De grilhões a cerâmicas: escavações no Arquivo Público revelam peças históricas.


(Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

De grilhões a cerâmicas: escavações no Arquivo Público revelam peças históricas. 
Fragmentos foram encontrados durante preparação de terreno para construção de refeitório

Matéria: Clarissa Pacheco / CORREIO 
Fotos: Mauro Akin Nassor/CORREIO

Quatrocentos anos de vida são suficientes para guardar muitas histórias. A Quinta dos Padres, na Baixa de Quintas, em Salvador, guarda memórias de padres jesuítas que viveram lá por quase dois séculos, até que fossem expulsos pelo Marquês de Pombal. Também tem lembranças do período em que funcionou como leprosário, a partir do final do século XVIII, e como um centro de experimentação agrícola. Nos últimos 39 anos, tem guardado registros que contam milhares de histórias sobre a Bahia e o Brasil, desde que passou a funcionar como o Arquivo Público do Estado da Bahia (Apeb).

Agora, o chão onde foi erguido o prédio do século XVI, tombado como patrimônio histórico e cultural desde 1949, pode dizer ainda mais coisas – e, quem sabe, até trazer novas versões sobre a vida de quem passou por ali ou pela vizinhança. É que, em meio ao entulho retirado de uma parte do terreno, onde está sendo construído um anexo ao Arquivo, operários da obra acharam mais do que terra e pedras: o solo está recheado de fragmentos de peças dos séculos XVII ao XIX.

"São cerâmicas, tem grilhões, moedas de diversos períodos, outros tipos de ferramentas. Acredito que são objetos que datam dos séculos XVII ao XIX, mas a pesquisa é que vai dizer melhor", explica o arquiteto e urbanista Matheus Xavier, chefe de gabinete substituto da Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na Bahia.

Para não deixar que os achados arqueológicos fossem descartados junto com o entulho, os próprios operários acionaram funcionários do Arquivo Público, que chamaram o Iphan. Nos dias 19 e 20 de fevereiro foram contadas 128 peças, entre elas estruturas metálicas grandes, cadeados, cachimbos, moedas. Depois, os achados se multiplicaram. São tantos fragmentos retirados do terreno que duas mesas do Arquivo não foram suficientes para guardá-los.


O jeito foi empilhar o material em baldes até que uma equipe de Arqueologia inicie os estudos sobre o material. Enquanto isso, os próprios funcionários separaram os vestígios por tipo. Sobre uma mesa, há pedaços de azulejos que, de acordo com a diretora do Apeb, Maria Teresa Matos, se assemelham com alguns que já faziam parte do antigo refeitório dos jesuítas.

Outros vestígios parecem mais recentes: há pedaços de pratos de louça, cachimbos, o que sobrou de uma colher de metal, uma faca de mesa, um prato e uma caneca do mesmo material. “O pessoal da obra passou a ser parceiro, mesmo. Eles separam o que encontram, limpam e só entregam para o pessoal que trabalha lá poder guardar”, disse um dos 500 pesquisadores que frequentam o Arquivo todo mês.

Valor histórico
Mesmo que o significado e a idade dos vestígios ainda sejam desconhecidos, historiadores e arqueólogos já destacam o valor histórico dos fragmentos encontrados. “Aquele prédio, suas paredes e cada cantinho contam histórias inimagináveis”, afirma o professor e historiador Urano Andrade, frequentador assíduo do Arquivo Público. Segundo ele, o Arquivo é o segundo do país em volume de documentação – são 7.360,14 metros lineares de documentos –, perdendo só para o Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro.


Mas, qualitativamente, é o mais importante, porque guarda documentos do período em que Salvador era a capital da colônia. “Da mesma forma que os documentos, caquinhos que se encontram ali também trazem histórias de vida. Ali teve escravos, africanos livres, muitos foram parar ali, fizeram uma greve. Tem muita coisa ali, grilhões, cacos e a própria vida dos que viviam ali”, afirma Urano. O Padre Antônio Vieira, por exemplo, viveu na Quinta por 17 anos – e foi lá que escreveu muitas de suas cartas e sermões.

O historiador Jaime Nascimento, do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), também fala das muitas possibilidades sobre a história das peças. “É justamente através desse material, independente do que seja, louça, prato, garfo, talheres, que vai se ter uma ideia da vida social daquela época, como essas pessoas viviam. Pode até dizer respeito à forma do tratamento médico para os leprosos”, aponta.

Embora o maior volume de fragmentos encontrados durante as escavações seja de cerâmica – 51 vestígios – também há chaves, moedas dos anos de 1768, 1826 e 1970, revestimentos que se assemelham aos da Companhia das Índias, uma espécie de ferrolho ou fecho de janela e até fragmentos de ossos.


“Podem ser ossos humanos, porque o cemitério (Quinta dos Lázaros) só foi aberto depois. Antes, tinha a casa de repouso e os padres tinham o direito de ser enterrados lá. Pode ser também de algum interno do leprosário e pode ser de escravos, porque os jesuítas também tinham escravos”, afirma Nascimento.

Para Matheus Xavier, no Iphan, no entanto, a maior parte das peças é mais recente. "A maior parte das peças são do século XIX, então possivelmente não sejam do período da escravidão, mas vamos primeiro fazer o estudo e datar a questão histórica", explica Xavier, que também é fiscal do convênio para as obras no Apeb.

Para a diretora do Apeb, Maria Teresa Matos, cabe agora à administração cuidar, além do patrimônio documental e arquitetônico, também do acervo arqueológico descoberto: “Para o Arquivo, nós entendemos que a descoberta desses vestígios é extremamente significativa e, inclusive vai ao encontro das referências históricas que nós temos em relação à Quinta do Tanque, que é considerado um dos monumentos civis mais importantes do período colonial.
Preservação
O ideal em situações como essa, em que vestígios arqueológicos são encontrados durante uma obra, é embargá-la – e, no caso de bens tombados, entrar em contato com o Iphan. É o que explica a arqueóloga Tainã Moura Alcântara, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Ufba (MAE). No caso do Arquivo Público, as escavações no local foram interrompidas logo depois do Carnaval, a pedido da equipe de Arqueologia do Iphan, liderada por Alex Colfas.


Tainã explica que é importante manter as peças onde estão. “A posição onde esse material está no solo diz muita coisa ao arqueólogo. A gente recebe treinamento, percebe as camadas que dizem se é do século XVII, XVIII, se está misturado. Tudo isso, a gente só consegue dizer com o contexto preservado”, explica.

"Foram achados muito interessantes e a gente entende que é uma coisa muito interessante para se fazer uma pesquisa sobre isso", afirma Matheus. Ele ainda não sabe o que será feito das peças, mas não descartou a possibilidade de que elas sejam encaminhadas a um museu. Esse é o desejo da coordenadora de pesquisa do Apeb, professora Rita Rosado.

A arqueóloga Tainã Moura Alcântara chama a atenção para a possibilidade de que os vestígios até revelem novas histórias. “Esse material arqueológico conta histórias que podem até ser diferentes da história oficial das pessoas que estiveram aqui antes da gente. Preservá-lo é uma questão de respeito às pessoas que viveram antes da gente. Isso nos ajuda como sociedade a ir para a frente, também”, afirma.

De qualquer forma, explica a arqueóloga Tainã, uma destinação só costuma ser dada após o estudo. “Sem o contexto, as peças, por si só, não dizem nada. São simplesmente achados arqueológicos. Nem nos museus de arqueologia a gente faz mais exposições que se mostre só os objetos.  A gente busca compreender aquela sociedade no seu tempo”, explica.


Trilhos, ossada e louças são encontrados na Avenida Sete
O lado esquerdo da centenária Avenida Sete de Setembro, no Centro de Salvador, tem sido escavado de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h. O trabalho de prospecção arqueológica, que antecede as obras de requalificação no local, já mostram resultados. No final desta semana, o arqueólogo responsável pela pesquisa, Cláudio César Souza e Silva, anunciou os achados: trilhos de bondes, louças e até uma ossada humana.

"Encontramos também parte de estruturas, como essa argamassa vermelha, datada do século XVIII. Os trilhos são, com certeza, do século XIX", explicou o arqueólogo. As equipes vêm trabalhando na segunda etapa da obra, entre a as Mercês e o São Bento. A primeira fase, já concluída, foi da Casa D’Itália às Mercês. A terceira e última parte do trabalho será feita entre o São Bento e a Praça Castro Alves.

O material coletado será analisado por uma equipe de quatro arqueólogos e dois técnicos no laboratório de Arqueologia da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), no campus de Senhor do Bonfim, no Centro-Norte da Bahia.
Embora seja naturalmente um campo fértil à pesquisa do tipo, Salvador não possui cursos de Arqueologia – e vai na contramão do restante do Nordeste.

“Salvador tem uma potencialidade arqueológica incrível. Primeiro, porque é a primeira capital do Brasil e ela foi construída para ser a capital. Para além disso, Salvador tem pesquisas de que a Praça da Sé foi uma aldeia indígena anterior à chega dos portugueses”, afirma a arqueóloga Tainã Moura Alcântara, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Ufba.

Obras no Arquivo custam R$ 2,3 milhões, mas não incluem climatização. 
As obras de reforma do Arquivo Público do Estado da Bahia (Apeb) começaram em dezembro do ano passado. Além da construção de um anexo para funcionar como refeitório, depósito e sanitários – justamente no local onde foram encontrados os fragmentos –, também está prevista a reforma nas instalações elétrica e hidrossanitária, a instalação de um circuito fechado de TV, a pintura geral e a recuperação de todas as janelas, portas e reforma das esquadrias.

A climatização dos depósitos onde ficam os documentos e também das áreas técnicas, no entanto, não está inclusa no pacote, que tem previsão para ser entregue em nove meses, contados a partir de dezembro passado. De acordo com a diretora do Apeb, Maria Teresa Matos, a atual intervenção é considerada uma terceira etapa de obras no Arquivo, mas é necessário mais investimento.
 
“Novos investimentos estão sendo feitos e nós entendemos que são importantíssimos para a preservação do patrimônio, mas também fundamentais para a preservação do patrimônio arquivístico. Contudo, será necessário dar continuidade a outros investimentos e nós já estamos fazendo a gestão”, afirma.

Ao longo dos 39 anos em que o Apeb funciona na Quinta dos Padres – ou Quinta do Tanque –, houve tentativas de retirar a documentação de lá, justamente porque a umidade no local, onde já houve um tanque, não é propícia à preservação dos documentos.

O cuidado com o acervo é cobrado por pesquisadores: “É necessário um cuidado muito especial com a documentação, porque o local não é adequado e também tem a questão da prevenção de incêndios”, afirma o historiador Urano Andrade. O CORREIO encontrou extintores de incêndio no prédio, mas até que haja novos investimentos, a estratégia para manter os documentos será organizar as estantes de modo a aproveitar a ventilação natural.

Na atual etapa da obra também estão inclusas a iluminação externa, comunicação visual, restauração dos elementos arquitetônicos, restauração de bens artísticos móveis e integrados, além da recuperação de toda a estrutura e cobertura e das instalações mecânicas.

Em setembro do ano passado, o CORREIO mostrou a situação em que se encontrava o Apeb: além da parede descascada, havia fios soltos. Incêndios nunca foram registrados, mas de 2011 a 2013 o lugar, que recebe cerca de 500 pessoas por mês, funcionou sem energia elétrica, por conta do risco de curto-circuito.
ACESSE A FONTE: 

MEMÓRIAS DE UMA MERCADORA AFRICANA


Aquarela de Benguela feita na segunda metade do século 19.Arquivo Histórico Ultramarino



Mariana P. Candido
Departamento de História

Universidade de Notre Dame (EUA)

Dona Florinda Joanes Gaspar transitava entre os dois lados do Atlântico traficando cativos e registrando e vendendo terrenos em Benguela, na África, e no Rio de Janeiro.

A melhor parte do meu trabalho é passar horas lendo registros históricos na tentativa de reconstruir a história de africanas que residiam em Benguela, Angola, no litoral da África Ocidental, nos séculos 18 e 19. Surpreendentemente, há muita informação sobre as mulheres livres e de elite; no entanto, também há dados disponíveis nos arquivos angolanos e portugueses sobre libertas e escravizadas – dados que, muitas vezes, passam despercebidos entre mapas populacionais, registros eclesiásticos e correspondência oficial.

As donas, as mercadoras africanas, mulheres poderosas em seu tempo, têm certa preponderância nessa documentação. Entretanto, reconstruir suas vidas requer visitar arquivos em três países (Angola, Portugal e Brasil) e muita paciência para ler centenas de páginas que relatam guerras e apresentam fauna e flora. Em meio a leituras e viagens, percebi que havia localizado uma mercadora excepcional: Dona Florinda Joanes Gaspar. O ‘encontro’ não foi por acaso, mas fruto de horas, dias e meses de investigação, na qual a experiência de africanos é priorizada na pesquisa.
ACESSE: Ciência Hoje 

TRANSATLÂNTICO BASE DE DADOS DO COMÉRCIO DE ESCRAVOS




Este memorial digital levanta questões sobre o maior comércio de escravos da história e oferece acesso à documentação disponível para respondê-las. Os colonizadores europeus voltaram-se para a África para os trabalhadores escravizados para construir as cidades e extrair os recursos das Américas. Eles forçaram milhões de africanos, na sua maioria sem nome, a atravessar o Atlântico para as Américas, e de uma parte das Américas para outra. Analise esses negócios escravos e visualize mapas interativos, cronogramas e animações para ver a dispersão em ação.

O Banco de Dados do Tráfico de Escravos Transatlântico abrange quase 35.000 expedições negreiras ocorridas entre 1514 e 1866. Foram encontrados registros dessas viagens em arquivos e bibliotecas de todo o mundo atlântico. Eles fornecem informações sobre embarcações, povos escravizados, traficantes e proprietários de escravos, e rotas de comércio. A variável Fonte fornece os registros de cada viagem no banco de dados. Outras variáveis permitem aos usuários procurar informações sobre uma viagem específica ou um determinado conjunto de viagens. O website disponibiliza plena interatividade para analisar os dados e relatar os resultados na forma de quadros estatísticos, gráficos, mapas ou linha do tempo.
ACESSE: 
    

CONFERENCE, “ENSLAVED: PEOPLES OF THE HISTORIC SLAVE TRADE.”



Enslaved: Peoples of the Historic Slave Trade
Michigan State University, East Lansing, Michigan
RCAH Theatre (Snyder Hall, Terrace Level)
March 8-9, 2019


More than 50 scholars from around the globe will be in attendance when the Enslaved: Peoples of the Historic Slave Trade conference begins on March 8, 2019 at the RCAH Theater in Snyder-Phillips Hall at Michigan State University. A truly international event, the Enslaved conference brings together scholars based in the United States, Canada, Brazil, the United Kingdom, Benin, the Bahamas, and the Netherlands. The conference encourages collaboration among scholars utilizing databases to document and reconstruct the lives of individuals who were part of historic slave trades. This conference will focus primarily on the enslavement and trade of people of African descent before the twentieth century, but other presentations discuss enslaved indigenous peoples in the Americas. The conference has a broad geographic focus, including presentations on slavery in parts of the U.S., the Caribbean, Spanish, Portuguese, and Dutch parts of the Americas, several different regions of Africa, and Europe. The conference will take place from roughly 8:30-6:00 on both Friday, March 8, and Saturday March 9. A more detailed schedule can be found here.

With support from the Andrew W. Mellon Foundation, the Enslaved project is building a digital hub for students, researchers, and the general public to search over numerous databases to reconstruct the lives of individuals who were part of the historic slave trade. Current digital projects fail to merge the data across the datasets, resulting in isolated projects and databases that do little to aid scholars in analyzing these sources. The Enslaved conference will provide opportunities for researchers across the globe to gain important knowledge about the construction of databases for public consumption, and encourages collaboration between scholars to best make public accurate and easily accessed information about slavery and the slave trade.
If you’d like to register, please email enslavedconference@gmail.com. There is no fee.

ECAS 2019. Africa: Connections and Disruptions - Photo archives: silence and blindness



Long abstract
We will explore parallels in the relationship between an external reality and both archives and photographs. Both have little natural connection and/or directly reflecting external reality. Both show traces of their becoming but must be read beyond the frame of their materiality and the connections between order and meaning must be disentangled in order to gain and reveal significance. However, the archival order always contains several voids - deliberate and unintended - that are due to the process of the archives' emergence in changing contexts. Thus, various types of silences and blindness constitute the archive order. How can these silences be broken or made to resonate? What happens when we are no longer able to grasp them with the simplifying gaze of habit? How can connections and disruptions that emerge from archives' silences and blindness be used fruitfully by scholars working with and in photo archives?
Trouillot talks of archival silence, the Comaroffs of reading across and Stoler along the archival grain. The visual parallel to silence is blindness. How can research on photo archives find a white stick or an archival equivalent to braille? Those with macular degeneration must use peripheral vision, peeking sideways. What sort of archival research might this inspire?
This panel will examine various possibilities of working with photo archives that do not see empty (negative) spaces as a deficit, but on the contrary as an opportunity for alternative viewings of the archive, drawing productive power precisely from the contents, no matter how perceived.

CURSO INTRODUÇÃO A PALEOGRAFIA



IGHB está com inscrições abertas para o curso Introdução a Paleografia, que será realizado de 8 a 10 de abril de 2019, das 14h às 18h. As aulas serão ministradas pelos professores Libania Silva e Savio Queiroz.

Em decorrência da crescente demanda de cursos que exigem a pesquisa e leitura de documentos manuscritos, o curso propõe uma franca e objetiva abordagem interdisciplinar prática e metodológica sobre a escrita e leitura de documentos produzidos entre os séculos XVI e XIX, com enfoque nas practices da ciência histórica.
Carga horária: 20 horas (com certificação)

Conteúdo:
Introdução: História, Conceitos e usos da paleografia e da diplomática;
Escritas Antigas: Especificidades, especialidades e escrita;
Tipologias caligráficas: A escrita na Península Ibérica
O trato com os documentos manuscritos;
Elementos Cruciais: Identificação de abreviaturas, termos, símbolos e sinais gráficos: coleções.
Suportes diversos: fotocópias, microfilmes, imagens digitalizadas;
A transcrição do manuscrito: teorias e métodos;
Exercício de transcrição de textos 1: peculiaridades da escrita à mão, dos
suportes, instrumentos e tintas;
Exercício de transcrição de textos 2: leitura, transcrição e formatação dos documentos;
Exercício de transcrição de textos 3: os tipos documentais;


Dimensões da cultura associativa no “longo século XIX”: política, sociedade e trabalho


Coordenadores:
David Patrício Lacerda (Unicamp (Pós-doutorando/Bolsista da FAPESP)), Douglas Guimarães Leite (Universidade Federal Fluminense)
Resumo: Este Simpósio Temático dá continuidade aos diálogos realizados, em 2018, no âmbito do Seminário Internacional “Trabalho, democracia e direitos”, organizado pelo GT Mundos do Trabalho, e do Seminário Internacional “Brasil no século XIX”, realizado pela Sociedade Brasileira de Estudos do Oitocentos. Seu objetivo é promover um espaço de debate acerca das dimensões da cultura associativa no “longo século XIX”, especialmente no que diz respeito às estratégias e às práticas de ajuda mútua relacionadas ao mundo do trabalho. O eixo fundamental da proposta gira em torno da noção de cultura associativa, a saber, do hábito de associar-se, das normas, costumes, símbolos, linguagens e visões de mundo constitutivos da cultura das associações.
Busca-se reunir pesquisadoras e pesquisadores interessados em afinar diálogos teóricos e historiográficos, tendo em vista a reavaliação crítica da produção acadêmica sobre o tema nos últimos anos. Nesse sentido, incentivamos o envio de contribuições que problematizem: a) o reconhecimento do mutualismo como um espaço de organização política de trabalhadores subalternos, entendido tanto como alternativa de defesa social como lócus de ações de representação e resistência; b) a aproximação, no estudo do mutualismo, das experiências e identidades firmadas entre escravos, livres e libertos, brancos e de pele escura, nacionais e estrangeiros; c) a produção de análises que concebem e articulam distintas experiências de organização de trabalhadoras e trabalhadores em função das múltiplas temporalidades produzidas por um capitalismo de escala global; d) a atenção crítica às normas legais e à ação estatal, visando delimitar seu peso na conformação das práticas de ajuda mútua; e) o exame dos elos de continuidade e ruptura entre sociedades mutualistas e outras modalidades associativas conformadas em irmandades, montepios, sociedades recreativas, cooperativas, sindicatos etc.
A relevância da proposta reside, especialmente, na expectativa de construir uma nova agenda de pesquisa que aproxime, por um lado, trabalhos de qualidade marcadamente monográfica e, por outro, pesquisas nas quais resulta mais evidente uma preocupação de caráter estrutural. O diálogo entre tais orientações pode garantir atenção à formulação empírica de contextos integrados de investigação do problema, com ênfase nos tipos e nos resultados da circulação de pessoas, ideias e modelos de organização institucional em espaços/tempos de caráter global.
ACESSE: https://www.snh2019.anpuh.org/simposio/view?ID_SIMPOSIO=295

LANÇAMENTO: IMAGENS DO DAOMÉ


O fotógrafo francês Edmond Fortier (1862-1928) radicou-se ainda jovem no Senegal. Viajando pela África do Oeste, captou com suas lentes um mundo de grande riqueza cultural, que passava então por importantes transformações. Deixou uma obra de mais de quatro mil imagens, a maioria delas publicada no formato de cartão-postal.

Por duas vezes, em 1908 e 1909, ele visitou a possessão francesa do Daomé, o atual Benim. Os documentos visuais produzidos nessas oportunidades, cuidadosamente reunidos pela primeira vez, totalizam 210 imagens.

O olhar atento do fotógrafo gravou inúmeras vertentes da vida social, política e cultural na África ao tempo da dominação francesa. Imagens do Daomé: Edmond Fortier e o colonialismo francês na terra dos voduns, de Daniela Moreau e Luis Nicolau Parés, reúne registros das cerimônias oficiais, protagonizadas por mandatários locais e estrangeiros.

De todo o conjunto, destaca-se a série dedicada aos rituais voduns, uma das primeiras documentações fotográficas dessas práticas. A palavra vodum, em seu contexto original, designava os deuses das sociedades daquela região, ou “os mistérios das forças invisíveis”. 

Os panteões sagrados – do mar, do céu, da terra e do trovão, entre outras divindades –, com suas hierarquias e personagens, coreografias e adereços característicos, estão aqui detalhadamente identificados e analisados pelos autores.

Para o leitor brasileiro, o interesse dessas imagens é direto. Do Golfo do Benim e, a partir do século XVIII, do antigo reino do Daomé partiram para o Brasil milhares de escravizados, cuja devoção original aos voduns serviu de modelo ao nosso candomblé.

Edmond Fortier produziu um material de indiscutível valor histórico e etnográfico. Complexas e diversas, as práticas políticas, religiosas e culturais aqui documentadas abrem novas linhas de investigação sobre o Benim de ontem e de hoje, bem como sobre seus prolongamentos no Brasil.

DANIELA MOREAU nasceu no Rio de Janeiro, em 1957. Sobre a obra de Edmond Fortier, publicou também Viagem a Timbuktu (Literart, 2015). Coordena o projeto Acervo África (acervoafrica.org.br), em São Paulo.

LUIS NICOLAU PARÉS nasceu em Barcelona, em 1960. É autor de A formação do candomblé (editora da Unicamp, 2006) e O rei, o pai e a morte (Companhia das Letras, 2016). É professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia.


PRÊMIO MANOEL SALGADO – EDIÇÃO 2019: RESULTADO



Foram inscritas 18 teses. Todas as teses foram objeto de análise por dois pareceristas, que avaliaram a qualidade das teses dentro dos critérios do edital. A todos os colegas que contribuíram com suas análises e pareceres, a ANPUH-Brasil exprime seus cordiais agradecimentos.

Nossos agradecimentos vão também para a Editora da PUC-RS e para seu diretor, Prof. Luciano Aronne de Abreu, cuja parceria nos honra e nos permite promover a publicação da tese premiada.

a) Tese premiada:
Título: Viver honradamente de Ofícios: trabalhadores manuais livres, garantias e rendeiros em Mariana (1709-1750)
Ano: 2017
Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Juiz de Fora
Autor: Fabiano Gomes Da Silva
Orientadora: Carla Maria Carvalho de Almeida

b) Menção honrosa:
Título: Cassacos. Trabalhadores na lida contra a fome e a degradação nas obras públicas em tempos de secas. (Ceará, anos 1950)
Ano: 2016
Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal da Bahia
Autora: Lara Vanessa de Castro Ferreira
Orientador: Antonio Luigi Negro
Para um maiores informações sobre o prêmio clique aqui.



Freedom Narratives: Testimonies of West Africans from the Era of Slavery



Freedom Narratives focuses on the enforced migration of "Atlantic Africans," that is enslaved Africans in the Atlantic world during the era of the slave trade, through an examination of biographical accounts of individuals born in West Africa who were enslaved from the 16th to the 19th century. The focus is on testimony, the voices of individual Africans. The Project seeks to use an online digital repository of autobiographical testimonies and biographical data of Atlantic Africans to analyze patterns in the slave trade from West Africa, specifically in terms of where individuals came from, why they were enslaved, and what happened to them. Freedom Narratives focuses on people born in Africa and hence in most cases had been born free rather than on those who were born into slavery in the Americas or elsewhere. Those individuals in this repository includes those who travelled within West Africa as well as those who experienced the “Middle Passage,” i.e., the Atlantic crossing, which is often seen as a defining moment in the slavery experience. Sometimes these accounts are referred to as “slave narratives” but in our estimation, such testimonies more accurately reflect "freedom narratives" because in most cases, individuals were born free and subsequently regained their freedom. Freedom Narratives enables an examination of biographical testimonies as the fundamental units of analysis, whether the primary texts arise from first person memory or survive via amanuensis. Whenever possible, original testimonies are supplemented with biographical details culled from legal, ecclesiastical, and other types of records.


ARQUIVO DIGITAL REÚNE DOCUMENTOS DA ESCRAVIDÃO


FESTA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO' (1770), PINTURA DE CARLOS JULIÃO

A plataforma Slave Societies Digital Archive (Arquivo Digital das Sociedades Escravocratas, em tradução livre), desenvolvida na Universidade Vanderbilt, nos EUA, disponibiliza documentos sobre a história de povos africanos no período de escravidão nas Américas. Lançado em 2003 pela historiadora americana Jane Landers, o acervo reúne aproximadamente 600 mil arquivos dos séculos 16 ao 19 que documentam as vidas de cerca de 6 milhões de africanos escravizados e seus descendentes, além de indígenas, europeus e outros povos com quem eles interagiram no continente. Mapas, gravuras, livros, registros de vendas, transcrições de eventos e certidões de batismos, casamentos e execuções estão no acervo. Abastecido por pesquisadores e instituições de diferentes nacionalidades, os arquivos contam a história de países como Cuba, Estados Unidos, Colômbia e Brasil. No site também há documentos de Luanda e Ouidah, cidades africanas que mantiveram portos de onde negros embarcavam forçadamente ao outro lado do Atlântico.


Acesse a matéria na íntegra: NEXOJORNAL


Chamada de Trabalhos para o XVI Encontro Nacional da ABET


Está no ar a Chamada de Trabalhos para o XVI Encontro Nacional da ABET (Associação Brasileira de Estudos do Trabalho).
"A reforma trabalhista no Brasil e no mundo".
(O GT 15 é de História Social.)
Salvador, Bahia, 6 a 9 de setembro de 2019.
ACESSE: 
https://www.abet2019.sinteseeventos.com.br/conteudo/view?ID_CONTEUDO=411&fbclid=IwAR3GNCCdfIdosOlUh0Mmfvo7sI4m_5hTN8JexwhQcUdyJqwjE2CtCcm4Ooc

Documento de 1832 ganha certificação da Unesco após ser restaurado



A Bahia foi contemplada com a certificação do registro nacional do Programa Memória do Mundo, da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Intitulado de Relíquia da Irmandade Devoção de Nossa Senhora da Solidade dos Desvalidos, livro de termos do ano de 1832, o documento foi um dos 10 selecionados em uma candidatura.
Foram reunidos 29 proponentes com importantes acervos brasileiros, e este foi o único da Bahia incluído nesta seleta lista. O manuscrito certificado pertence à Associação Protetora dos Desvalidos, antiga Sociedade Protetora dos Desvalidos, uma instituição remanescente da Irmandade dos Desvalidos.
É uma ata que fala sobre o cotidiano de uma das primeiras Irmandades compostas apenas por negros, ex-escravos e com trabalho de ganho, em que o intuito era o auxílio mútuo entre seus irmãos. A ata foi produzida entre os anos 1832 e 1847, em tinta ferrogálica e em tinta orgânica, em papel avergoado. É um documento importantíssimo para a história da presença dos negros na cidade do Salvador no século XIX.
No início deste ano, este mesmo documento já havia sido contemplado pela Prince Claus Fund, de Amsterdam, em um edital para recuperação de acervos documentais relevantes e em vias de desaparecerem, também proposto pela Profa. Dra. Vanilda Salignac Mazzoni (Memória & Arte - ateliê de conservação e restauração de acervo em papel), que o restaurou com o financiamento da empresa europeia.
Após ser recuperado, foi submetido ao edital MOW – Memória do Mundo/Unesco, em uma parceria entre o SPD, representado pela presidente Lígia Margarida Gomes de Jesus; Vanilda Mazzoni (Memória & Arte), Fabiano Cataldo (UniRio), Maria Cláudia Santiago (FioCruz), com o apoio dos pesquisadores Prof. Dr. João Reis (UFBA), Prof. Dr. Jorge Augusto Alves (Uesb) e Prof. Me. Lucas Campos (Uneb).
A certificação e reconhecimento do documento enquanto patrimônio histórico mundial é importante em um momento em que se discute a guarda e o destino do acervo cultural brasileiro, que recebe pouca atenção por parte do governo, pois prêmio como este incentiva todas as instituições a preservarem seus acervos.
ACESSE NA ÍNTEGRA: JORNAL A TARDE


Acervo de documentos históricos da Santa Casa revela a vida dos escravos na Bahia


São mais de 1,8 mil livros históricos, incluindo testamentos e registros de entrada
Braz, Adão, Hermenegildo, Porcino, Estevão, Aprigio, João, Mizael, Joaquim, Adão, Ludgero, Manoel, José Pequeno, Tiburcio, Maria, Domingas, Theodolinda, Roza. No dia 9 de julho de 1887, todos esses – apenas parte dos escravos da dona de taverna Raimunda Porcina de Jesus -, foram libertos em Salvador. Em seu testamento, a mineira radicada na Bahia, morta aos 62 anos, deixava, para eles, pelo menos dez imóveis.
O ato de Raimunda Porcina – uma das figuras curiosas da história da Bahia, apontada como cozinheira e até como primeira empresária do ramo musical no país – veio antes mesmo da abolição da escravatura, decretada em 13 de maio do ano seguinte, com a Lei Áurea. O testamento dela é um dos documentos raros que estão no acervo da Santa Casa de
Misericórdia da Bahia, em Nazaré.
Ao todo, são mais de 1.850 livros que remetem à história da entidade, escritos entre 1629 e até o século XXI, além de mais de mil documentos avulsos. São documentos que revelam fatos históricos do estado e do país e que, como é consenso entre historiadores, ajudam a entender o presente. No mês da Consciência Negra, o CORREIO visitou o centro de memória e teve acesso aos arquivos, que revelam como era a condição dos negros nos primeiros séculos de Salvador.
Além de testamentos, há também documentos como o assinado pelo ex-provedor da Santa Casa Francisco José Godinho. Em 1858, ele deixou uma quantia destinada à instituição para que, a cada ano, a entidade lançasse um edital público para comprar a alforria de três crianças com idades de até três anos.

No ano seguinte, foram alforriadas a menina Estelita, de apenas 5 meses de idade, filha de Severina; Isabel, filha de Maria Emília da Costa, e Liberata, filha de Maria. Por cada uma das crianças, era pago o valor estipulado pelo senhor em questão – em geral, variava entre 100 mil e 200 mil réis. Todas as transações estão documentadas nos livros da Santa Casa.
A maioria está em sua forma original, mas mais de 20 mil páginas já estão digitalizadas (o que corresponde a três coleções).
“Essa documentação é preponderante para entender a formação da cidade e do própria estado”, diz a coordenadora do Centro de Memória da Santa Casa da Bahia, Rosana Santos.

ACESSE NA ÍNTEGRA: 
https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/acervo-de-documentos-historicos-da-santa-casa-revela-a-vida-dos-escravos-na-bahia/

REVISTA ACERVO: OS ARQUIVOS NA ERA DIGITAL


O artigo “Digitalização de jornais: uma reflexão sobre desafios e melhores práticas”, de Bruno Leal Pastor de Carvalho, debate criticamente a prática de digitalização de jornais, procurando destacar desafios, limites, análise de projetos e melhores práticas no campo.

OLHARES NEGROS COM O FOTÓGRAFO LÁZARO ROBERTO


Há quase trinta anos, sem que ninguém lhe peça ou lhe pague, Lázaro Roberto registra o cotidiano do povo negro da Bahia, em festas populares e manifestações de luta. Ele criou, ao lado dos também fotógrafos Raimundo Monteiro e Ademar Marques, o precioso Zumvi Arquivo Fotográfico, e quer agora digitalizá-lo. Em comemoração ao Dia da Consciência Negra, Muito conta esta história e traz fotografias icônicas do acervo, que tem cerca de 30 mil imagens. Em cada uma delas, memórias de quem somos.
Nas bancas, com o jornal A TARDE de domingo.
📷 Shirley Stolze / Ag. A Tarde | Reportagem: Bruna Castelo Branco | Design: Marcelo Campos
ACESSE E COLABORE: SALVE A MEMÓRIA DO POVO NEGRO

CHAMADA DE ARTIGOS DOSSIÊ HISTÓRIA E SUBÚRBIO



Ligada ao Programa de Pós-graduação em História da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da UNESP/Franca, a revista discente "História e Cultura" abre sua chamada de submissões para o dossiê "História e Subúrbio", organizado pelo Dr. Pedro Henrique Torres (PUC-Rio) e pela Dra. Cristiane Regina Miyasaka (Unicamp).

Os textos devem ser encaminhados exclusivamente através do site da revista: https://periodicos.franca.unesp.br/index.p…/historiaecultura

Proposta do dossiê:

Mais de duas décadas se passaram desde a publicação do trabalho clássico de José de Souza Martins (1992) sobre Subúrbio e ainda hoje os estudiosos que se dedicam à história dos subúrbios, quer de São Paulo, quer do Rio de Janeiro ou de outra cidade brasileira, ainda são raros e, portanto, se defrontam com a dificuldade de diálogo para pensar a respeito desse objeto de estudo. Tanto no âmbito da história urbana, como no da história social ou cultural, poucas são as pesquisas que buscam problematizar os subúrbios, a sua história e a de seus moradores, bem como as características de suas relações com as áreas urbanas contíguas.

Ainda que o tema tenha começado a despertar o interesse de alguns estudiosos recentemente, dentre eles os proponentes desse dossiê, os esforços ainda são esparsos e carecem de um espaço de debate. Organizar o presente dossiê corrobora com esse convite à reflexão feito por José de Souza Martins e proporciona um espaço profícuo de debate sobre a história dos subúrbios e suas potencialidades, que foram relegados a um papel marginal na história e também na historiografia. Tal iniciativa pioneira certamente oferecerá não só uma reflexão ampla e multifacetada sobre a questão, mas também reunirá em um único lugar os esforços dispersos daqueles que estudam a história dos subúrbios. Desse modo, contribuirá para que o tema ganhe visibilidade e possíveis novos interessados.
Assim, serão bem-vindas colaborações que abordem o debate historiográfico sobre o papel do subúrbio nas pesquisas históricas, tanto como estudos de casos suburbanos que, abrangendo o tema principal proposto neste dossiê, dialoguem para o desenvolvimento e a ampliação do debate acerca deste campo de estudo.

Em caso de dúvidas, entre em contato através do email: secretariahistoriaecultura@gmail.com