos seus sermões e cartas - e onde também funcionou um leprosário.

 

O Arquivo foi criado em 16 de janeiro de 1890, no governo de Manuel Victorino. A ideia de reunir o acervo histórico baiano num só lugar, na verdade, dividida opiniões - havia políticos que achavam desnecessário juntar em um só lugar o acervo, devido aos gastos. Venceram aqueles que defendiam a organização de um único arquivo.

Uma dasmudanças do APEB (Urano Andrade/Biblioteca Nacional)

A mudança para o Solar acontece em 1980. O imóvel é tombado desde 1949 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em todas as mudanças anteriores, perdas incalculáveis, e até desconhecidas, de acervo aconteceram. Aos 132 anos, o Arquivo e seus defensores se preparam para um novo tempo de incertezas.

 

Arquivo Público serve aos quatro continentes do mundo

O Apeb é a segunda maior instituição arquivística do país e está entre as maiores do mundo. São 40 milhões de documentos que abastecem os quatro continentes do planeta com manuscritos e impressos originais, produzidos, recebidos e acumulados quando a cidade de Salvador se distinguiu por ser a capital político-administrativa do Estado do Brasil, de 1549 a 1763. Se organizados de maneira linear no chão, os documentos formariam um caminho de sete quilômetros.

 

Desde 2006, o historiador e pesquisador freelancer (faz pesquisas por encomenda) Urano Andrade, 49 anos, circula da manhã ao fim do dia pelo Arquivo Público. Na pandemia, as visitas se tornaram menos frequentes, por imposição das circunstâncias. Se Urano precisasse calcular, perderia as contas de quantos personagens e histórias simbólicos, mas completamente desconhecidos, ele encontrou no arquivo. Um dos achados é a trajetória de um africano liberto que se tornou dono de uma padaria em plena Salvador Colonial.

 

Acervos são considerados "memória do mundo" (Foto: Marina SIlva/Arquivo CORREIO)

Há também a história da senhora que vendeu a liberdade a uma escravizada, mas exigiu o bebê dela, ainda na barriga, em troca. Nos documentos do arquivo, Andrade revisita a perversidade do passado.

Hoje, o pesquisador trabalha na elaboração de três bancos de dados, todos para universidades dos EUA. Um, para Universidade de Princeton, sobre escravizados libertos que retornaram para o continente africano. Outro, para a Universidade Emory, de Atlanta, em que constarão as cartas de alforria guardadas pelo Apeb. O último, que trará os testamentos de africanos, para a Universidade de Nova York.

 

"O Arquivo Público é a história viva. Já trabalhei para América do Norte e Sul, Ásia, muitos países", conta Urano.

 

A briga judicial pelo prédio tinha começado um ano antes do início da jornada de Urano no Arquivo. Mas a disputa começou na década anterior. O Solar da Quinta do Tanque é, desde 1990, objeto de uma ação, movida pela TGD Arquitetos, contra a Bahiatursa. O escritório de arquitetura alega que não foi pago por serviços que prestados à estatal. Foi em 2005, no entanto, que a ação foi executada e a Bahiatursa ofereceu, para penhora, o Solar. Nos corredores e salões do Arquivo, os frequentadores pouco ou nada sabiam desses detalhes.

 

Durante a pandemia, as visitas precisam ser agendadas e, por dia, são permitidas dez delas, das 9h30 às 16h30. As preciosidades que podem ser visitadas incluem, detalha a Fundação Pedro Calmon, por exemplo, o livro 1º de Provisões Reais (1548), que descreve os objetos e materiais utilizados na construção da "Cidade de São Salvador", em 1549.

 

Há quatro arquivos do acervo considerados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como memórias do mundo. São eles o Tribunal da Relação do Estado do Brasil e da Bahia (1652-1822),  Registros de Entrada de Passageiros no Porto de Salvador (1855-1964), Cartas Régias (1648-1821) e da Companhia Empório Industrial do Norte (1891-1973).

 

A lista de documentos valiosos, no entanto, vai além. Lá, estão os registros da criação da Faculdade de Medicina e da vinda da família real ao Brasil, em 1808, e o acervo sobre a Revolta dos Malês, por exemplo. O acervo do Arquivo, de tão variado, já transformou em pesquisadores até antigos funcionários.

 

Uma delas é Libânia Silva, 29. A historiadora trabalhou no Arquivo entre 2010 e 2019 e, no horário do almoço, passou a visitar os acervos da Conjuração Baiana. "Isso me ajudou bastante. Tive oportunidade de trabalhar com pessoas que estavam ali há 30 anos", diz.

 

Hoje, Libânia cursa mestrado em Letras, na Universidade Federal da Bahia (Ufba), na área de paleografia, estudo de manuscritos históricos que é essencial para compreensão dos documentos. Alguns destes que, no Apeb, já provocaram choros na pesquisadora: de tristeza - como quando encontrou o documento que solicitava a retirada de corpos esquartejados dos mártires da Conjuração Baiana - e de emoção - pelas "letras belíssimas, resquícios de ouro, laçadas impressionantes, tão artísticas".

 Acesse a fonte: Correio da Bahia, 17 de janeiro de 2022.

https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/dois-meses-depois-de-anuncio-de-leilao-plano-para-o-arquivo-publico-nao-foi-definido/?utm_source=correio24h_share_whatsapp


 

EM BUSCA DA LIBERDADE EM PORTOS ESTRANGEIROS




Janeiro, Ministério dos Negócios da Marinha em 31 de janeiro de 1856.  

O fato de se admitirem escravos a matrícula nos navios nacionais para portos estrangeiros tem dado lugar a questões desagradáveis, quando os ditos escravos desertam e procuram prevalecer-se do favor da legislação dos países, que não reconhecem a escravidão, é convindo evitar semelhantes questões, sempre difíceis e odiosos, e o mesmo prejuízo dos proprietários de escravos, julgo acertado recomendar a Vossa Excelência para que o faça a Capitânia do Porto da Província que no despacho das embarcações para tais portos, a exceção dos Estado Oriental, com quem temos Tratado, que nos garante a entrega dos desertores e escravos, não admita a matrícula marinheiros, que não sejam livres, fazendo compreender aos donos dos escravos a risco, que convém de os perder, e que, quando por meios brandos não consiga conserva-los, se negue a concessão da matrícula, participando Vossa Excelência a esta Secretária de estado o que ocorrer. A Capitânia, dando execução a esta ordem não fará, contudo, publicar. Deus guarde a Vossa Excelência. João Maurício Wanderlei.

Fonte: APEB, Seção Colonial/Provincial, Maço: 934    

Arquivo Público do Estado da Bahia, cronologia histórica de uma morte anunciada.

Criado em 16 de janeiro de 1890, no governo de Manuel Victorino, o Arquivo Público do Estado da Bahia já causava debates acalorados entre os nobres deputados da Assembleia Provincial. Na sessão ordinária de número 76, realizada em 30 de julho de 1889, a discussão corria entono da contenção de gastos, a criação de um Arquivo Público entrava na pauta como um estorvo desnecessário e oneroso; nesse sentido exclamava o Sr. Deputado Aristides Borges: "Será inadiável a criação do Arquivo Público; pois esta província não tem até hoje nos diversos ramos de sua administração ocupado um lugar, não direi o primeiro do Império, mas que não é inferior ao de suas irmãs, sem que tenha um Arquivo Público, quando em ocasiões mais prósperas o poderia ter criado? Pode ser de utilidade a criação de um Arquivo Público, e não contesto; mas eu vejo que em todas as repartições há um arquivo, há um arquivo no tesouro provincial, na secretária do governo e temos a biblioteca pública. E não se arquiva coisa nenhuma nestas repartições. Vamos nos servindo com estes arquivos parciais, e quando as circunstâncias forem outras, então criaremos o arquivo público". Infelizmente esse pensamento perdura até os dias atuais. Nossos arquivos sempre foram vistos como depósitos de papéis velhos, relegados a locais insalubres e sem espaço adequado, raras são as exceções, como é o caso do Arquivo do Estado de São Paulo, projetado para tal. Em Salvador, a prefeitura local está construindo o Museu da Cidade, onde será abrigado todo o acervo do Arquivo Municipal, o qual está sendo tratado e digitalizado.

Superada a crise e cessada as discussões, em 16 de janeiro de 1890, cria-se o Arquivo Público. Em 17 de janeiro de 1891, festejava-se um ano da sua criação, para comemorar a data foi homenageado o seu criador com a colocação de sua foto no prédio da Academia de Belas Artes da Bahia, onde encontrava-se o Arquivo, localizado na Rua 28 de Setembro, à época o arquivo possuía cerca de 1 milhão de documentos, dos quais já se havia catalogado cerca de vinte mil. Também nesta ocasião discursou o seu diretor Francisco Vicente Vianna: "São estas, pois, as considerações em que hoje se acha o arquivo público do estado da Bahia, pequeno, é verdade, mas cheio de esperanças. Quando relembro as dificuldades e os desenganos com que ela desde então teve de lutar, titubeando, caindo, mas sempre se levantando". Mal sabia Francisco Vicente Vianna que o Arquivo continuaria titubeante ao longo de toda a sua história.

Desde a sua criação muitas foram as dificuldades encontradas para se manter viva a História da Bahia e do Brasil, não só o Arquivo Público, mas também a Biblioteca Púbica passou por dificuldades. Vejamos o que relatava o articulista do Diário de Notícias em 19 de abril de 1905: “Estes dois antigos monumentos, que guardam os mais preciosos documentos da nossa história e cultura intelectual, acham-se em deplorável estado: o primeiro porque, abatendo parte do teto do edifício, em que está instalado, viu-se a sua administração obrigada a remover, confusamente, para salvar de total prejuízo, o seu precioso material, e a Biblioteca, porque, retirada por força maior do consistório da Igreja Catedral, (vai por cerca de 6 anos!) ainda não foi reinstalada, achando-se a sua grande e rica livraria amontoada em um dos cômodos do pavimento inferior do Palácio do Governo”.  Em resposta, o governador José Marcelino de Souza dizia: “Quanto ao Arquivo já providenciei para os reparos do edifício, a fim de ser tudo reposto em seu competente lugar; e sobre a Biblioteca estou com todo cuidado, empenhado em reinstalá-la, convenientemente, o que já não foi possível por falta de edifício apropriado.”

Pois bem, não parava por aí, a saga continuava, e a cada despejo, parte do acervo ia se perdendo.  Dez anos depois, novo despejo, em 19 de março de 1915, o Arquivo Público é mudado para uma velha casa à Rua do Tesouro, essa era a matéria que estampava a capa do Jornal A Notícia. Vejamos de que forma isso foi relatado: “O transporte foi feito por caminhões e os montões de folhas preciosas do Arquivo eram atirados das janelas do edifício da Escola, dentro do caminhão, sem nenhum cuidado, sem nenhum carinho. A remoção terminou ontem”.  Na imagem podemos ver os documentos sendo transportados.

Passado o dano, em 1919 era anunciada a compra do antigo prédio da Associação dos Empregados do Comércio, para nele instalar o Arquivo Público, o valor pago foi de 40:000$00 (quarenta mil réis). A compra não agradou muita gente, a oposição se pronunciou através do articulista, que salientava: “Deus queira, porém, que esse dispêndio de dinheiro não seja para felicidade e gozo de algum afilhado do situacionismo que, a título de conservação, o queira presentear com um palacete para morar... de graça”.

A saga do Arquivo Público do Estado da Bahia segue ao longo dos séculos, em 2011, um risco de incêndio deixou as escuras o atual prédio, foram mais de três anos para a resolução do problema, reformas foram feitas, houve a requalificação da parte elétrica; recentemente a estrutura física do prédio passou por reforma, telhado, forro, assoalho, portas e janelas, pintura, entretanto, nada foi investido para a conservação do acervo, não há climatização, desumidificadores e o quadro de pessoal é deficitário, muitos dos funcionários estão se aposentando. O prédio também não é adequado, umidade e a proximidade com imóveis em seu em tono trazem risco ao acervo. Em 2011 foi relatado pela Direção do APEB a falta de espaço para acondicionamento de novos documentos gerados pelas repartições públicas: “Essa avaliação é feita por Comissões de Avaliações, formadas em cada órgão do Estado”, explicou ao A Tarde a coordenadora de Arquivos Intermediários, Adriana Souza Silva. O local que padece de espaço também não tem estrutura física para esta atividade. Para prevenir incêndios, devido à condição precária de rede elétrica, o primeiro andar do prédio está sem iluminação há dez dias". Estamos em 2021, o que vem sendo feito de toda a documentação produzida nas centenas de repartições públicas do Estado? Para onde estão indo esses acervos? Que história iremos contar sobre? A solução foi realizar uma triagem do que se receberia: “Para não se perder os documentos mais importantes, uma seleção do que entra começou a ser feita em 2010, com o Programa Estadual de Gestão de Documentos, que orienta órgão e entidades da administração pública sobre os procedimentos necessários para o armazenamento arquivístico”. Como se define qual documento é mais importante? Quem o define? O que o define?

Chegamos em 2021 e a situação é crítica, o atual prédio do APEB está sub judice, foi dado o prazo de sessenta dias para que todo o acervo fosse relocado, será que veremos a mesma cena de 1915?

Fontes:

1 - A HORA, 11.02.1919

http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=176419&pesq=%22Arquivo%20P%C3%BAblico%22&hf=memoria.bn.br&pagfis=85

 

2 - Diário da Bahia, 27.12.1889

http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=801097&pesq=%22Arquivo%20P%C3%BAblico%22&hf=memoria.bn.br&pagfis=2236  

 

3 - Jornal de Notícias, 17.01.1891

http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=222216&pesq=%22Arquivo%20P%C3%BAblico%22&hf=memoria.bn.br&pagfis=47  

 

4 - Jornal de Notícias, 10.02.1898

http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=222216&pesq=%22Arquivo%20P%C3%BAblico%22&hf=memoria.bn.br&pagfis=1296

 

5 - A Notícia, 09.03.1915

http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=720160&pesq=%22Arquivo%20P%C3%BAblico%22&hf=memoria.bn.br&pagfis=874  

 

6 - A Notícia, 13.03.1915

http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=720160&pesq=%22Arquivo%20P%C3%BAblico%22&hf=memoria.bn.br&pagfis=930  

 

7 - Arquivo Público de Paracatu - MG

https://paracatumemoria.wordpress.com/2011/12/05/arquivo-publico-da-bahia-tem-capacidade-de-acondicionamento-documental-esgotada/

 

8 - Pesquisando a História

https://uranohistoria.blogspot.com/2014/02/suspensao-de-atendimento-externo-no.html

 

 

 

  

 

LANÇAMENTO: REVOLTAS ESCRAVAS NO BRASIL

 

REVOLTAS ESCRAVAS NO BRASIL

Org. João José Reis e Flávio dos Santos Gomes

Catorze ensaios sobre as lutas da resistência escrava no Brasil analisam as maiores insurreições contra o regime escravocrata e investigam suas causas, protagonistas e consequências. 

Em 1888, a vitória da causa abolicionista, materializada por uma lei imperial, ajudou a propalar a mitologia histórica de que a libertação dos escravizados ocorreu sem lutas e derramamento de sangue. Os ensaios reunidos por João José Reis e Flávio dos Santos Gomes neste livro comprovam justamente o contrário.


Embora a história dos quilombos já possua bibliografia ampla e bem estabelecida, as revoltas e conspirações nas senzalas, modalidade mais aguda e violenta da resistência negra, têm sido menos estudadas e compreendidas. Até a abolição, milhares de cativos e cativas se irmanaram para protestar e, na maior parte dos casos, resistir violentamente contra a tirania escravista.

Reunião de ensaios que abordam os principais levantes e conspirações que solaparam o regime escravagista, Revoltas escravas no Brasil procura compreender as origens e anseios dos heroicos personagens que arriscaram a vida para resistir à opressão.

 

Com ensaios de: Eduardo Spiller Pena, Flávio dos Santos Gomes, Iacy Maia Mata, Isadora Moura Mota, João José Reis, Luiz Geraldo Silva, Lara de Melo dos Santos, Luiz Felipe de Alencastro, Marcos Ferreira de Andrade, Maria Helena P. T. Machado, Mário Maestri, Paulo Roberto Staudt Moreira, Ricardo Pirola, Ricardo Tadeu Caires Silva, Thiara Bernardo Dutra e Yuko Miki.

JOÃO JOSÉ REIS é historiador e professor da UFBA. Dele, a Companhia das Letras publicou, entre outros, A morte é uma festa (1991), pelo qual recebeu os prêmios Jabuti (categoria ensaio) e Haring (melhor obra historiográfica latino-americana), Rebelião escrava no Brasil (2003) e Ganhadores (2019). Em 2017, pelo conjunto de sua obra, o autor ganhou o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras.

 

FLÁVIO DOS SANTOS GOMES é historiador e professor da UFRJ. Escreveu, entre outros livros, A hidra e os pântanos (2006) e O alufá Rufino (2011), com João José Reis e Marcus J. M. de Carvalho. Organizou, com Lilia M. Schwarcz, o Dicionário da escravidão e liberdade (2018) e a Enciclopédia negra (2021), que contou também com a colaboração de Jaime Lauriano.

 SERVIÇO:

Revoltas escravas no Brasil, Vários autores; Organização João José Reis e Flávio dos Santos Gomes

Número de páginas: 672

Preço: R$ 109,90 / e-book: 44,90

Lançamento: 17/09/21

 

 

 

 

 

Assessoria de comunicação

Grupo Companhia das Letras

Mariana Figueiredo – Tamiris Busato

Telefone: (11) 3707-3513 / (21) 3993-7521

mariana.figueiredo@companhiadasletras.com.br

tamiris.busato@companhiadasletras.com.br

 

ALFORRIADA NO DENDÊ

 


Dentre o rol das alforrias condicionais encontramos as mais diversas exigências de senhores e senhoras para com seus escravos e escravas. Os alforriados por condição podiam servir aos seus senhores até morrerem, ou servir aos seus filhos; prestar serviços dos mais diversos como carregar cadeira, dentre outros. Para Thereza não foi diferente, ao ser alforriada seu senhor exigiu que quando ele retornasse à cidade de Salvador ela cozinhasse para ele. Thereza, conquistou sua alforria no dendê, e seu senhor não aguentou perder. 


Carta de Liberdade [da preta] [Thereza]

Digo eu Joze Francisco da Silva [Porto] que entre os mais bens que possuo, que entre móveis como de raiz é bem assim uma Escrava de nome Thereza de nação do Gentil da Costa, cuja escrava a forro como se fosse livre de ventre, como eu e meus herdeiros, de hoje em diante e poderão procurar, ficando ela obrigada a todo tempo que eu tornar a esta Cidade vir para minha companhia, não como Cativa, se não para me cozinhar, não tornando se não será obrigada a filho meu. Por verdade lhe passei esta de minha letra e sinal. Bahia, cinco de novembro de mil oitocentos vinte três, Joze Francisco da Silva Porto. Como testemunha João Alvares Norte, João Joze da Silva, Tabelião Motta. Bahia, vinte quatro de setembro de mil oitocentos vinte três. Simões. Eu abaixo assinado firma do atesto e jurarei em Juízo, sendo necessário em como a letra do escrito acima é do próprio Joze Francisco da Silva Porto, assim como também a outra assinatura é do próprio João Alvares Norte, Caixeiro que foi do dito. Bahia, quatro de dezembro de mil oitocentos e vinte três. Joze Francisco da Silva Porto. Bahia, quatro de dezembro de mil oitocentos e vinte e três. Joaquim de Santa Ana. Nicerio. Reconheço a letre e firma dos abaixo assinados retro por próprias. Bahia, nove de dezembro de mil oitocentos e vinte e três. Estava o sinal público em testemunho de verdade. Francisco Teixeira de Mata Bacellar. E trasladada da própria que me foi apresentada a que me reporto, a entreguei ao dito abaixo assinou, e com ela e outro oficial de Justiça esta conferi, concertei, subscrevi e assinei. Bahia, 12 de dezembro de mil oitocentos e vinte e três e Eu Francisco Teixeira da Mata Bacellar, Tabelião a subscrevi e assinei.      

Fonte: APEB, Seção Judiciária, Livro de Notas 209, página 235. 

APOIE NOSSO QUILOMBO FOTOGRÁFICO: ZUMVÍ!



Vamos contribuir para a preservação da memória negra baiana com a montagem de uma sede para Zumví Arquivo Afro Fotográfico.

 

O NEGÓCIO

Ao longo dos 30 anos o Zumví vem registrando sistematicamente as manifestações do movimento negro, e o cotidiano dos afrodescendentes em diversas temáticas e contextos populares. Principalmente a memória do movimento negro baiano e entre outros temas, compõem-se de um acervo com cerca de 30.000 negativos sobre a cultura afro-baiana. Todo material se encontra armazenado na residência do fotógrafo Lázaro Roberto, no bairro da Fazenda Grande do Retiro, infelizmente, em precárias condições de armazenamento.

 

O acervo vem recebendo outras colaborações, como a do poeta e militante Jonatas Conceição da Silva, que doou todo seu acervo, composto de 1.618 fotogramas, em P&B, e colorido, em 2006, pouco antes de seu falecimento, em 2009. O fotógrafo Rogério Conceição, desde o ano de 2016, vem contribuindo com doações de seu material fotográfico. Em 2020, o ZUMVÍ recebeu mais uma grande doação de arquivos, no campo do audiovisual e do cinema Negro. Parte do acervo do cineclubista e militante Luiz Orlando, falecido em 04/08/2006, foi doado pela sua família. Tal acervo se encontra em dois meios:  físico e digital. São dezenas de fotografias, centenas de documentos, cartazes, xerox, cadernetas e etc. Com total de 8.273 laudas.

 

Em 2020, buscando sustentabilidade, o Zumví começou um processo de organização para venda de suas fotografias. Para 2021 houve um planejamento para potencializar as vendas e organizar o acervo institucionalmente, infelizmente a Pandemia da COVID-19, fez esse planejamento ser revisto e passamos realizar algumas vendas on line, atualmente esse contato acontece por email.  Neste momento estamos em processo de construção de um e-commerce em nosso site (zumvi.com.br) para disponibilizar de maneira mais organizadas fotografias e outros produtos. Entretanto, o plano de organizar uma sede na qual possamos manter o acervo em boas condições de armazenamento, ao mesmo tempo que se possa expor e vender produtos, e realizar outras atividades de mobilização e articulação voltados à memória, precisou ser adiado um pouco. Neste momento, estamos aqui em busca de mais esse objetivo, no ajude a organizar nossa sede!

 

Como medidas de proteção à Covid-19, reforçamos que a equipe do Zumví atualmente é bastante reduzida e a montagem do espaço ocorrerá mantendo o limite estabelecido pela prefeitura de pessoas em espaço fechado.  Sempre que possível o local ficará com janelas abertas para boa circulação do ar, além do uso constante de máscaras, álcool em gel e distanciamento entre as pessoas.

 

 COMO O VALOR SERÁ UTILIZADO?

Com o recurso arrecadado pretendemos montar e manter as despesas de nossa sede por 03 meses. Atualmente temos em caixa recursos que nos permitem unicamente manter o aluguel de um pequeno espaço por alguns meses, precisamos complementar esse valor para comprar equipamentos necessários à preservação dos fotogramas, montar espaço de trabalho, como também expor as fotografias e outros produtos do Zumví para venda. Assim, precisamos comprar, móveis, equipamentos, imprimir algumas fotografias para expor no espaço, e pagar água, luz e internet por três meses, tempo enquanto acumulamos capital de giro para manter nossas contas pelos meses subsequentes.

 

Se conseguirmos atingir a Meta 02 de R$35.000,00 poderemos adquirir uma mapoteca, envelopes em cruz para tiras de negativos e contratar um consultor especializado para capacitar os membros do Zumví para acelerar o processo de higienização e digitalização dos fotogramas que estão sob a guarda do Zumví atualmente.

 

Match-funding é como uma vaquinha turbinada: uma nova modalidade de fomento, que mistura o financiamento coletivo (ou crowd-funding) com aporte de parceiros, que multiplicam a arrecadação. Para cada R$ 1 arrecadado pelos projetos selecionados por intermédio da plataforma da Benfeitoria, o Fundo Colaborativo Enfrente contribui com mais R$ 2, até que o valor de R$15.000 seja alcançado.

 ACESSE E CONTRIBUA: https://benfeitoria.com/apoieozumvi 

LANÇAMENTO: CATÁLOGO DIGITAL FOTOGRÁFICO ZUMVÍ


 

Hoje, lançamos o nosso Catálogo Digital Fotográfico! Trata-se de um livro digital que apresenta fotografias a partir da preservação e difusão do trabalho do Zumví, que sempre concentrou seu olhar para as lutas sociais e a cultura do povo negro baiano.

Convidamos você a visualizar a reunião de 30 anos de memória de preservação do povo negro baiano. Basta acessar https://www.zumvi.com.br/ e visualizar as diversificadas e inéditas faces de Salvador e do Recôncavo Baiano.

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Pedro Calmon (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

La Vai Verso: a Lavagem do Bonfim n’O Alabama (1863-1871)

 


La Vai Verso: a Lavagem do Bonfim n’O Alabama (1863-1871)

Seleção, comentários e notas

de Mariângela de Mattos Nogueira

O livro La Vai Verso: a Lavagem do Bonfim n’O Alabama (1863-1871) reúne seis poemas publicados no jornal O Alabama, que circulou durante quase três décadas na Bahia do século XIX. A publicação, em formato digital de e-book, pode ser acessada na Biblioteca Virtual Consuelo Pondé (http://200.187.16.144:8080/jspui/handle/bv2julho/1056). De autoria de Mariângela de Mattos Nogueira, o projeto é um trabalho de garimpagem e informação sobre um passado vibrante da Cidade da Bahia.

Os versos sempre bem humorados servem como mostruário dos costumes e da cultura daquele momento e merecem ser lidos para que não se esvaiam no vento do esquecimento e também porque são bons de ler. Ali, está o retrato da Bahia em estrutura literária de versos em redondilha e, também, quase como crônicas ou reportagens de acontecimentos.

O trabalho de seleção desses dizeres tão baianos produz informações sobre as quadras repletas de humor e a partir disso se sabe mais sobre a Bahia, passando-se por personagens, ruas e situações. Aparecem também os nomes de pessoas que ficaram na história, porque fizeram essa história, agora contada por Mariângela. Ao longo de toda a sua escrita, a autora encontra fundamento para o que é dito em cada estrofe, tecendo a contextualização que ajuda a colocar o leitor na cena e possibilitando que as coisas tenham nexo histórico, social, cultural.

Então, com uma escrita saborosa e precisa, bem construída, Mariângela Nogueira retoma os poemas e faz com que seus versos transportem o leitor para o que era o trajeto para o Bonfim, com todas as pândegas a que tinham direito os que acompanhavam o cortejo. É como se o leitor pudesse fazer parte do evento porque os poemas e os detalhes que os acompanham no livro são dispostos de modo complementar e descritivo do momento, seus hábitos e costumes.

Tecnicamente, o e-book tem 96 páginas. E, afetivamente, em uma cidade que em muitos cantos se desmancha por falta de uma atenção à sua memória, a proposta de fazer circular O Alabama mais uma vez, e mais especificamente a coluna Lá Vae Verso, é um respiro especialmente por ser a leitura muito passível de fruição. Lá Vae Verso vai pelo caminho que leva ao Bonfim.

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal

REVISTA AFRO-ÁSIA 63

 


Sumário

Expediente

 

Artigos

Tecendo redes imperiais: uma dimensão asiática do comércio britânico de escravos no Atlântico no século XVIII

Kazuo Kobayashi

 

A importância do café para São Tomé e Príncipe frente à proibição do comércio de escravizados pela Inglaterra

Alan de Carvalho Souza

 

Catarina Juliana e sua sociedade de culto: rituais e práticas religiosas na Angola setecentista

Daniel Precioso

 

“Com duas gejas em cada uma das fontes”: escarificações e o processo de tradução visual da diáspora jeje em Minas Gerais durante o século XVIII

Aldair Rodrigues

 

A escravidão e o acesso à terra nas concepções de Luís Antônio de Oliveira Mendes (1792-1821)

Magnus Roberto de Mello Pereira

 

"Por sua liberdade me oferece uma escrava": alforrias por substituição na Bahia, 1800-1850

João José Reis

 

Cruzando caminhos em Ibicaba: escravizados, imigrantes suíços e abolicionismo durante a Revolta dos Parceiros (São Paulo, 1856-1857)

Isadora Moura Mota

 

Inventar uma Sunnah: o Estado Islâmico, salafismo e inovação

Gilvan Figueiredo Gomes, Gilvana de Fátima Figueiredo Gomes

 

Diversidade sexual e de gênero, Estado nacional e paisagens heterotópicas no Irã: Foucault e depois

Fabiano Gontijo

 

Em busca da "redenção de Cam": racialidade e interseccionalidade numa prisão de mulheres

Wallesandra Souza Rodrigues, Alessandra Teixeira

 

Tarzan, um negro: para uma crítica da economia política do nome de “África”

Marcelo R. S. Ribeiro

 

Epistemologias para convivialidade ou Zumbificação

Fernando Baldraia

 

Biblioteca de Clássicos

Para além da sociologia e da antropologia sociocultural: sobre o lugar do mundo não ocidental em uma teoria social futura

Shalini Randeria, apresentação e tradução de Ricardo Pagliuso Regatieri

 

Resenhas

A modernidade da escravidão e o capitalismo norte-americano

Henrique Espada Lima

 

Negritude: uma identidade legal em consequência da liberdade

Luciana da Cruz Brito

 

Liberdade negada

Paulo Roberto Staudt Moreira

 

Belém, cidade negra na Amazônia

Matthias Röhrig Assunção

 

O posto de honra de Luiz Gama

Wlamyra Albuquerque

 

"Nossa história é outra como é outra nossa problemática": Beatriz Nascimento por sua obra

Lucilene Reginaldo

 

Campos de batalha intelectual e novos paradigmas do pensamento africano

Leila Leite Hernandez

 

Testemunhos e reflexões para a compreensão de Timor-Leste

Jorge Bayona

 

Aprendendo a dançar

Carlos Sandroni

 

Narrativas étnicas confluentes em literaturas das Américas

Licia Soares de Souza

 

Debate sobre a resenha de "Não somos bandidos"

Michel Cahen, Juvenal de Carvalho

ACESSE NA ÍNTEGRA: 

https://periodicos.ufba.br/index.php/afroasia/issue/view/2182/showToc 

GRACINDA, LIBERTA E SOLTA NOS BATUQUES DA BAHIA!

 


Ao alforriar sua escrava Gracinda José Luiz Bananeira acreditava que ela o serviria fielmente até a sua morte, ledo engano, o som do batuque da Bahia falou mais alto. Já liberta, mesmo sob condição, Gracinda não pensou duas vezes e partiu para o samba! Não era a primeira vez que um escravo do mesmo senhor buscava o caminho da liberdade. Em 1848 um seu escravo havia fugido e foi colocado prêmio de cinquenta réis pela sua captura, Juvêncio fugira no barco de Albino Luiz Boa-Morte em 6 de setembro do ano anterior, Juvêncio era exímio marinheiro, carapina e marceneiro; com tantas habilidades não ficaria sem serviço Bahia a fora. Gracinda também não se deixou prender pela alforria condicional, seguiu o caminho da liberdade e, segundo relato do Bananeira, encontrou na Ilha de Itaparica, na localidade do Jaburu se refúgio e diversão. Bananeira, um senhor octogenário, viria a morrer quatro anos depois, como noticiou o Monitor: José Luiz Bananeira, branco, viúvo, 82 anos, moléstia interna. Gracinda seguiu batucando e sambando no Jaburu.

José Luiz Bananeira tendo uma cria de nome Gracinda, crioula, que libertou sob condição de acompanhá-lo e servi-lo enquanto vivo for fosse, acha-se ela fugida do poder do Suplicante à seis anos, dando-se à relaxação e depravação dos batuques, sem fazer caso algum do estado valetudinário na idade octogenária dele Suplicante, caído na maior indigência e sem ter quem o sirva, pois a mesma crioula é a única que tem semelhante obrigação dentre os demais aos escravos libertos gratuitamente em número de onze.

Em tão triste situação vem implorar de Vossa Excelência a necessária providência para a captura da referida crioula Gracinda e do seu ocultador (que com ela mora à Rua Nova do Queimado e costuma leva-la para os batuques do Jaburu no Mar Grande) este afim de ser compelido ao pagamento dos dias de serviço, e aquela empregar-se na faxina da Cadeia de Santo Antônio, onde ficará à Ordem de Vossa Excelência até que corrigida possa ser alugada a alguém, visto não querer prestar os devidos serviços ao Suplicante. Dignando-se Vossa Excelência de ordenar por ofício ao Subdelegado do 1º Distrito de Santo Antônio, que faça efetiva a prisão de ambos, e proferindo o seu respeitável Despacho nesta súplica para qualquer Inspetor de Quarteirão, Guarda Nacional ou Policial também poderem prende-los agenciada a diligência pelo próprio Suplicante que submissamente. Pede a Vossa Excelência na forma implorada. E.R.M. Bahia, Abril de 1872. José Luiz Bananeira.

Documento encontrado por Lisa Earl Castillo, a quem agradeço pela contribuição para a postagem.  

Fonte: Arquivo Público do Estado da Bahia, Seção de Arquivos Colonial/Provincial, Série Polícia, Maço: 6337.

O Monitor (BA) - 1876 a 1881

Correio Mercantil : Jornal Politico, Commercial e Litterario (BA) - 1836 a 1849. 

          

UM PRÍNCIPE AFRICANO EM BUSCA DE UMA ESPOSA NA BAHIA DO SÉCULO XVIII

 

Em cumprimento das Ordens que Vossa Excelência foi servido participa-lhe, examinei do modo possível as disposições em que se acha o Príncipe Africano para receber o Batismo e que da resulta deste mesmo exame informei o Eminentíssimo Cardeal Patriarca, como Vossa Excelência me ordenara; e informei-o por escrito para ele melhor ponderar as provas que puder descobrir, e para a vista delas resolver o que julgasse, mas justo e acertado. Resta me informar também a Vossa Excelência de algumas obrigações que fiz, e que porventura por não lhe ser inteiramente inúteis para as providências que houverem de dar-se relativas ao mesmo Príncipe. Ele é, se não me engano, um homem de bom caráter, muito sincero, verdadeiro, generoso, humano, dócil; e em extrema sensível ao bem que lhe fazem, principalmente a tudo o que ele julga ser obséquio a sua pessoa. Deu-me a entender por meio do seu intérprete, que sentia não ter muito dinheiro para repartir pelos pobres no dia do seu Batismo, confessando ao mesmo tempo com sinais expressivos de gratidão que Sua Alteza lhe tinha feito mercê de mandar-lhe contribuir com todo o necessário.


Mostra-se demasiado impaciente da demora nesta Corte, dando por causa da sua impaciência o muito frio; ao qual atribui a morte do seu Parente. Diz que quer entrar na sua terra já casado, para mostrar com o seu exemplo, que cada homem deve ter só uma mulher, e que por essa mesma razão quer casar na Bahia com uma preta, que conhece ou com outra qualquer, que seja livre e que lhe agrade. Deseja que tanto o seu Batismo, como o seu Casamento se façam com aparato, e diante de muita gente, para que (diz ele, ou por ele, o seu intérprete) a todos conste a resolução que tomou. Parece-me que deveras quer abraçar a Religião dos Cristãos; mas na verdade, as ideias que dela tem, são poucas, e imperfeitas. Se ele se demorasse mais tempo nesta Corte, eu seria de parecer que algum Catequista inteligente da sua língua acabasse de o instruir nos pontos principais da doutrina Cristã, antes de se lhe ministrar o Sacramento do Batismo. Como, porém, eu julgo invencível  repugnância que ele mostra a demorar-se ainda por dias, lembrando-me o perigo da viagem, e receando que ele desconhece, e faça inútil o movimento favorável da graça, não me atrevo a decidir que lhe seja negado um Sacramento, que ele pede, e para o qual me parece estar suficientemente disposto, atendida as circunstâncias que se acha. Neste caso é necessário que vá na sua companhia algum Eclesiástico instruído e experimentado no Ministério de Catequista, que entenda e fale a sua língua, e que saiba ganhar a sua afeição e confiança.

Quando na Corte não apareça alguém com estas qualidades, poderá, talvez, aparecer na Bahia, onde será menos dificultoso fazê-lo demorar até que acabe de instruir-se, e se disponha, como cumpre, para os Sacramentos da Penitência da Eucaristia da Confirmação e do Matrimônio. Este importante negócio deve muito recomendado ao Arcebispo da Bahia. Além do Catequista, seria conveniente que também o acompanhassem alguns Missionários, para com o exemplo do Príncipe darem princípio a Conversão daqueles miseráveis povos, da qual sem dúvida resultariam muitos e grandes bens a Igreja e ao Estado. Semelhante empresa é por certo uma das mais dignas da grandeza e Piedade de Sua Alteza Real; e porventura a ocasião é a mais oportuna que a Providência tem há séculos a esta parte oferecido a Portugal. Devo advertir, que a ideia que faço deste Príncipe, foi adquirida por meio de algumas palavras e sinais que ele mostrava entender, por meio da explicação do intérprete, cujo caráter me é desconhecido, e por meio das informações de um Eclesiástico, que diz tê-lo catequisado. São Bento da Saúde, 29 de fevereiro de 1796. Frei Joaquim de Santa Clara.          

Fonte: Projeto Resgate, Bahia, Avulsos. Caixa: 200, Documento: 14462.