PRISÃO DE CYPRIANO JOSÉ BARATA DE ALMEIDA




















Pública forma de Cypriano José Barata de Almeida

Pública forma, Petição. Diz o Cidadão Cypriano José Barata de Almeida por seu bastante Procurador Antonio Lopes Benevides, que para bem de sua justiça e defesa, precisa que Vossa Senhoria lhe ateste os quesitos seguintes: Primeiro = Se a prisão do Suplicante feita pelo ex-Comandante das Armas Visconde de Pirajá foi a requisição de Vossa Senhoria ou a seu arbítrio, Segundo = Se Vossa Senhoria lhe pediu socorro Militar para executar esta prisão, ou se a ignorava, 3º Se quando Vossa Senhoria chegou a casa do Suplicante, ela já se achava cercada, 4º Onde se achava Vossa Senhoria quando soube deste procedimento, e quem o avisou, se foi algum Oficial do seu distrito, ou o mesmo Comandante das Armas. E como o Suplicante conheça que Vossa Senhoria não lhe deva negar a mencionada atestação; por isso que hei pedida para defesa de um Cidadão caluniado. Pede a Vossa Senhoria se digne atestar o que menciona. E receberá mercê. Como Procurador Antonio Lopes Benevides. Atestada = Lazaro José Jambeiro, Juiz de Paz da Freguesia de Santo Antonio Além do Carmo. Atesto, quanto ao primeiro quesito do Suplicante retro, que a prisão do Suplicante não foi a requisição minha, nem dela tive a menor ciência anterior ao valor dela. Quanto ao segundo, que como a ignorasse, nem me fosse ordenada, não podia pedir socorro Militar para a executar. Quanto ao 3º que quando cheguei a casa da morada do Suplicante achei a Rua e frente a Tropa postada, e alguns paisanas armados. Quanto ao quarto, que estando na casa da minha residência, sita ao Largo da Soledade, seriam cinco horas da manhã do dia 28 de Abril do corrente ano, fui acordado por pessoa de minha família dizendo-me, que um indivíduo a cavalo batera a porta exigindo que lhe falasse; e chegando eu a janela conheço ser José Pedro de Alcântara, Escriturário da Junta da Fazenda, o qual disse-me que o Comandante das Armas Visconde de Pirajá me avisava, que tendo de fazer uma diligência na mesma Freguesia, cumpria que eu comparecesse na Cruz do Pascoal, e perguntando-lhe que diligência era, respondeu-me que não sabia; principiando a vestir-me para sair, ouvi pronunciar na Rua o meu nome, e chegando de frente a janela, conheci ser o mesmo Visconde, que acompanhado do dito José Pedro, e perguntando-lhe o que queria, e convidando-o que subisse, disse que o acompanha-se para presenciar uma diligência que ele faria em minha Freguesia, sem, contudo, dizer-me qual era, e só vi que tinha Tropa no meu distrito acompanhei-o até o Barbalho, lugar em que me declarou então ter vindo para persuadir ao Suplicante, que se retirasse para bordo de alguma Embarcação de Guerra; e como nesse lugar visse ajuntamento de Tropa, e paisanos, respondi-lhe, que em virtude do Código [...] conhecer daquele ajuntamento, com a Bandeira do meu cargo, e meu Escrivão, sem o que nada podia obrar; e que portanto eu a ia buscar, e passando para esse fim pela Rua do Pascoal vi a frente da casa do Suplicante com Tropa, como já mencionei, e chegando a Fortaleza de Santo Antonio, que serve de Casa de Correção, e onde faço audiência, tomei a Bandeira, voltando com ela achei o mesmo Comandante das Armas já na casa do Suplicante onde subi e presenciei que o Comandante das Armas lhe declarava, que convinha, ele se retirasse para bordo de alguma Embarcação de Guerra, o que convinha para sua segurança, dizendo eu ao Comandante que fizesse retirar a Tropa e paisana, e ele me respondeu que o faria; e logo que o Suplicante saiu e o acompanhou tornando eu a repetir, que retirasse a Tropa ele Comandante a mandou tirar, oferecendo-me então ao Suplicante para o acompanhar como seu amigo, ele aceitou, e me deu o seu braço, e assim me acompanhou até a Baixa dos Sapateiros, onde o Suplicante tomou uma Cadeirinha, e nós o seguimos até o Arsenal onde embarcamos para bordo da Curveta = Defensora = E como seja pura verdade o que acabo de expender, não posso deixar de o atestar logo que me foi pedido. Bahia, 7 de Julho de 1831. Lazaro José Jambeiro. Reconhecimento = Reconheço a firma supra. Bahia, 11 de Julho de 1831. Em testemunho de verdade estava o sinal público. Manoel de Góes Tourinho = Verba do Selo = Nº 9448. Pagou 80 réis do selo. Bahia 11 de Julho de 1831 = Andrade, Ribeiro, Índia e Mina. O Doutor Joaquim José da Silva e Azevedo Cavaleiro da Ordem de Cristo e Imperial do Cruzeiro do Desembargo de Sua Majestade Imperial, I e C, seu Desembargador e Ouvidor Geral do Cível da Relação da Bahia Juiz de Índia e Mina Fronteira. Faço saber, que me constou por fé do Escrivão que esta subscreveu, ser o sinal público retro do próprio Tabelião, o que hei por justificado. Bahia, 11 de Julho de 1831. Eu Francisco Jorge Monteiro, Escrivão a subscrevi, Joaquim José da Silva e Azevedo, o qual instrumento eu Tabelião abaixo assinado, bem e fielmente, sem coisa que dúvida faça, fiz passar em pública forma do meu oficio com os teores da própria, petição, atestação, reconhecimento, selo, e Índia e Mina que tudo assim me foi apresentado e que reconheço por verdadeiro, e de como entreguei a quem me apresentou, abaixo assinou, e com outro Oficial de Justiça companheiro comigo ao concerto abaixo assinado esta conferi, concertei, subscrevi e assinei nesta Leal e Valorosa Cidade de São Salvador Bahia de Todos os Santos aos doze dias do mês de Julho do corrente ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1831. Pagou-se desta contada na forma do Regimento a forma e quantia a margem. Eu José Joaquim da Costa Amado a subscrevi. Estava o sinal público em testemunho de verdade. Concertada por mim Tabelião José Joaquim da Costa Amado. Com o mesmo Escrivão Verissimo Ferreira da Silva. Recebi o original. Antonio Lopes Benevides. Certifico que tem 4 folhas para o selo. Bahia, 12 de Julho de 1831. Amado = Nº 9679. Pagou 160 réis do Selo. Bahia, 18 de Julho de 1831. Simões. E trasladada da própria pública forma que me foi apresentada e que reconheço verdadeira, conferi, concertei, subscrevi e assinei na Bahia, 19 de Julho de 1831. Eu José Joaquim da Costa Amado a subscrevi.
Fonte: APEB, Seção Judiciária, Livro de Notas 236, páginas 186v a 187v. 
Veja também: 

         

Arquivo Público do Estado da Bahia disponibiliza, por meio de acesso online, a consulta aos fundos documentais


O Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB) / Fundação Pedro Calmon (FPC) disponibiliza, por meio de acesso online, a consulta aos fundos documentais custodiados, descritos e organizados em conformidade com as normas de descrição arquivística internacionais (ISAD(G), ISAAR(CPF), ISDF e ISDIAH) e nacional (Nobrade).

O AtoM, acrônimo de “Acesso à Memória”, é um software de fonte aberta, gratuito, criado por iniciativa do Conselho Internacional de Arquivos (ICA), e recomendado pelo Conselho Nacional de Arquivos (Conarq). Visa disponibilizar e promover o intercâmbio na web de acervos de entidades custodiadoras em âmbito nacional e internacional.

Concebido a partir de uma estrutura multilíngue, isto é, os elementos de interface e o conteúdo da base de dados podem ser traduzidos para vários idiomas. Também, multinível, porque, o AtoM possibilita a pesquisa do geral ao particular nos fundos documentais sob custódia, articulando diferentes níveis de descrição e destinado a intensificar o intercâmbio de informações, em ambiente web, entre instituições arquivísticas nacionais e internacionais. As normas de descrição arquivística objetivam estruturar a informação a partir de elementos de descrição comuns.

O APEB/FPC e o Núcleo de Tecnologia da Informação/FPC, em parceria com a Companhia de Processamento de Dados do Estado da Bahia (Prodeb), preparou o ambiente tecnológico necessário à concepção do AtoM no âmbito da FPC. Esta versão utilizada se constitui a 2.3.0.

As descrições dos documentos que integram os fundos e coleções cadastrados no AtoM do APEB/FPC encontram-se em conformidade com a Nobrade, aprovada pelo Conarq. A Nobrade considera 06 (seis) níveis de descrição, a saber: acervo da entidade custodiadora (nível 0); fundo ou coleção (nível 1); seção (nível 2); série (nível 3); dossiê ou processo (nível 4) e item documental (nível 5). Como a definição dos níveis se dá a partir de uma estrutura hierárquica, deve-se entender o item documental como um nível e não como um documento.


O primeiro nível atua como Guia de Fundos, apresenta uma visão panorâmica do acervo e fornece informações gerais sobre os fundos tais como: título, nome e história de seu(s) produtor(es), datas-limite, dimensões, gêneros documentais, conteúdo dos documentos, sistema de organização e condições de acesso.

NO MAR E EM TERRA: HISTÓRIA E CULTURA DE TRABALHADORES ESCRAVOS E LIVRES

Resumo

Este livro conecta histórias de escravos e homens livres à vida material e à cultura profissional experimentada no mar e em terra firme, entre os séculos XV e XX. O enfoque é o mundo do trabalho, a condição dos trabalhadores e a agência deles. Entre outros assuntos, são analisados aqui: o ritual de passagem do equador e suas transformações ao longo do tempo; os problemas relativos à alimentação e à saúde dos marinheiros; a atuação de escravos e libertos como trabalhadores do mar e as perspectivas de liberdade de marinheiros escravos navegando entre os domínios portugueses; as discussões sobre a liberdade no parlamento brasileiro e em um ambiente fabril a partir das petições de escravos; as primeiras discussões sobre o uso da mão de obra de indígenas como substitutos de escravos africanos; e as conexões entre os discursos médicos do século XIX e o racismo (re)construído continuamente até o século XXI. Entre as fontes, destacam-se os debates parlamentares, documentação administrativa do período colonial e imperial brasileiro, narrativas de viajantes, crônicas coloniais, matrículas de marinheiros, dicionários de marinha e processos judiciais envolvendo os homens do mar.

Arquivo Público do Estado celebra Dia do Arquivista

São 126 anos de Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB/FPC), resguardando a memória do estado desde 16 de janeiro de 1890. Atributo essencial à soberania de um Estado, o Arquivo Público se apresenta como uma “instituição imprescritível e inalienável”, pois custodia parte significativa da memória nacional, é patrimônio documental da Bahia, sendo também um dos mais importantes do Brasil. No dia 20 de outubro, arquivistas de todo o país celebram o Dia do Arquivista, que será registrado com atividades que tem o APEB como parceiro.

No dia 25 (terça-feira), a partir das 13h, será realizado evento comemorativo no Auditório Arquivo Público do Estado da Bahia (Baixa de Quintas), em parceria com a Universidade Federal da Bahia, por meio do curso de Arquivologia, a Associação dos Arquivistas da Bahia (AABA) e a Editora da UFBA. Às 14h, a atividade contará com a palestra “Arquivologia e tecnologias em enfoque”, que será ministrada pelos convidados: Gillian Queiroga (“Novas perspectivas para a Arquivologia do século XXI”), Aurora Freixo (“Gestão de documentos arquivísticos digitais: aspectos técnicos e legais”) e Ricardo Sodré (“Inovação e apropriação de tecnologias em gestão e representação arquivística: mobile, mídias sociais e fronteiras permeáveis”).

Às 16h, será abordado o tema 
“Arquivística contemporânea: perspectivas e desafios profissionais”, com Fabrício Vasconcelos (“Perspectiva e experiência em consultoria documental no mercado baiano”), Ana Cláudia Cupertino (“Assistência técnica aos Arquivos Públicos Municipais”), Eduardo Motta Witzel e Ulle Viviane Barbosa Xavier (“Relatos sobre a construção da TTD-atividade fim do APEB”). No evento também terá atração musical e sorteio de livros.
Nova tecnologia de gestão

Na ocasião, também será lançado o software ICA AtoM, que passará a ser utilizado pelo Arquivo Público do Estado da Bahia para gestão de seu acervo arquivístico documental de valor permanente. O software propicia o auxílio nesta atividade, especialmente no que se refere à descrição arquivística, com o objetivo de facilitar o acesso e rapidez ao conteúdo digital. O uso da nova tecnologia evitará o manuseio dos documentos originais, uma vez que produz instrumentos digitais de pesquisas, disponibilizados em sistemas que geram informações de forma estruturada e dinâmica.

APEB na História e Hoje

Criado pelo reconhecimento da necessidade de haver uma organização dos documentos da Bahia e ofertar uma possibilidade do seu acesso aos cidadãos, o Arquivo Público reúne documentos textuais, manuscritos e impressos, produzidos no período Colonial, Monárquico e Republicano. Por ter sido capital do país e ainda estar estrategicamente bem localizada, foram tramitados por Salvador diversos documentos oficiais da Coroa Portuguesa. Alguns se perderem completa ou parcialmente, enquanto outros continuam conservados até hoje, formando um vasto acervo. Situado em uma construção secular, erguida pelos jesuítas no século XVI, o Arquivo Público sofreu restauração emergencial de parte de sua estrutura em 2014. Com renovados telhado, forro e o assoalho, o APEB garantiu melhor preservação dos documentos e estrutura para realização de ações de formação, como seminários, palestras. A reforma continua em 2017, quando serão investidos mais recursos para recuperação de outros espaços.

Segundo a diretora do Arquivo, Teresa Matos, é possível afirmar que o crescimento do APEB resultou da intensificação do recolhimento e da aquisição de acervos documentais. “Estudiosos consideram que a história de todo Arquivo se confunde com o lento processo de formação e sedimentação do seu acervo”, complementou. O Arquivo passou a acolher, também, a arte contemporânea como forma de ampliar a difusão dos arquivos e abrangê-lo a um público diverso, além de criar uma maior visibilidade. “Os arquivos passaram a assegurar a capacidade não apenas de provar, de testemunhar e de informar, mas, também, de emocionar, pois eles têm a capacidade de rememorar as coisas esquecidas, tornando-as presentes ao espírito”, explica Teresa.

Serviços gratuitos


O APEB apresenta um conjunto de serviços que tem o objetivo de apoiar as decisões governamentais de caráter político-administrativo, o cidadão na defesa de seus direitos e à produção científica e cultural. São oferecidos atendimentos presenciais, com as salas de Consulta de Manuscrito e Impressos, Consulta de Microfilmes e Biblioteca Francisco Vicente Vianna e a Biblioteca Francisco Vicente Vianna, o Atendimento à Distância, Emissão de Certidões, Visitas Guiadas e Assistência Técnica. O Arquivo Público fica localizado em Salvador na Ladeira de Quintas, número 50, na Baixa de Quintas.
FONTE: 

VOCABULARIES AND NOTES BASED ON MATERIAL FROM ENSLAVED AFRICAN-BRAZILIANS


About the Project
The United States Exploring Expedition, led by Lt. Charles Wilkes, was a scientific expedition that circumnavigated the globe from 1838 to 1842, making observations and collecting specimens that formed the historical nucleus of Smithsonian collections. Expedition members collected many things that suggest the level of global exchange already taking place, but nothing that speaks so poignantly to the darkest side of that exchange - the trade in human lives that brought Africans to Brazil. Transcribe Horatio Hale's handwritten notes on West and Central African vocabulary and facial scarification that he collected from enslaved Africans in Brazil during the expedition.


Horatio Hale served as philologist and ethnologist for United States Exploring Expedition. While in Rio de Janeiro, Hale interviewed "natives of Africa" and obtained notes on more than a dozen languages. He also made drawings of facial scarification marks (cicatrixes) and indicated the particular places associated with each type of mark.

ENCONTRO SOBRE A HISTÓRIA DE MORRO DO CHAPÉU - BA


A Comissão Organizadora do Encontro convida V.Sª para participar do Encontro sobre pinturas rupestres, colonização, personalidades, pecuária, estrada Real e a proposta de Geoparque em Morro do Chapéu

Dia 24 de outubro/2016, segunda-feira, 8h30 às 12h e das 14h às 18h

No Museu Geológico da Bahia, Av. Sete de Setembro, 2195 Corredor da Vitória Salvador


Contato:  ljcfigueiredo@uol.com.br

REVISTA BRASILEIRA DE HISTÓRIA - EDITORIAL



EDITORIAL 

Antonio Luigi Negro 

Universidade Federal da Bahia (UFBA). 
Salvador, BA, Brasil. rbh@anpuh.br

Assim como a Anpuh, a Revista Brasileira de História (RBH) apoia a rejeição da escola sem partido. Os motivos são simples e remetem à nossa História.

Em seu livro Machado de Assis, Historiador, Sidney Chalhoub analisa a ideologia senhorial da escravatura detendo-se na personagem de Estácio, criada pelo brilhante escritor negro. Herdeiro de seu pai morto, cabe a Estácio cumprir a vontade patriarcal expressa em testamento. Operando com a hegemonia cultural de homens livres brancos - proprietários membros de boas famílias, em geral donos de escravos e escravas -, Estácio é incapaz de relativizar valores e perceber diferenças. Toda diferença perante sua vontade senhorial é, pois, entendida como provocação, desobediência, indisciplina, desvio, doença ou rebeldia. Ao repicar o bordão "minha família, minhas regras", a escola sem partido vem, em nome de sábios homens brancos, afirmar a primazia do particular, do doméstico, o domínio do arbítrio privado, onde abuso e violência campeiam impunes e soltos, dada sua proximidade com a prática do estupro, da agressão, da mentira e da tortura. Em nome da defesa de sua cultura - que lhes é específica mas afirmam ser válida para todos -, põem em risco a igualdade da cidadania, difícil e histórica conquista numa sociedade, como a nossa, de desigualdades duráveis, desigualdades seculares.

Por sua vez, em O Estado Novo, Maria Celina Soares D'Araujo disseca o motivo pelo qual é autoritária uma proposta que afirma o apolítico - o apartidário - como adequado. Desdenhando a sociedade civil (vista como praça de desentendimentos, de diferenças aberrantes, de confusão permanente), o Estado Novo, ao decretar um Brasil sem partido como solução para o bem-estar e o desenvolvimento, recorreu à força para suprimir outras formas de pensar e agir. O fim da diversidade foi a extinção da política, da sociedade civil. A lei e a mordaça, a perseguição e a polícia calaram - prenderam e arrebentaram - a pluralidade social. Congregando a egrégia escola da família com Deus pela liberdade e a propriedade (vide editorial de O Globo em favor do término do ensino público superior gratuito), projeta-se uma efetiva ameaça à igualdade e à democracia. Tanto a sinopse quanto a trama do filme são notórias e sinistras.

A RBH é um periódico de acesso livre domiciliado na SciELO e no DOAJ. Aberta a autorias e às leituras as mais variadas, não postula uma História contada a partir de uma versão consagradora do Estado nacional, por ser a cidadania quem constitui a pátria (e não o contrário).

Montado a partir da publicação avançada de artigos, este número 72 veio a lume gradativamente. Ao ser fechado, sua pauta tem nove artigos e três resenhas. Quatro artigos compõem o dossiê "Perspectivas recentes da História Medieval no Brasil", organizado por Marcelo Cândido da Silva e Néri de Barros Almeida (vide sua Apresentação).
O "Crime da miscigenação", de Luciana Brito, discute como o caso brasileiro foi apropriado pela elite branca estadunidense, interessada, no pós-abolição, em dar vida durável a ideologias de supremacia branca e segregação racial. Não por acaso, o Brasil vira exemplo de atraso e degeneração, o que aviva as políticas segregacionistas nos Estados Unidos.

No artigo sobre a política externa equatoriana durante a Guerra do Pacífico (1879-1884), Claudio Figueroa analisa o papel de reivindicações territoriais no conflito, as quais declaravam defender o interesse nacional. O autor mostra como o Equador, que não foi um país beligerante, buscou redefinir sua fronteira com o Peru.

Com "Sou escravo de oficiais da Marinha", álvaro Nascimento situa a Revolta da Chibata no contexto do pós-abolição. O autor descreve os problemas enfrentados pela marujada, mormente negra (enquanto o oficialato era branco), nas décadas seguintes a 1888, detendo-se na insurgência contra castigos corporais que, em 1910, eram usados em nome do disciplinamento.

No seu esboço biográfico sobre "Miranda", codinome de Antônio Bonfim, secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro de 1934 a 1936, Raimundo Moreira, com base em pesquisa de fontes inéditas, discute sua trajetória e formação como militante e sugere uma reavaliação de sua biografia.

Em "Sou ainda uma Brazilianist" Barbara Weinstein questiona essa categoria. Nos anos 1970, o termo "brasilianista" rotulou o estrangeiro que estudava o Brasil. Nascido no contexto da Guerra Fria e do nosso regime militar, invocava uma figura com orientação política específica. Mudanças no mundo acadêmico, lá ou aqui, complicam esse indicador de "lugar" de quem faz pesquisa.

Nas três resenhas deste número, está mais uma vez indiciado o fato de não ser a RBH uma revista paroquial. Uma autora atua na Inglaterra, um livro resenhado foi publicado fora do Brasil e outro resulta de uma tradução. Isso significa circulação e comunicação através de fronteiras estabelecidas. Lamentavelmente, até onde a vista alcança, nada disso é levado em conta quando se faz uma avaliação. Mantém-se aqui o pioneirismo do número 69, que publicou simultaneamente em português e inglês todos os seus artigos. Não são todos os periódicos que fazem isso. Também vale a pena notar que três autorias de artigos atuam fora do Brasil.

A RBH agradece a quem se envolveu com seu labor e engenho, voluntário, gratuito, ou não. Pablo Serrano e Deivison Amaral concorreram positivamente como assistentes editoriais, com entusiasmo e afinco diários. Armando Olivetti, Eoin O'Neill, Flavio Peralta e Roberta 

Accurso prestaram serviços profissionais de grande qualidade.

Deplora-se a queda, via golpe, da presidenta Dilma Rousseff.


Gravam-se aqui penhorados agradecimentos ao Programa de Pós-Graduação em História, Cultura e Práticas Sociais da Universidade do Estado da Bahia (PPGHCPS-UNEB), e também ao CNPq.

PALESTRA: PESQUISA E PESQUISADORES NO CENTRO DE MEMÓRIA DA BAHIA


Fortalecendo as celebrações das três décadas de existência, durante todas se segundas do mês de setembro, o Centro de Memória da Bahia realiza o tradicional encontro do Conversando com a sua História. Nesta segunda-feira (26), às 17h, o Conversando Especial 30 anos CMB abordará “Pesquisa e Pesquisadores no Centro de Memória da Bahia”. A atividade terá participação do professor de História da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Antônio Luigi Negro; e do professor de História da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Paulo Santos Silva. A atividade oferece certificado de atividades complementares para os participantes do bate-papo, com a carga horária de duas horas por palestra.

Há 30 anos o Centro de Memória da Bahia – vinculado à Fundação Pedro Calmon/ SecultBA, é responsável pelo recolhimento, salvaguarda e preservação de acervos documentais de valor histórico, apoia e desenvolve pesquisas sobre a história da Bahia e incentiva a montagem de espaços de memória do estado. Através do Conversando com a sua História (CSH), atividade que acontece periodicamente na Biblioteca Pública do Estado da Bahia, conhecida como Biblioteca dos Barris, o CMB promove a difusão do
conhecimento histórico sobre o estado e a sua memória.

Memórias contemporâneas – Em outubro e novembro, no Conversando com a sua História, serão debatidas as memórias contemporâneas sobre a cultura e a política na Bahia. Personagens que vivenciaram os processos e pesquisadores abordarão a influência de instituições educacionais e culturais na formação do campo cultural e artístico baiano da segunda metade do século XX, a relação de organizações e movimentos sociais com o campo da cultura, e como as linguagens artísticas refletiram e foram protagonistas das disputas identitárias.


VI EIHC - ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL

DIA 14 DE SETEMBRO ÀS 18:00h 
NO ESPAÇO CULTURAL - UCSAL - CAMPUS DA FEDERAÇÃO
ACESSE A PROGRAMAÇÃO COMPLETA: 

LANÇAMENTO: COLEÇÃO LIVROS DO TOMBO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DA BAHIA

Os Livros do Tombo formam uma coleção de 6 volumes, todos em grande formato e de beleza inigualável. Juntos, alcançam um período de cerca de 400 anos, relativos aos séc. XVI, XVII, XVIII e XIX. Nesses documentos está registrada a história da Cidade de Salvador desde o início da história do Brasil, pois os referidos livros contém alguns dos primeiros registros da formação da sociedade brasileira. Ademais, os Livros do Tombo trazem registros do patrimônio territorial do Mosteiro de São Bento da Bahia nas principais capitanias dos primeiros séculos brasileiros: Bahia e Pernambuco. Contém, ainda, documentos notariais referentes aos testamentos de grandes personalidades para a história da formação do Brasil, como Catarina Paraguaçu, Gabriel Soares, Duarte Coelho da Costa, Garcia d’Ávila e toda sua linhagem. São documentos arquivísticos, de caráter diplomático, manuscritos autênticos e únicos. Todos os volumes pouco variam em dimensão, e têm, basicamente, as mesmas características: encadernação sem ornamentos ostensivos, com capa em couro de porco marrom, com o brasão da ordem e a data de fundação do Mosteiro pintados à mão. Os fólios são numerados e rubricados no anverso à direita superior e todos os livros possuem Termo de Abertura e de Encerramento e abarcam um período de 1552 a 1913. A escrita é em tinta ferro-gálica e está em delicado estado de conservação, em especial no primeiro volume: o papel está bastante escurecido pela oxidação da tinta em diversas partes, o que prejudica sensivelmente a leitura em alguns trechos.

A Coleção dos Livros do Tombo do Mosteiro de São Bento da Bahia poderá

​também ​ser acessada gratuitamente através do site: www.saobento.org/livrosdotombo 

Biblioteca Virtual lança 4ª edição da Revista Bahia com História


Repleta de reflexões sobre a Bahia, sua arte, história e identidade, a quarta edição da Revista Virtual Bahia com História será lançada terça-feira (16). A publicação - de autoria da Biblioteca Virtual Consuelo Pondé – vinculada à Fundação Pedro Calmon/ SecultBA - traz artigos, entrevistas e homenagens, e poderá ser acessada diretamente no site da Biblioteca http://www.bvconsueloponde.ba.gov.br/
São seis artigos produzidos sobre a história da Bahia, entrevista com o doutor em Antropologia da Religião pela School Of Oriental & African Studies University Of London, e professor de Antropologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Nicolau Parés; além de uma homenagem do mestre em História, Daniel Rebouças ao historiador e notável contador de histórias e memórias da Bahia, Cid Teixeira. Na capa da revista está a arte de Miguel Cordeiro, artista plástico reconhecido como um dos pioneiros do grafite e da arte urbana.

Articulistas - O doutorando em História na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Marcelo Siquara, escreveu o artigo “A Independência na Bahia (1823): Algumas reflexões importantes”, no qual retrata as condições de vida dos baianos no momento posterior ao 7 de setembro de 1822, e anterior ao 2 de julho de 1823. Já a historiadora e pós-graduada em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminista, Claudia Andrade Vieira, escreveu o artigo “Educação e casamento: uma análise feminista na década de 1930”, no qual analisa a primeira obra da escritora Edith Mendes da Gama e Abreu – Problemas do Coração – a qual expõe algumas ideias sobre normas de comportamento, casamento e educação feminina.

O artigo que fala da “Baianidade e arquitetura moderna: da integração das artes à busca por uma arquitetura regionalista”, escrito pelo doutor em Arquitetura e Urbanismo pela UFBA, Nivaldo Vieira, também está na seção de artigos da Bahia com História. No texto, Nivaldo, que é professor do Núcleo de Teoria, História, Projeto e Planejamento; do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo e do Mestrado Profissional em Conservação e Restauração de Monumentos e Núcleos Históricos, ambos da UFBA, demonstra a integração entre as artes de caráter regionalista e a arquitetura da Bahia, em diálogos sobre tradição, identidade e modernidade.

Artes - A partir do romance de Jorge Amado – Jubiabá - a doutora em Cultura e Sociedade pela UFBA, Juciara Maria Barbosa, escreveu o artigo “A busca pela Lanterna dos Afogados na cidade da Bahia”, contando como intelectuais e artistas modernos, como o pintor Carybé e o fotógrafo Pierre Verger, se empenharam na tarefa de capturar os traços, trejeitos e nuances da Bahia, herdeira do período colonial, exuberante, tropical, mística e miscigenada, buscando retratar o cenário e seus mais peculiares tipos.
Já a jornalista, especializada em Patrimônio Material e Imaterial, Mary Weinstein, no artigo “Centro da cidade: questões de demolições e construções”, falou sobre a perda recorrente de casas do século passado, que deixam de compor a memória urbana da cidade de Vitória da Conquista, ao mesmo tempo em que ocorre a construção de um novo Shopping Center, que ocupará 67 mil metros quadrados em uma das avenidas que mais se valorizam na cidade.

A história dos deslocamentos dos chineses pelo mundo até sua instalação em Salvador nos dias de hoje foi descrita pela doutora em antropologia pela UFBA, Ana Claudia Minnaert no artigo “A migração chinesa para Salvador: os novos rumos da diáspora”. No texto, a autora analisa a vida cotidiana e a participação desse grupo no centro da cidade, com suas lojas e restaurantes misturando-se ao comércio local.

Seções - “Um acervo para se dançar: a arte de Lia Robatto”, que estará na seção Documento da revista, é o resultado da primeira etapa do projeto de criação do Fundo Lia Robatto, primeiro acervo digital em Dança produzido na Bahia. No texto, a pesquisadora, educadora e artista de dança, Suki Guimarães, conta o desenvolvimento do projeto, coordenado por ela, viabilizado pelo Edital de Restauração e Digitalização de Acervos Arquivísticos Privados, de 2014, da FPC/SecultBA.


Na seção “Singular”, da Revista Bahia com História, a historiadora Maria Fernanda Marques escreveu “Casarões do Vale: história, memória e patrimônio”, no qual percorre municípios do Vale do Jiquiriçá, cujos sobrados, casas de fazenda e estações ferroviárias revelam a história dessas comunidades através do seu patrimônio histórico e arquitetônico edificado entre a segunda metade do século 19 e a primeira metade do século 20.

The Rise and Demise of Slavery and the Slave Trade in the Atlantic World


Essays draw on quantitative and qualitative evidence to cast new light on slavery and the transatlantic slave as well as on the origins and development of the African diaspora.

Drawing on new quantitative and qualitative evidence, this study reexamines the rise, transformation, and slow demise of slavery and the slave trade in the Atlantic world. The twelve essays here reveal the legacies and consequences of abolition and chronicle the first formative global human rights movement. They also cast new light on the origins and development of the African diaspora created by the transatlantic slave trade. Engagingly written and attuned to twenty-first century as well as historical problems and debates, this book will appeal to specialists interested in cultural, economic, and political analysis of the slave trade as well as to nonspecialists seeking to understand anew how transatlantic slavery forever changed Europe, the Americas, and Africa.


PhilipMisevich is assistant professor of history at St. John's University, and Kristin Mann is professor of history at Emory University.


Luciana da Cruz Brito: O crime da miscigenação: a mistura de raças no Brasil escravista e a ameaça à pureza racial nos Estados Unidos pós-abolição


Luciana da Cruz Brito

New York City University (Graduate Center, CUNY). New York, NY, USA. lucianacruzbrito@gmail.com 

RESUMO
Este artigo discute como o exemplo brasileiro foi debatido e apropriado por políticos, cientistas e demais membros da elite branca estadunidense, que no pós-abolição estava elaborando um projeto de nação que mantinha antigas ideologias escravistas de supremacia branca e segregação racial que perduraram no país ao longo do século XX. Na América Latina era possível avaliar os efeitos negativos da mistura racial, e o Brasil tornou-se um exemplo de atraso e degeneração, reforçando a necessidade de políticas segregacionistas urgentes a serem implementadas nos Estados Unidos. A questão da mistura racial estava atrelada à produção de uma noção de identidade nacional que se sustentava nas ideias de pureza de sangue e em oposição às sociedades latino-americanas.
Palavras-Chave: mistura racial; identidade nacional; Estados Unidos da América; Brasil

No ano de 1864, ainda durante a Guerra Civil, o jornal sulista The Charleston Mercury, um periódico da cidade de Charleston, grande centro escravista dos Estados Unidos, publicou uma matéria que abordava o maior dos pesadelos da sociedade norte-americana no pós-abolição: a mistura racial, recém-batizada com o nome de miscigenação. A matéria intitulada "Miscigenação no Norte" havia sido originalmente publicada no jornal ianque The New York Times, de ampla circulação na região norte do país, com o título de "A que ponto nós estamos chegando". O autor do texto chamava a atenção para um fenômeno descrito como "anormal e detestável" que estava se tornando comum nas ruas de Nova York, agora tomada por rostos de tez cada vez mais "amarronzada".

A matéria alertava os cidadãos do país para os riscos de uma prática supostamente comum entre os abolicionistas radicais, que era o hábito de apoiarem e influenciarem o casamento inter-racial, ameaçando assim um país "grandioso e próspero" como os Estados Unidos. Ainda de acordo com as previsões pessimistas do autor, por causa dessa prática, os brancos do país deixariam de existir porque em breve, todas as famílias brancas teriam um genro negro, o que faria todos os norte-americanos aos poucos se tornarem mulatos, afetados pela "raça infeliz". "Adeus, um longo adeus à nossa brancura", lamentava o autor, acreditando que algo deveria ser feito para "preservar a pureza" de sangue.2

O tema da mistura racial sempre foi crucial nos debates sobre nação, escravidão e identidade nacional nos Estados Unidos. No período em que o artigo citado foi escrito, durante a Guerra Civil, a mistura racial era tida na região sul como uma das consequências mais nefastas da abolição. Afinal, desde a Revolução Americana, em 1776, os Estados Unidos foram pensados por suas elites como um país formado por homens brancos, descendentes de europeus, e que guardariam para seu grupo os privilégios da cidadania e do pertencimento nacional. Negros, assim como indígenas, não estariam incluídos na ideia de nação branca inventada pelas elites do país (Fields, 1982). Portanto, a mistura racial, ao longo dos anos, constituía-se como uma ameaça a essa ideia, desestabilizando noções raciais fixas, mas que por vezes permitiam lugares sociais intermediários.

Em geral, a sociedade branca norte-americana das regiões norte e sul condenava a mistura racial. Na década de 1840 a Escola Americana de Etnologia, movimento de cientistas do norte e do sul do país que se dedicavam a explicar e justificar as diferenças raciais, ofereceu diversos argumentos que favoreceriam não só a defesa do cativeiro, mas também a criação de políticas sustentadas na noção de white supremacy. O líder desse movimento científico, o médico Samuel Morton, utilizou o método de medição de crânios para criar uma hierarquia dos povos no mundo, mas sobretudo nos Estados Unidos. Associando peso da massa craniana e capacidades intelectuais, Morton concluiu que os negros ocupavam a base da escala de evolução humana, enquanto os caucasianos representavam o topo, a vanguarda da civilização (Stanton, 1960).

Na região sul, onde ser negro necessariamente significava ser escravo, a cor da pele era um importante marcador do status de homens e mulheres da região. Portanto, a mistura racial criava um dilema no sul escravista: qual seria o lugar de homens e mulheres que, de tão claros, passariam por brancos? Até o início do século XIX, senhores de escravos acreditavam que a "infusão de sangue branco" produziria escravos física e intelectualmente melhores do que aqueles que eram "puros descendentes de africanos". Porém, com o passar dos anos e com o crescimento do número de indivíduos considerados mulatos, além do aumento do número de pessoas que aparentemente eram brancas mas viviam em cativeiro, a mistura racial passou a constituir uma séria ameaça ao sistema escravista na região sul (Tenzer, 1997, p.7-9).

A solução para essa questão partiu de outro membro da Escola Americana de Etnologia, o médico sulista Josiah Nott. Desde a década de 1840 ele já vinha defendendo a importância de proibir o intercurso de negros e brancos nos Estados Unidos. Nott afirmava que a mistura racial, na época chamada de amalgamação, produzia um indivíduo inferior, degenerado e perigoso. Isso porque o chamado mulato não aceitaria sua condição de escravo, ameaçando assim a tranquilidade da sociedade branca. Nott era poligenista, assim como todos os membros da Escola Americana, e defendia que negros e brancos eram de espécies distintas. Por esse motivo, a mistura racial causaria também a degeneração dos brancos, que segundo ele faziam parte de uma raça superior (Lemire, 2002, p.4; Brito, 2014).3

Josiah Nott compartilhava essas ideias com Louis Agassiz, cientista suíço estabelecido nos Estados Unidos desde 1846. Embora fosse contrário à escravidão, Agassiz concordava com Nott a respeito dos efeitos da mistura racial. Afirmava que essa prática produzia um indivíduo degenerado e propunha que os afro-americanos libertos fossem removidos para longe dos estados do norte dos Estados Unidos. Mais tarde, ele passou a propor que a população negra livre fosse enviada para o Brasil como forma de evitar que a mistura racial fosse praticada de forma desenfreada em seu país. Agassiz empreendeu uma missão científica no Brasil, que já vinha sendo utilizado como observatório de raças puras e mestiças. O momento escolhido para realizar tal empreitada não foi acidental: o ano de 1863, durante a Guerra Civil, quando a questão central era a disputa pela continuação ou pelo fim da escravidão no sul dos Estados Unidos (Machado; Huber, 2010, p.30-33).

Portanto, quando o jornal sulista Charleston Mercury republicou uma matéria do jornal da região adversária, o The New York Times, refletiu esta ideia comum que conciliava elites sulistas e nortistas: a rejeição à mistura racial. Antes da guerra, os escravistas do sul acusavam os abolicionistas do norte de, entre outras coisas, defender o fim da escravidão para que casamentos entre negros e brancos fossem permitidos. Na matéria do The New York Times, podemos encontrar a "denúncia" de que os abolicionistas brancos estavam dispostos a se casar com negros para provar sua crença na igualdade racial. Nessa perspectiva, a combinação mais temida nas uniões entre negros e brancos era aquela na qual a mulher branca se casava com um homem negro (Lemire, 2002, p.84-97).

Notícias sobre filhas de abolicionistas brancos que se casavam com negros no norte eram muito comuns na imprensa sulista. Um exemplo foi o casamento de Sarah Judson, cuja história foi publicada no jornal Memphis Daily Appeal em 1859 e que, segundo o autor, "era de revirar o estômago de qualquer branco". A noiva, filha de um "abolicionista radical", foi induzida pelo pai a se casar com um homem negro "contrariando os desígnios da natureza".4

De acordo com a historiadora Martha Hodes, foi durante e após a Guerra Civil que as relações sexo-afetivas entre negros e brancos passaram a ser menos toleradas nos Estados Unidos, sobretudo nas relações em que a mulher pertencia à "raça branca". Com o aproximar-se da Guerra, quando a escravidão estava mais ameaçada, os filhos de mães brancas e pais negros desestabilizavam ainda mais o sistema escravista, uma vez que que a condição da mãe definia o status da prole. Esse não era o caso das relações entre homens brancos e mulheres negras, muitas vezes resultado da violência sexual e/ou coerção, que retroalimentavam o sistema escravista, uma vez que a mulher negra produzia indivíduos escravizados (Hodes, 1997).

A década de 1860 foi um período de ansiedade em torno do tema da mistura racial, sobretudo após o decreto da abolição da escravidão nos estados do sul e a reeleição de Lincoln, o que ocorreu entre 1863 e 1864. Esses fatos influenciaram os debates sobre as políticas futuras a respeito do status dos libertos no norte e no sul dos Estados Unidos. Esses debates também buscavam justificar argumentos mobilizando as teses científicas produzidas pela Escola Americana de Etnologia na década de 1850. Várias questões foram levantadas no pós-abolição: os libertos seriam inseridos na sociedade com os mesmos direitos que os brancos? A abolição seria seguida de um projeto de igualdade racial? A abolição significaria o fim do racismo? Como garantir que os libertos continuassem trabalhando, inclusive para seus ex-senhores? Como garantir a supremacia dos brancos? Ao mesmo tempo em que tais questões foram colocadas por escravistas e até mesmo por abolicionistas moderados, a comunidade negra do país mostrava-se esperançosa com o futuro. Os libertos do norte apostavam na igualdade de direitos, sobretudo no direito ao voto e no fim dos espaços segregados (Holt, 2010).

Durante a campanha eleitoral de 1863, os democratas (defensores da escravidão) tentaram associar a prática da miscigenação à imagem do presidente Lincoln, que era candidato à reeleição pelo partido republicano. Quando Lincoln decretou o fim da escravidão nos estados do sul em 1863, a lei foi ignorada pelos senhores de escravos daquela região. Isso bastou para que o presidente fosse acusado de liderar uma "cruzada" a favor dos negros e de ser um apoiador do casamento entre negros e brancos. Lincoln havia afirmado, anos antes, que não acreditava na igualdade racial, e via a ideia de casamento inter-racial como naturalmente repugnante (Lemire, 2002; Kaplan, 1949).

Foi assim que naquele ano os democratas lançaram mão de uma estratégia que tinha por objetivo vincular de vez a imagem do presidente Lincoln à prática de amalgamação. No calor da campanha eleitoral, dois jornalistas democratas, David Goodman Croly e George Wakeman, lançaram um panfleto chamado "Miscigenação: a teoria da mistura de raças aplicada ao homem branco americano e o negro". O folheto era falso, e a intenção dos autores, então anônimos, era deixar a impressão de ter sido escrito por republicanos abolicionistas radicais, apoiadores de Lincoln e dos casamentos inter-raciais. O texto teve grande repercussão na região norte, onde estava a maioria dos eleitores do presidente, mexendo com a opinião pública aterrorizada com as ideias defendidas pelo panfleto, que promovia a mistura racial como algo praticado entre as nações mais avançadas do mundo. O texto também apontava o mestiço como o povo do futuro, uma visão pouco comum nos Estados Unidos, afirmando que as raças mestiças eram superiores e assim contrariando a justificativa central da superioridade branca: a pureza racial (Lemire, 2002, p.116; Fredrickson, 1971, p.171-174).
O panfleto criou o termo miscigenação, que dali por diante seria empregado para designar a mistura entre pessoas de raças diferentes. Além disso, a publicação também atraiu a atenção da opinião pública porque abordava diretamente o tema dos casamentos entre pessoas negras e brancas, assunto que causava reações no norte dos Estados Unidos sempre que a abolição era debatida. Nos anos 1860 a mistura racial já era completamente condenada na região sul, porque naquele momento tratava do possível envolvimento de negros libertos e brancos pobres, o que contrariava regras raciais impostas durante a escravidão. Na região norte, de forma análoga, a miscigenação racial também era condenada, e o panfleto também gerou reações negativas, até mesmo alguns abolicionistas acreditaram que o texto era um manifesto pró-miscigenação. Mesmo falso, o panfleto "Miscigenação..." ganhava veracidade porque utilizava uma linguagem científica. Além disso, para exemplificar os supostos benefícios da mistura racial os autores fizeram amplo uso de representações da América Latina. Esta era uma forma de fazer os leitores estadunidenses visualizarem também o seu país como uma sociedade "mestiça".
Percebemos o uso da América Latina no capítulo "Superioridade das raças mistas". Os autores afirmavam que as raças mestiças eram mental, física e moralmente superiores àquelas raças puras ou que não se haviam misturado, e traziam o exemplo dos sambos da América do Sul, descendentes de índios e negros. Mais uma vez, o Brasil não poderia deixar de ser citado como exemplo de país onde o povo era miscigenado, colaborando para a consolidação da ideia da mestiçagem neste país.
Os cafuzos no Brasil, uma mistura de indígenas e negros, são mencionados pelos viajantes como um tipo esguio e musculoso, e com um cabelo excessivamente longo que é meio encaracolado especialmente nas pontas e cresce perpendicularmente da testa até a altura de um pé ou um pé e meio. Isso forma uma cabeleira muito bonita, que é um resultado da mistura do cabelo carapinho do negro com o cabelo pesado e longo do índio.5
Ainda que sob pretensões falsas, o panfleto divulgava a imagem do brasileiro como um tipo perfeito, o belo resultado da mistura racial vigente naquela sociedade. Essa imagem positiva do dito mulato nutria as fantasias, ou melhor, os temores da sociedade estadunidense que via o Brasil, assim como outros países latino-americanos, como um antiexemplo do seu projeto de nação. Essa representação do tipo brasileiro também cumpria outro papel no movimento abolicionista negro. Os abolicionistas afro-americanos viam no povo brasileiro miscigenado uma referência na sua luta por integração e igualdade racial. Para eles, mistura racial significava ausência de preconceito, o que fazia do Império um exemplo importante quando precisavam convencer seus compatriotas tanto da possibilidade de convívio entre negros e brancos de maneira igualitária quanto das potencialidades de negros e mestiços (Brito, 2014).
Nortistas e sulistas, a despeito da rivalidade provocada pela Guerra Civil, concordavam em que os libertos não poderiam viver em condição de igualdade em relação à população branca. A ideia de mistura racial causava verdadeira repugnância entre os nortistas e era tida como algo contrário às leis naturais, o que fez o tema do casamento inter-racial tomar uma proporção importante na eleição de 1864. Ainda naquele ano, uma série de caricaturas foram feitas para ilustrar a miscigenação como resultado da eleição do presidente. Charges foram amplamente divulgadas na imprensa antiabolicionista após a vitória eleitoral de Abraham Lincoln, que seria responsabilizado pelos seus opositores por promover a mistura de raças nos Estados Unidos após ter abolido a escravidão (Lemire, 2002, p.115-116).

Uma dessas caricaturas teve como tema um baile, o Baile da Miscigenação, que acontecia na sede da campanha eleitoral de Lincoln (Figura 1). A festa representava uma completa inversão da ordem: brancos e negros, agora libertos, celebravam juntos sem obedecer às regras de decoro racial. As mulheres negras, com características animalizadas e formas voluptuosas, seduziam homens brancos que eram atraídos pelos seus instintos sexuais. Aliás, a representação das mulheres negras era a própria descrição do que a ciência dizia sobre elas: corporeidade excessiva e sexualidade desenfreada. A charge buscava representar a quebra de controle dos corpos femininos negros e os excessos causados pela abolição.
ACESSE NA ÍNTEGRA: 

Planting Axé in the City: Urban Terreiros and the Growth of Candomblé in Late Nineteenth-Century Salvador, Bahia, Brazil


Planting Axé in the City: Urban Terreiros
and the Growth of Candomblé in Late
Nineteenth-Century Salvador, Bahia,
Brazil

Samuel Lira Gordenstein
Núcleo de Arqueologia, Superintendência do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional na Bahia, Brazil

Documentation from the second half of the nineteenth century suggests that Candomblé, the religion formed by African slaves and their descendants in Brazil, flourished in the crowded urban blocks of Bahia’s capital city. Nonetheless, in contrast to some of the surviving, large congregations established in the sparsely populated outskirts of Salvador, very little is known about the spaces of worship located in the ground-level houses and basements where
much of the city’s Afro-Brazilian population lived. This article suggests that their existence hinged on an ability to neutralize the police repression and procure natural resources for ritual use. But even more so, their practices demanded access to the ground to “plant” the prerequisite materials underground before inaugurating the space for religious observations. Evidence from archaeological research in a late nineteenth-century house basement is presented to discuss the role played by buried “axés” in the religion. Ethnographic analogies with past and contemporary Candomblé practices are used to demonstrate continuities in the choice of locations and some of the characteristics of the objects whose roles were to protect the space and consecrate the soil for ritual practices.


Keywords Salvador, Candomblé, nineteenth century, urban archaeology.