CULTURA DA RESISTÊNCIA

Frantz Fanon, uma voz dos oprimidos

A divisão dos homens entre opressores e oprimidos, a desumanização indígena e o condicionamento do negro pelo branco. Contribuições fundamentais na primeira metade do século passado, as questões debatidas pelo psiquiatra e intelectual negro continuam atuais.
Foi como um estrondo no céu do pós-guerra. Em 1952, aparecia Pele negra, máscaras brancas [1], uma “interpretação psicanalítica do problema negro”. A introdução proclamava: “É preciso libertar o homem de cor de si mesmo. Lentamente, porque há dois campos: o branco e o negro”.
Seu autor, Frantz Fanon (1925-1961), foi ao mesmo tempo psiquiatra, ensaísta e militante político ao lado da Frente de Libertação Nacional da Argélia (FLN), com a qual compartilhava a causa independentista
[
2]. Martinicano, faz parte do grupo de intelectuais negros cuja importância a França tem dificuldade em reconhecer, embora tratem de uma história comum a todos. anticolonialista radical, de escrita altamente literária e retórica, contribuiu para aclarar não só a história, mas também reflexões e debates contemporâneos. Preferem, no entanto, esquecê-lo sob o rótulo de “profeta fracassado [3]”.
A temática dos “dois campos” evocada por Fanon não é exclusivamente uma oposição entre essas duas cores de pele; inscrevem-se na antinomia “opressores” e “oprimidos”. Em sua visão, “uma sociedade é racista ou não é” e “o racismo colonial não difere de outros racismos”. Quando busca explicar uma ideia-força e mostrar o escândalo que representa, sua prosa poética e retórica se revela. além disso, para ele, a libertação dos indígenas passa pela recusa do mundo da interdição, pela afirmação do “eu” negado pelo colonizador, que os vê como uma massa disforme e serviçal: “o indígena é um ser aprisionado, o apartheid é apenas uma modalidade da compartimentação do mundo colonial. a primeira coisa que o indígena aprende é a manter-se em seu lugar, a não ultrapassar os limites. É por isso que seus sonhos são musculares, de ação, agressivos – Sonho que salto, nado, corro, escalo. Sonho que estou gargalhando, que atravesso o rio com um pulo, que sou perseguido por carros que nunca me alcançam. Durante a coloni- zação, o colonizado não pára de se libertar entre as nove horas da noite e as seis da manhã”. Em outros tempos, Paul Nizan escrevia: “Enquanto os homens não forem completos e livres, não caminharem por suas próprias pernas nas terras que lhes pertencem, sonharão à noite [
4]”. opressão burguesa em 1933, opressão colonial em 1952.
Um libelo apaixonado
Pele negra, máscaras brancas nos conduz ao universo atribuído ao negro que foi sistematicamente condicionado pelo branco. São páginas apaixonantes nas quais a herança – apesar das divergências – dos oradores da negritude e do texto “Orfeu Negro” [5], de Jean-Paul Sartre, se faz sentir por meio de encadeamentos lexicais metafóricos e analíticos do corpo, do olhar. Fanon examina o corpo, talvez por isso escreveu: “a primeira versão deste livro foi ditada, andando de um lado para outro como um orador que improvisa; o ritmo do corpo em movimento, o sopro da voz recitando o estilo [6]”. Porém, a realidade supera a metáfora: “No primeiro olhar branco, ele sentiu o peso de sua melanina”. Séculos de escravidão e colonização determinaram um olhar sobre o outro do qual é difícil para não dizer impossível, se despojar: “Quando me amam, dizem que é apesar da cor da minha pele. Quando me detestam, se justificam dizendo que não é pela cor da pele. Em uma ou outra situação, sou prisioneiro de um círculo infernal”.
O racismo se traduz também na designação do negro, submetido à conotação ancestral de sua cor, que se tornou evidência, quase essência: “O negro, o obscuro, as sombras, as trevas, a noite, as profundezas abissais, denegrir a reputação de alguém; e do outro lado: a mirada clara da inocência, a pomba branca da paz, a luz ofuscante, paradisíaca”. A linguagem não pode expurgar essas conotações, que aparecem também na religião: “O pecado é negro como a virtude é branca”. A análise não era nova naquele momento, mas, de uma obra à outra, Fanon foi mais longe. Seu último livro, Os condenados da terra (1961)
[
7], demonstra que a “compartimentação” da sociedade colonial e racista gera, obrigatoriamente, uma linguagem racista: “Por vezes, o maniqueísmo alcança o limite de sua lógica e desumaniza o colonizado”. Dito de outra forma, como denunciou Jean-Paul Sartre durante a guerra da Argélia [8], o sistema colonial cria um “sub-homem”.
Fanon prossegue: “Falando claramente, [o maniqueísmo] animaliza. Faz-se alusão aos movimentos arrastados durante o trabalho, ao cheiro que emana das vilas indígenas, às hordas, ao fedor, à reprodução desenfreada, às gesticulações. Demografia galopante, massas histéricas, rostos nos quais não há qualquer traço de humanidade, corpos obesos que não se parecem com nada, preguiça sob o sol, ritmo vegetal, todas essas expressões fazem parte do vocabulário colonial”. E vale mencionar que elas ainda não desapareceram totalmente de nossas latitudes, como lembra a canção Lebruit et e l’odeur [o barulho e o cheiro] (1995)
[
9], do grupo Zebda.
A “desumanização” do indígena justifica o tratamento ao qual é submetido: “Disciplinar, vestir, dominar e pacificar são as expressões mais utilizadas pelos colonialistas em territórios ocupados”. A guerra da Argélia nada mais é que a continuação paradoxal de um sistema que se baseia na “força” e no desprezo. Dessa forma, a introdução de L’an V de la révolution algérienne [O ano V da revolução argelina] (1959)
[
10] ressalta que desde o início da guerra, “[o colonialismo] francês não renunciou a nenhum radicalismo: nem o do terror, nem o da tortura”.
Calcularam mal: “as repressões, longe de sufocarem as revoltas, estimulam o progresso da consciência nacional”, analisa Fanon. “Se, de fato, minha vida tem o mesmo valor que a do colono, seu olhar não me fulmina mais, sua voz não mais me petrifica. Sua presença não me perturba mais. Na prática, sou eu quem o incomoda. Não só sua presença não me importuna mais, como já estou lhe preparando tantas emboscadas que logo ele não terá outra opção senão fugir”. Assim, a libertação psíquica induz à perda do medo, ao mergulho no combate pela independência.
A violência da palavra
Em que condições esse combate vai se desenrolar? Em Os condenados da terra postula que “a descolonização é sempre um fenômeno violento”. Isso por que violência chama violência e quando o opressor invade a menor parcela que seja de um território, é difícil manter-se aí pacificamente: “Cada estátua, a de Faidherbe ou Lyautey, de Bugeaud ou do Sargento Blandan, todos esses conquistadores que pousaram sobre o solo colonial não param de significar uma única coisa: ‘Estamos aqui pela força das baionetas...’”. É evidente a resposta dos oprimidos, considerada estrondosa quando se trata de outros países sob outros comandos. Fanon justifica a violência? Não em todos os movimentos: “Condenamos, com o coração aflito, esses irmãos que são jogados à ação com a brutalidade quase psicológica que faz nascer e mantém uma opressão secular”. Não obstante, Fanon nos convida à uma compreensão da gênese da violência e da única alternativa deixada aos oprimidos para sua libertação. Sua descrição da “compartimentação” da sociedade colonial, com sua “linha de partilha” e sua “fronteira indicada pelos quartéis e postos de polícia”, nos remete, aliás, ao nosso universo militarizado que, bem longe de “pacificar”, produz ele mesmo o “radicalismo” que pretende combater.
A perspicácia de Fanon vale também para sua análise sobre o futuro de um país descolonizado quando uma “burguesia nacional (in)autêntica” sobe ao poder e não fornece ao povo “capital intelectual e técnico”. Baseando-se no exemplo da América Latina, ele previne sobre o risco de transformação de um país em “território de prazeres a serviço da burguesia ocidental”. Disseca a propensão dessa burguesia “cinicamente burguesa” de romper a unidade nacional jogando com o “regionalismo”. E conclui: “Essa luta implacável à qual se entregam as etnias e tribos, essa preocupação agressiva de ocupar os postos livres pela partida do estrangeiro vão, igualmente, gerar competições religiosas. Assistiremos a confrontação entre as duas grandes religiões reveladas: o islamismo e o catolicismo”. Fanon alerta até para o perigo de um partido único, que utiliza o passado para “adormecer” o povo, “mandá-lo lembrar da época colonial e medir o imenso caminho percorrido”. Quantos países africanos nos vêm à cabeça?
Em reação à colonização, segundo ele, não se deve clamar por uma cultura negra como único horizonte. Se houve “obrigação histórica” para “os homens de cultura africana ‘racializar’ suas reivindicações, de falar antes em cultura africana que em cultura nacional”, por outro lado isso “vai conduzi-los a um beco sem saída”. Suas crenças foram lançadas desde sua primeira obra numa fórmula magnífica sobre a qual os adeptos do comunitarismo poderiam refletir: “Não quero cantar meu passado às custas do meu presente e futuro”. Tal afirmação, no entanto, não se fecha a uma reflexão sobre a história do colonialismo, a qual, como ele lembrava em 1952, se apoiou sobre a história da Europa. O colonialismo baseou-se em “valores” que precisam ser repensados: “Se é em nome da inteligência e da filosofia que proclamamos a igualdade dos homens, é também em seu nome que decidimos exterminá-los”.
Em 1961, a condenação de Fanon se amplificaria com uma veemência radical: “Abandonemos essa Europa que não para de falar no homem, ao mesmo tempo que o massacra onde quer que o encontre, em todos os cantos de suas ruas limpas, em todos os cantos do mundo”. Afrontemos de uma maneira salutar essa França que, ao mesmo tempo em que se liberava do nazismo e se reconstruía, massacrava Sétif (maio de 1945) ou Madagascar (março de 1947). Essa França que, no fim da batalha, virava as costas aos seus irmãos de combate senegaleses ou marroquinos que estavam na linha de frente. Escutemos essa voz que há mais de quarenta anos martela sua verdade incisiva, que poderia muito bem ainda ser a nossa: “Podemos fazer qualquer coisa hoje em dia sob a condição de não imitar a Europa, sob a condição de não sermos obcecados pelo desejo de alcançá-la. A Europa adquiriu tal velocidade, louca e desordenada, que escapa a todos os outros condutores, a toda razão, que segue numa vertigem assustadora em direção a abismos dos quais é melhor se distanciar rapidamente”.
Fanon sabe a qual Europa se refere, ele que soube homenagear os judeus da Argélia, os franceses daqui ou de lá que abraçaram a causa independentista. O gesto é universal: “Eu, o homem de cor, quero apenas uma coisa: que jamais o instrumento domine o homem. Que cesse para sempre a servidão de homem para homem. Quer dizer, de mim para outro.”



*Anne Mathieu é diretora da revista Aden-Paul Nizan , de Paris.
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[1] Peau noire masques blancs, Edições Seuil (Paris), com prefácio de Francis Jeanson, que redigiria também um posfácio para a reedição de 1965. A obra está disponível até hoje na coleção “Points Essais”.
[
2] Ele foi seu porta-voz a partir de junho de 1957. Desde 1953, foi médico-chefe do hospital psiquiátrico de Blida-Joinville (Argélia)
[
3] Ver o texto do ensaísta Lothar Baier (Agone, n°33, Marselha, abril de 2005).
[
4] Paul Nizan, Antoine Bloyé (1933), Grasset, Les Cahiers rouges [Cadernos vermelhos], Paris, 2005.
[
5] Jean-Paul Sartre, “orfeu Negro”, prefácio em: Léopold Sedar Senghor, Antologie de la poésie nègre et malgache [Antologia da poesia negra e malgaxe], Presses universitaires de France [imprensas universitárias da França], Paris, 1948.
[
6] Alice Cherki, Frantz Fanon, portrait [Frantz Fanon, um re trato], Seuil, 2000, p.46.
[
7] Publicado por François Maspero com um prefácio de Sartre; foi proibido desde o lançamento. Fanon, já sabendo que estava condenado pela leucemia, ditou cada página. Recebeu um exemplar do livro assim que foi impresso, três dias antes de morrer num hospital dos Estados Unidos. De acordo com sua vontade, foi enterrado num vilarejo argelino libertado próximo à fronteira com a Tunísia.
[
8] Jean-Paul Sartre et la guerre d’Algérie [Jean-Paul Sartre e a guerra da Argélia], Le Monde Diplomatique, novembro de 2004.
[
9] Inspirada em uma declaração de Jacques Chirac sobre o “barulho e cheiro” provocados pelos imigrantes.
[
10] Publicado por Maspero. Longos trechos do último capítulo foram publicados em Les Temps Modernes [os Tempos Modernos]. A obra foi acusada de atentar contra a segurança do Estado. Hoje, está disponível pela editora Découverte, na coleção “(re)Découverte” [(re)Descorberta]. A introdução, redigida em julho de 1959, não figurava na primeira edição.

Escola é dominada por preconceitos.

Onde há mais hostilidade, desempenho em avaliação é pior; deficientes e negros são principais vítimas.
O preconceito e a discriminação estão fortemente presentes entre estudantes, pais, professores, diretores e funcionários das escolas brasileiras. As que mais sofrem com esse tipo de manifestação são as pessoas com deficiência, principalmente mental, seguidas de negros e pardos. Além disso, pela primeira vez, foi comprovada uma correlação entre atitudes preconceituosas e o desempenho na Prova Brasil, mostrando que as notas são mais baixas onde há maior hostilidade ao corpo docente da escola.
Esses dados fazem parte de um estudo inédito realizado em 501 escolas com 18.599 estudantes, pais e mães, professores e funcionários da rede pública de todos os Estados do País. A principal conclusão foi de que 99,3% dos entrevistados têm algum tipo de preconceito e que mais de 80% gostariam de manter algum nível de distanciamento social de portadores de necessidades especiais, homossexuais, pobres e negros. Do total, 96,5% têm preconceito em relação a pessoas com deficiência e 94,2% na questão racial. "A pesquisa mostra que o preconceito não é isolado. A sociedade é preconceituosa, logo a escola também será. Esses preconceitos são tão amplos e profundos que quase caracterizam a nossa cultura", afirma o responsável pela pesquisa, o economista José Afonso Mazzon, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA). Ele fez o levantamento a pedido do Inep e da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, órgãos do Ministério da Educação (MEC).Segundo Daniel Ximenez, diretor de estudos e acompanhamento da secretaria, os resultados vão embasar projetos que possam combater preconceitos levados para a escola - e que ela não consegue desconstruir, acabando por alimentá-los. "É possível pensarmos em cursos específicos para a equipe escolar. Mas são ações que demoram para ter resultados efetivos."BULLYINGA pesquisa mostrou também que pelo menos 10% dos alunos relataram ter conhecimento de situações em que alunos, professores ou funcionários foram humilhados, agredidos ou acusados injustamente apenas por fazer parte de algum grupo social discriminado, ações conhecidas como bullying. A maior parte (19%) foi motivada pelo fato de o aluno ser negro. Em segundo lugar (18,2%) aparecem os pobres e depois a homossexualidade (17,4%). No caso dos professores, o bullying é mais associado ao fato de ser idoso (8,9%). Entre funcionários, o maior fator para ser vítima de algum tipo de violência - verbal ou física - é a pobreza (7,9%).Nas escolas onde as agressões são mais intensas, o desempenho na Prova Brasil é menor. "É lamentável e preocupante verificar que isso ocorre, mas os dados servem como alerta para que a escola possa refletir e agir para modificar esse cenário", diz Anna Helena Altenfelder, educadora do Cenpec. "As pessoas não são preconceituosas por natureza. O preconceito é construído nas relações sociais. Isso pode ser modificado."
(Click na imagem para visualizar)
ACESSE:http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090618/not_imp389064,0.php

VENDA DE ESPOSAS

Entre o final do século XVIII e o início do século XIX, na Inglaterra, véspera da primeira revolução industrial, ocorria um costume pouco noticiado pelos meios de comunicação da época, porque não era considerado digno de registro, a menos que alguma circunstância adicional (cômica, dramática, trágica, escandalosa) lhe conferisse interesse. Tratava-se de um costume inglês chamado "wives for Sales", em que o marido, por razões hedonistas ou econômicas, vendia suas esposas em uma praça do mercado principal da cidade.
Através de pesquisas feitas pelo imponente historiador E.P. Thompson, em seu livro "Costumes em comum", mostra uma realidade até então desconhecida do grande público.
A liturgia tinha que seguir determinadas regras, a primeira seria que a esposa deveria usar uma corda no pescoço ou na cintura. Na venda, a corda, às vezes, valia mais do que a mulher. O simbolismo da corda passou por uma evolução ao longo do tempo. Alguns dos primeiros relatos sugerem que de vez em quando o marido e o comprador chegavam primeiro a um acordo de venda (que poderia ser redigido num documento), e que só então, no dia ou na semana seguinte, a esposa era publicamente "entregue" ao comprador, presa por uma corda. Antes de ser realizado o leilão, a venda deveria ser anunciada, através de jornais ou utilizando um sineiro da cidade para dar a notícia. Como também, o marido podia andar pelo mercado carregando um cartaz com um aviso da pretendida venda. É registrado no livro um aviso que foi fixado em uma taberna na cidade de Devonhire (Inglaterra): AVISO – Este é para informar ao público que James Cole está disposto a vender sua mulher em leilão. Ela é uma mulher decente e limpa, com 25 anos. A venda deve ocorrer em New inn, na próxima quinta-feira, às sete horas.
Um velho e brincalhão negociante de porcos exclamou: “Olá, meu velho. O que se passa? O que vais fazer com a velha, afogá-la, enforcá-la, ou o quê?”. “Não, vou vendê-la”, foi a resposta. Houve um coro de risos. “Quem é ela?”, perguntou o negociante de porcos. “É a minha esposa”, respondeu o lavrador, sobriamente, “e uma das criaturas mais ordeiras, sérias, diligentes e trabalhadoras que já surgiu. É tão limpa e arrumada como uma flor, e é mão-fechada, faz qualquer coisa para poupar seis pence; mas tem uma língua e tanto, fica me incomodando da manhã até a meia-noite. Não tenho um momento de paz por causa da sua língua, por isso concordamos em nos separar, e ela concordou em partir com aquele que fizesse a oferta mais alta no mercado [...]” “Você está disposta a ser vendida, minha senhora?”, perguntou alguém. “Sim, estou”, ela respondeu mordazmente. “Então”, disse o homem, “quanto me dão por ela?” Fez-se uma pausa, então um velho tocador de vacas, com uma vara de freixo na mão, berrou: “Seis pence por ela!”. Segurando a corda numa das mãos e levantando a outra, o marido gritou no estilo estereotipado: “Está em seis pence, que dá um xelim?”. Houve outra pausa prolongada, então eu, um jovem vivaz [...], imprudentemente exclamei: “Um xelim!”. “Esta em um xelim. Ninguém dá mais?”, gritou o marido [...]. Os espectadores riram e caçoaram, um chegou a exclamar: “O lance é seu, meu jovem! Ela vai ser arrematada por ti!”. Eu suava de apreensão [...]. Com renovada seriedade, o vendedor gritou mais uma vez: “Quem dá dezoito pence, pois ela é uma excelente mulher que sabe assar uma fornada de pão ou fazer bolinhos como ninguém”. Para meu grande alívio, um homem bem arrumado e de ar respeitável fez a oferta, e o marido, batendo as mãos, exclamou: “Ela é sua, meu caro. Você ganhou a pechincha e uma boa mulher, em tudo a não ser a sua língua. Cuide bem dela”. O comprador pegou a ponta da corda depois de pagar os dezoito pence, e levou a mulher embora.

THOMPSON, E. P. Costumes em comum – estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p.318.

ACESSO AO CONHECIMENTO

O acesso a educação e ao conhecimento, aflige aqueles que tentam controlar a sociedade.

Tratando da importância do costume para formação da sociedade inglesa, Thompsom analisa na leitura de Bernard Mandeville, uma questão que é recorrente em nossa sociedade.

“Para que a sociedade seja feliz e o povo tranqüilo nas circunstancias mais adversas, é necessário que grande parte dele seja ignorante e pobre. O conhecimento não só amplia como multiplica nossos desejos [...] Portanto, o bem-estar e a felicidade de todo Estado ou Reino requerem que o conhecimento dos trabalhadores pobres fique confinado dentro dos limites de suas ocupações e jamais se estenda (em relação às coisas visíveis) além daquilo quê se relaciona com sua missão. Quanto mais um pastor, um arador ou qualquer outro camponês souber sobre o mundo e sobre o que é alheio ao seu trabalho e emprego, menos capaz será de suportar as fadigas e as dificuldades de sua vida com alegria e contentamento”.

Completa Thompsom: “Por isso, para Mandeville, o aprendizado da leitura, da escrita e da aritmética” “é muito pernicioso aos pobres”
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MANDEVILLE, Bernard. The fable of the bens (A fábula das abelhas). In: BIANCHI, Ana Maria. A pré-história da economia: de Maquiavel à Adam Smith. SP, Hucitec, 1988.
THOMPSON, E. P. Costumes em comum – estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998
UM EXEMPLO DE FÉ E DETERMINAÇÃO
A SER SEGUIDO ...
Em verdade, "Nada é empecilho quando se tem a convicção do que se quer, assim como tudo se torna um empecilho quando não se quer fazer algo." História de Sucesso O presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu o doutor da Universidade da Sorbonne e procurador do Ministério Público Federal Joaquim Benedito Barbosa Gomes, 48 anos, para ocupar uma vaga entre os Ministros do Supremo Tribunal Federal.
No dia 7 de maio de 2003, o abismo social brasileiro simbolicamente ficou um pouco menor. O jovem negro que cuidava da limpeza do Tribunal Regional Eleitoral de Brasília está prestes a chegar ao topo da carreira da Justiça após quatro décadas de vitórias contra desigualdades sociais e raciais.
A primeira foi em Paracatu, interior de Minas, onde nasceu numa família de sete irmãos, com a mãe dona-de-casa e o pai pedreiro e, mais tarde, dono de uma olaria.
Lá, percebeu que só o estudo poderia mudar a sua história.
Já aos 10 anos dividia o tempo entre o trabalho na microempresa da família e a escola. O saber era quase uma obsessão.
"Uma das piores lembranças da minha infância foi o ano em que fiquei longe da escola porque a diretora baixou uma norma cobrando mensalidade. No ano seguinte, a exigência caiu e voltei à sala de aula. Estudar era a minha vida e conhecer o mundo o meu sonho. Adorava aprender outras línguas".
O domínio de línguas estrangeiras foi a engrenagem para mobilidade social de Joaquim Barbosa.
Aos 16 anos, deixou a família e a infância em Minas e foi atrás de emprego e educação em Brasília. Dividia o tempo entre os bancos escolares e a faxina no TRE do Distrito Federal.
Um dia, o mineiro, na certeza da solidão, cantava uma canção em inglês enquanto limpava o banheiro do TRE. Naquele momento, um diretor do tribunal entrou e achou curioso uma pessoa da faxina ter fluência em outro idioma. A estranheza se transformou em admiração e, na prática, abriu caminho para outras funções.
Primeiro como contínuo e, mais tarde, como compositor de máquina off set da gráfica do Correio Brasiliense.
A conquista não sairia barato
"Lembro de uma chefe que me humilhava na frente dos companheiros de trabalho e questionava minha capacidade. No início, foi difícil, mas acabei me estabilizando no emprego e mostrando o quanto era profissional. A renda aumentou, mas ainda era pouca para ele e a família lá em Minas".
Foi trabalhar também no Jornal de Brasília acumulando dois empregos e jornada de 12 horas. Mais tarde, trocou os dois por um.
Foi para Gráfica do Senado trabalhar das 23h às 6h da manhã. Depois do trabalho, a Universidade de Brasília.
O único aluno negro do curso de direito da UnB tinha que brigar contra o sono e a intolerância.
"Havia um professor que, ao me ver cochilando, me tirava da sala".
Joaquim Barbosa continuava sonhando acordado. Prestou prova para oficial da chancelaria do Itamaraty e passou. Trocou o bem remunerado emprego do Senado por um, que pagava bem menos. Mas o novo trabalho tinha uma vantagem incalculável: poder viajar para a Europa.
Durante seis meses, conheceu países como Finlândia e Inglaterra.
De volta ao Brasil, prestou concurso para carreira diplomática. Foi aprovado em todas as etapas e ficou na entrevista: a única na qual a cor de sua pele era identificada.
Após esse episódio, a consciência racial de Joaquim Barbosa, que começou a ser desenhada na adolescência, ganhou contornos mais fortes.
Ganhou novas cores, quando, já como jurista do Serpro, conheceu o país, especialmente o Nordeste e, em particular, Salvador. Bahia foi uma paixão a primeira vista do mineiro.
Foi lá onde Joaquim Barbosa teve um contato maior com o que ele chama de "Negritude".
A percepção de ser minoria entre as elites ficou ainda mais nítida fora do país. O jurista explica que o sentimento de isolamento e solidão é muito forte num "ambiente branco" da Europa.
Ser uma exceção aqui e no além mar ficou ainda mais forte após o doutorado na Universidade de Sorbonne.
Nessa época já acumulava títulos pouco comuns para maioria das pessoas com a mesma cor de pele: Procurador do Ministério Público e professor universitário.
Antes, já tinha passado pela assessoria jurídica do Ministério da Saúde.
O exercício de vencer barreira, de alguma forma, está em sua tese de doutorado, publicada em francês.
O doutor explica que o seu objeto de estudo foi o direito público em diferentes países, como os EUA e a França.
"A minha intenção foi ultrapassar limites geográficos, políticos e culturais. Quero um conhecimento que vá além da fronteiras dos países".
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É autor das obras:
"La Cour Suprême dans le Système Politique Brésilien", publicada na França em 1994 pela Librairie Générale de Droit et de Jurisprudence (LGDJ), na coleção "Bibliothèque Constitutionnelle et de Science Politique"; "Ação Afirmativa & Princípio Constitucional da Igualdade. O Direito como Instrumento de Transformação Social. A Experiência dos EUA", publicado pela Editora Renovar, Rio de Janeiro, 2001; e de inúmeros artigos de doutrina.
Fez também estudos complementares de línguas estrangeiras no Brasil, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Áustria e na Alemanha.
O que mais????
Doutor e Mestre na arte de ensinar que não existem barreiras intransponíveis.
Olá Excelência, tenha um bom dia! Obrigado por existir.

Entrevista com Toyin Falola

A trajetória de um intelectual africano.
Entrevistadores:
Marcelo Bittencourt e Roquinaldo Ferreira

O senhor organizou uma coleção de livros na Universidade de Rochester, intitulada Africa and African Diaspora, e lançou recentemente uma coletânea de textos sobre a diáspora iorubá, juntamente com Matt Childs. Como o senhor encara o papel de africanistas não africanos – como Paul Lovejoy, Robin Law, Kristen Mann e outros – que têm procurado estabelecer uma ponte entre a história da África e os estudos da diáspora africana?
TF- O lugar dos africanistas não africanos no preenchimento das lacunas que separam a história da África dos estudos sobre a diáspora africana não pode ser superestimado. Entretanto, alguns deles -como os citados Robin Law, Paul Lovejoy e Kristen Mann -desempenharam importante papel no desenvolvimento da historiografia africana. Robin Law, foi assistente de pesquisa do falecido Professor Saburi Oladeni Biobaku, um dos pais-fundadores da Ibadan School of History, publicou sua tese de doutorado sobre o antigo império de Oió em 1977; Paul Lovejoy começou sua carreira como historiador econômico, com uma tese sobre o comércio de noz-de-cola, apresentada à Universidade de Wisconsin-Madison, em 1973. O mesmo se aplica a Kristen Mann, cujo estudo sobre casamento e mulheres em Lagos, no século XIX, teve significativo impacto na emergência de estudos de gênero. Estes acadêmicos viveram na Nigéria e voltaram para casa, após muitos anos de trabalho de campo na África, para criar novos cursos e áreas de especialização. Eles contribuíram muito, abrindo caminho para outros africanistas ocidentais que se interessaram pela África a partir de seus exemplos. Ao lado de sua pesquisa sobre os iorubás, Robin Law publicou estudos sobre a escravidão. Paul Lovejoy, depois de dois anos de pós-doutoramento, atuando como professor na Ahmadu Bello University, em Zaria, tornou-se a mais celebrada autoridade em estudos sobre tráfico de escravos e escravidão na África. Ele juntou esforços com outros acadêmicos, como J.D. Fage, Philip D. Curtin e J.E. Inikori para desenvolver e divulgar a história da diáspora africana. Com suas pesquisas estes acadêmicos forneceram uma consistente energia intelectual que trouxe a história da África e do hemisfério ocidental para mais próximoda realidade contemporânea.
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Professor catedrático na University of Texas, Austin, Estados Unidos.
Acesse texto na integra: http://www.casadasafricas.org.br/site/img/upload/525722.pdf


A África nos genes do povo brasileiro

Análise de DNA revela regiões que mais alimentaram o tráfico de escravos para o país . Ricardo Zorzetto*

Durante pouco mais de três séculos de tráfico negreiro o trecho da África Ocidental que vai do Senegal à Nigéria possivelmente forneceu muito mais escravos ao Brasil do que se imaginava. A proporção de homens e mulheres capturados nessa região e enviados à força para cá pode ter superado – e muito – os 10% do total estimado anos atrás pelos historiadores norte-americanos Herbert Klein e David Eltis, estudiosos do tráfico de escravos no Atlântico. Os argumentos que agora servem de suporte à revisão dos cálculos, em especial para o Sudeste do Brasil, não são apenas históricos, mas genéticos. Analisando a constituição genética de pessoas que vivem em três capitais brasileiras, os geneticistas Sérgio Danilo Pena e Maria Cátira Bortolini estão ajudando a resgatar parte dessa história ainda não de todo esclarecida sobre a origem dos quase 5 milhões de escravos africanos que chegaram aos portos de Rio de Janeiro, Salvador e Recife e contribuíram para a formação do povo brasileiro.
Em dois estudos recém-concluídos a equipe de Pena, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e a de Maria Cátira, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), compararam o padrão de alterações genéticas compartilhado por africanos e brasileiros. Desse modo, conseguiram estimar a participação de diferentes regiões africanas no envio de escravos para o Brasil, o último país da América Latina a eliminar a escravidão com a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888.
Os resultados confirmaram que foram três as regiões da África – a Oeste, a Centro-Oeste e a Sudeste – que mais exportaram mão-de-obra africana para o país até 1850, quando o ministro da Justiça do Império Eusébio de Queirós formulou uma lei tornando crime o tráfico de escravos. Até aí, nada muito novo, e a genética apenas corrobora as informações históricas a respeito de uma das situações mais cruéis a que um ser humano pode submeter outro. Já se sabia que o Brasil foi um dos poucos, se não o único, países das Américas a receber africanos de todas as origens.
A novidade é o envolvimento maior no tráfico negreiro da África Ocidental, também conhecida como Costa Oeste, região de onde vieram povos como os iorubás, os jejes e os malês, que exerceram forte influência social e cultural no Nordeste brasileiro, em especial na Bahia.
Durante os três séculos em que os portugueses controlaram o tráfico no Atlântico – o mais antigo, de mais longa duração e maior em termos numéricos –, a proporção de escravos embarcados no Oeste, no Centro-Oeste e no Sudeste da África oscilou bastante. Avaliando registros de viagem africanos, Herbert Klein, da Universidade de Colúmbia, e David Eltis, da Universidade Emory, calcularam que, no total, 10% dos escravos teriam vindo da região Oeste da África e 17% da Sudeste.
O principal fornecedor de escravos seria mesmo o Centro-Oeste, onde ficava a colônia portuguesa de Angola, que teria contribuído com 73% dos africanos enviados para o Brasil amontoados no porão de pequenos navios. “Os dados sobre o tráfico de escravos ainda são incompletos e os historiadores aceitam que a maior parte veio da região de Angola”, comenta Marina Mello Souza, da Universidade de São Paulo (USP), especialista em história africana.
Cientes de que os registros de viagem nem sempre refletem com precisão o passado, nos últimos tempos os historiadores passaram a recorrer também à genética na tentativa de compreender melhor o que de fato ocorreu. “Nossas estimativas anteriores se basearam em amostras parciais”, disse Klein à Pesquisa FAPESP.
“Estamos revendo essas projeções, com base no trabalho de geneticistas e na revisão dos dados de viagem que a equipe de David Eltis vem investigando na Universidade Emory.” E, nesse ponto, os trabalhos de Pena e Maria Cátira podem colaborar para esse reexame histórico. A análise do material genético compartilhado por brasileiros e africanos revelou que a proporção de escravos oriundos do Oeste da África – entre Senegal e Nigéria – pode ter sido de duas a quatro vezes maior que o contabilizado até o momento, bem mais próximo dos números exportados por Angola.

Origens e destinos


Superior à esperada, a contribuição do Oeste africano provavelmente não se distribuiu igualmente pelo país. Pena e sua aluna de doutorado Vanessa Gonçalves analisaram amostras de sangue de 120 paulistas que classificavam a si próprios e aos seus pais e avós como sendo pretos, seguindo a nomenclatura adotada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que agrupa os brasileiros em brancos, pretos e pardos – os movimentos de afrodescendentes em geral usam a palavra negro para se referir a pretos e pardos.
Quatro de cada dez pretos paulistas apresentavam material genético típico do Oeste africano. Essa proporção, no entanto, foi menor no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, segundo artigo da equipe da UFRGS a ser publicado no American Journal of Physical Anthropology. Dos 94 pretos cariocas testados por Maria Cátira e Tábita Hünemeier, 31% traziam no sangue a assinatura genética do Oeste africano, apresentada por apenas 18% dos 107 pretos gaúchos. Além de indicar origens e destinos, esses dados talvez expliquem a penetração heterogênea no país do candomblé, religião com importantes traços culturais iorubás e jejes.
Na busca pelas origens do povo brasileiro, não são apenas os historiadores que recorrem aos achados genéticos. Também os geneticistas precisam, por vezes, voltar aos livros de história, sociologia ou antropologia para compreender o que as características genéticas lhes mostram. Ao menos um fato histórico ajuda a entender por que a proporção de pretos com origem no Oeste africano é mais elevada em São Paulo do que a do Rio ou a de Porto Alegre. Nos séculos XVI e XVII, os africanos oriundos do Oeste chegaram aos portos de Salvador e Recife para em seguida serem vendidos aos proprietários dos engenhos de cana-de-açúcar do Nordeste.
Mais tarde, porém, a decadência da economia açucareira levou ao deslocamento da mão-de-obra escrava para as plantações de café que floresciam no estado de São Paulo. Antes dessa migração interna, entre o fim do século XVIII e o início do XIX, São Paulo já apresentava uma concentração de escravos do Oeste africano muito mais elevada que no restante do país. De acordo com Klein, as razões para essa diferença ainda não são completamente compreendidas, mas talvez possam ser parcialmente explicadas pela importação de mão-de-obra diretamente do Oeste africano.
Maria Cátira explica a proporção mais baixa de material genético típico do Oeste da África entre os pretos de Porto Alegre pelo fato de os escravos chegarem ao sul do país por via indireta: 80% da mão-de-obra africana do Rio Grande do Sul era proveniente do Rio de Janeiro, onde a presença de povos do Oeste africano era mais baixa que no Nordeste brasileiro. Ainda assim transparece na composição genética dos pretos brasileiros o tráfico mais intenso para o país de escravos de Angola, no Centro-Oeste africano. Uma proporção menor (12%), mas significativa, veio da região de Moçambique, no Sudeste, sobretudo depois que a Inglaterra passou a controlar mais rigidamente os portos de embarque na costa atlântica da África.

Presença feminina

A contribuição africana para a composição genética do brasileiro não foi desigual apenas do ponto de vista geográfico. Enquanto os homens africanos foram os braços e as pernas que movimentaram a economia açucareira do Nordeste, as mulheres exerceram um encanto especial, de cunho sexual, sobre os senhores de engenho de origem européia, como o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre registrou em 1933 em Casa-grande & senzala, ensaio clássico sobre a formação do país. Por essa razão, o preto brasileiro guarda hoje em seu material genético uma contribuição maior das mulheres do que dos homens africanos, embora o volume do tráfico masculino tenha sido maior.
Essa desigualdade, que os geneticistas chamam de assimetria sexual, torna-se evidente quando se comparam dois tipos de material genético. O primeiro é o DNA encontrado nas mitocôndrias, usinas de energia situadas na periferia das células. Transmitido pelas mães aos filhos de ambos os sexos, o chamado DNA mitocondrial permite conhecer a origem geográfica da linhagem materna de uma pessoa. O segundo tipo de material genético estudado é o cromossomo Y, que os pais passam apenas para seus filhos homens e serve como indicador da linhagem paterna.
A equipe de Pena constatou que 85% dos pretos de São Paulo tinham DNA mitocondrial africano, enquanto apenas 48% apresentavam cromossomo Y característico da África. De modo semelhante, o grupo coordenado por Maria Cátira viu que, em 90% dos pretos do Rio e em 79% dos de Porto Alegre, o material genético africano era de origem materna. Do lado paterno, só 56% do Rio e 36% de Porto Alegre tinham material genético paterno típico da África. “Esses números comprovam a história de exploração sexual das escravas pelos brancos”, comenta Pena, “uma história nada bela porque se baseava em relação de poder”.
Essa assimetria sexual confirmada pela genética já havia sido antes documentada e detalhada pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, no livro Raízes do Brasil, pelo antropólogo Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro, além de nos livros de Gilberto Freyre. Ela se tornou inconteste quando Pena e Maria Cátira começaram há cerca de dez anos, em trabalhos paralelos e complementares, a investigar a formação genética de brancos e pretos brasileiros com o auxílio do DNA mitocondrial e do cromossomo Y.
As primeiras evidências de que o brasileiro carregava em suas células o material genético de índios, africanos e europeus surgiram em abril de 2000, quando o país comemorou os cinco séculos da chegada do colonizador português a este lado do Atlântico ou os 500 anos do descobrimento do Brasil. Aproveitando a data oportuna, Pena publicou – primeiro na revista Ciência Hoje, de divulgação científica, e depois no periódico acadêmico American Journal of Human Genetics – o trabalho que chamou de “Retrato molecular do Brasil”. Nesse estudo com 200 brasileiros das regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul, o geneticista da UFMG constatou que, na realidade, 33% descendiam de índios por parte de mãe e 28% de africanos. Em outro estudo, publicado em 2001, mostrou que 98% dos brancos descendiam de europeus pelo lado paterno. Obviamente, a colaboração de índios e negros variava de acordo com a região do país.
Essa era a demonstração genética do que já se conhecia do ponto de vista histórico, sociológico e antropológico. Os primeiros grupos de colonizadores europeus que chegaram ao Brasil depois de 1500 eram formados quase exclusivamente por homens. Milhares de quilômetros distantes de casa, tiveram filhos com as índias. Mais tarde, com a chegada dos escravos durante o ciclo econômico da cana-de-açúcar, passaram a engravidar também as africanas.
A análise do material genético de pretos feita por Pena e Maria Cátira reforça esses resultados: 85% dos pretos brasileiros têm uma ancestral africana, mas os homens africanos estão representados em apenas 47% dos pretos – o restante tem ancestrais europeus em sua linhagem paterna. “É o outro lado da moeda”, diz Pena.

Retrato molecular

Mas o que o DNA mitocondrial e o cromossomo Y de fato revelam? Depende. São ferramentas genéticas fundamentais para determinar a composição de uma população porque são blocos de DNA que não se misturam com outros genes e passam inalterados de uma geração a outra. Mas esse material genético contém muito pouca informação sobre as características físicas de um indivíduo. Ter DNA mitocondrial africano, por exemplo, indica apenas que em algum momento do passado – recente ou não – houve uma mulher africana na linhagem materna daquela pessoa. É por isso que alguém com cabelos louros e olhos azuis pode ter entre suas ancestrais uma africana de pele escura, assim como um homem de pele escura e cabelos encaracolados pode ser descendente de europeus.
Na tentativa de detalhar essa razão, Pena decidiu investigar um terceiro tipo de material genético: o chamado DNA autossômico, que se encontra no núcleo de quase todas as células do corpo. Pena e Flavia Parra selecionaram dez trechos do DNA autossômico típicos da população africana e criaram uma escala chamada índice de ancestralidade africana: quanto mais desses trechos uma pessoa possui, mais próxima ela estaria de um africano. Em seguida, foram procurá-los na população brasileira. Os pesquisadores mineiros testaram esse índice em 173 homens brancos, pretos e pardos de Queixadinha, interior de Minas Gerais, e viram que, em média, os três grupos apresentavam proporções semelhantes de ancestralidade africana, que era intermediária entre a de um português do Porto, em Portugal, e a de um africano da ilha de São Tomé, na costa Oeste da África.
Em outro estudo, Pena e a bióloga Luciana Bastos-Rodrigues analisaram 40 outros trechos de DNA autossômico e descobriram que eles são suficientes para distinguir um indivíduo africano de outro europeu ou de indígena nativo das Américas. Ao comparar esses mesmos trechos de 88 brancos e 100 pretos brasileiros com os de africanos, europeus e indígenas, Pena e Luciana observaram altos níveis de mistura gênica: tanto os brancos como os pretos apresentavam características genéticas de europeus e de africanos. Essa mistura foi ainda mais evidente entre os pretos, que, segundo Pena, “resultam de um processo de intensa miscigenação”.
Com base nesses resultados obtidos em dez anos de investigação das características genéticas do brasileiro, Pena e Maria Cátira não têm dúvida em afirmar que, ao menos no caso brasileiro, não faz o menor sentido falar em raças, uma vez que a cor da pele, determinada por apenas 6 dos quase 30 mil genes humanos, não permite saber quem foram os ancestrais de uma pessoa.
O geneticista brasileiro Marcelo Nóbrega, da Universidade de Chicago, Estados Unidos, concorda, embora afirme que as diferenças genéticas entre populações de continentes distintos podem ser úteis na área médica – por indicar capacidades diferentes de metabolizar medicamentos – e usadas para definir raça. “Isso não significa que as raças sejam profundamente diferentes entre si nem superiores umas às outras”, diz. Para ele, o aumento da miscigenação nos últimos séculos erodiu as divisões entre esses grupos, como no caso brasileiro, e deve tornar obsoleto o conceito genético de raças.
Como já disse Gilberto Freyre em Casa-grande & senzala, “todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo – há muita gente de jenipapo ou mancha mongólica pelo Brasil –, a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro”.
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Colaborador desta postagem: Carlos Júnior.

MATRÍCULA ESPECIAL - PPGEduC - UNEB

EDITAL Nº 030/2009
ABERTURA DAS INSCRIÇÕES PARA A SELEÇÃO DE CANDIDATOS A MATRÍCULA ESPECIAL DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO E CONTEMPORANEIDADE - MESTRADO / DOUTORADO - SEMESTRE 2009.2
O REITOR DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA - UNEB.


No uso de suas atribuições e de acordo com o Art. 88 e respectivos parágrafos do Regimento do PPGEduC, comunica a abertura de inscrições para Seleção de Aluno Especial do Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade (PPGEduC) para preenchimento de vagas decorrentes da matrícula dos Alunos Regulares, até o máximo de 30 vagas/disciplina, conforme determinado neste Edital:

1. DISCIPLINAS:
Educação e Desigualdades;
Educação, História e Memória Social;
Currículo e Sociedade;
Formação do Educador;
Planejamento, Gestão e Avaliação da Educação;
Política Educacional Brasileira;
Tópicos Especiais em Educação: Educação e Fenomenologia;
Tópicos Especiais em Educação: Leituras em Antropologia e Educação;
Tópicos Especiais em Educação: Educação Ambiental e Gestão de Sociedades Sustentáveis;
Tópicos Especiais em Educação: Língua, Cultura e Escola;
Tópicos Especiais em Educação: Abordagem (Auto)biográfica e Formação de Professores;
Tópicos Especiais em Educação: Teoria dos Jogos Eletrônicos ;
Tópicos Especiais em Educação: Políticas Públicas e Tecnologias da Informação e Comunicação;
Tópicos Especiais em Educação: Educação e Movimentos Sociais;
Tópicos Especiais em Educação: Estado, Sociedade e Educação.

2. INSCRIÇÕES:
2.1 As inscrições serão realizadas de 15 a 19 de junho de 2009 das 08:00 às 12:00 e das 14:00 às 17:00hs, mediante entrega, em envelope lacrado, dos documentos relacionados no Item 3 deste Edital.
2.2 As inscrições deverão ser efetivadas no Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade – PPGEduC da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) – Pavilhão de Aulas da Pós-Graduação – 1º andar. Rua Silveira Martins, 2555 – Cabula, 41195-001 Salvador - Ba.
2.3 O Aluno Especial só poderá cursar um total de 02 (duas) disciplinas, considerados todos os semestres letivos e disciplina(s) porventura já cursada(s) no PPPGEduC/Uneb.

3.DOCUMENTAÇÃO PARA INSCRIÇÃO
3.1. Ficha de Inscrição, devidamente preenchida (disponível no sítio www.ppgeduc.uneb.br), contendo os seguintes anexos por disciplina:
3.1.1. cópia da carteira de identidade,
3.1.2. cópia do CPF,
3.1.3. cópia do diploma de graduação obtido em curso de duração plena, ou certificado de conclusão, ou declaração de conclusão do referido curso.
3.1.4. cópia do diploma de pós-graduação( Especialização e/ou Mestrado)
3.1.5. Curriculum Vitae/Lattes- CNPq, datado e assinado.
3.2. Comprovante de pagamento (original) da taxa de inscrição: no valor de R$60,00 (sessenta reais),Banco BRADESCO (237) - Agência 3673-0, Conta Corrente 36727-3; Favorecido: FAPES, ou cópia do contra-cheque do mês de maio de 2009, comprovando vínculo com a Uneb, para a dispensa de pagamento da taxa.

4. SELEÇÃO
4.1. O processo de seleção dar-se-á no período de 13 a 16 de julho de 2009, e será realizado por cada docente responsável pela disciplina. Neste período, o candidato deverá consultar periodicamente o sitio do PPGEduC - www.ppgeduc.uneb.br, a fim de obter maiores informações e verificação de chamadas.
4.2. Para efeito do processo seletivo, considerar-se-á a justificativa e a documentação apresentada pelo candidato, ficando a critério do professor a utilização de outro(s) instrumento(s) de avaliação conforme Parágrafo 2º do Art. 88 do Regimento do PPGEduC.

5. RESULTADO
O resultado será divulgado a partir do dia 21 de julho de 2009 através do sítio www.ppgeduc.uneb.br e no mural da Secretaria Acadêmica do PPGEduC, não sendo permitido prestar informação por telefone.

6. MATRÍCULA
6.1 Os selecionados deverão efetivar matrícula nos dias 05 e 06 de agosto de 2009, das 08:00h às 12:00h, na Secretaria Acadêmica/PPGEduC. A não observância dos prazos implicará no cancelamento da matrícula.
6.2 O semestre letivo terá início no dia 10 de agosto de 2009, conforme programação divulgada no sítio www.ppgeduc.uneb.br e mural da Secretaria Acadêmica do PPGEduC/Uneb.
7. O PPGEduC poderá abrir novo(s) processo(s) de seleção para Aluno Especial em razão da sua programação curricular.
8. Os documentos entregues para a seleção não serão devolvidos.
Este Edital reger-se-á pela Resolução Consu/Uneb nº 196/2002, publicada em Diário Oficial de 25/07/2002.
GABINETE DA REITORIA DA UNEB, 29 de maio de 2009
.
ACESSE: http://www.ppgeduc.uneb.br/
Lourisvaldo Valentim da Silva
Reitor

CRIANÇAS NO TRÁFICO


Pelo menos 775 mil crianças africanas foram escravizadas e levadas para o Brasil nos primeiros cinqüenta anos do século 19, em um período em que o tráfico negreiro atingiu o ápice de sua sofisticação, indicam dados cruzados a partir de novas informações sobre a era da escravidão.
Crianças foram ganhando a preferência dos traficantes porque, entre outros aspectos, eram mais "maleáveis" que adultos, indicam novas pesquisas publicadas duzentos anos após a lei britânica que proibiu o comércio de escravos.
No fim da era escravagista, um em cada três africanos escravizados era criança, nas estimativas do historiador David Eltis, da Universidade de Emory, em Atlanta, um dos maiores especialistas mundiais no tema.
Segundo Eltis, cerca de 12,5 milhões de escravos deixaram a costa da África entre 1500 e 1867, quando se tem registro do último carregamento. Em torno de 10 milhões chegaram aos seus destinos nas Américas.
Nos cálculos do pesquisador, dos 5,5 milhões de pessoas que tinham como destino o Brasil, apenas 4,9 milhões desembarcaram em portos brasileiros.
'Maleáveis'
Os dados de Eltis indicam que quase 2,3 milhões de escravos foram enviados ao Brasil entre 1800 e 1850 – destes, ele acredita que 775 mil eram crianças.
A alta proporção de menores de 15 anos entre os escravos já era conhecida dos pesquisadores – há estimativas que a colocam em até metade do total –, mas novos dados oferecem novas explicações para este fato.
Um estudo de caso publicado na última edição do Journal of Economic History pelos pesquisadores David Richardson, da Universidade britânica de Hull, e Simon Hogerzeil, do Centro Psicomédico Parnassia holandês, mostrou que crianças reagiam melhor à travessia que os adultos.
Richardson disse à BBC Brasil que, além disso, "no fim da era escrava havia uma percepção geral, por parte dos mercadores, de que as crianças eram mais maleáveis que os adultos, que poderiam ser treinadas em habilidades específicas".
Analisando 49 viagens de navios negreiros holandeses entre 1751 e 1797, os pesquisadores observaram que crianças eram compradas antes, porque reagiam melhor à experiência traumática.
Comparada à de um adulto, sua taxa de mortalidade era a metade, calcularam os pesquisadores.
Assim, uma criança tinha mais chance que um adulto de passar longos períodos – até um ano, no caso estudado – dentro de um navio negreiro, entre todas as fases do tráfico.
Antes que o navio zarpasse para a viagem transatlântica propriamente dita, uma criança passava em média quatro meses dentro da embarcação – um prazo mais de 40 dias superior ao passado por homens.
"Em outras palavras, as estratégias de compra dos mercadores expunham crianças a riscos por mais longos períodos de tempo que os adultos", disse Richardson.
Em uma viagem típica, os navios da Middelburgsche Commercie Compagnie, que operava no oeste africano, zarpariam com 253 escravos, perderiam 33 ao longo do trajeto e venderiam 220 nas Américas.
Sobrevivência
As observações dos pesquisadores não eliminam a validade de explicações levantadas anteriormente, que atribuíam a forte escravização de crianças à escassez de adultos em determinadas áreas da África.
Outra razão, levantada em entrevista à BBC Brasil pelo historiador Manolo Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, destaca que senhores brasileiros podem ter sentido necessidade de "importar" mais mulheres e crianças para garantir mão-de-obra futura caso o tráfico negreiro fosse proibido.
Richardson e Hogerzeil destacaram, no entanto, que as condições de aprisionamento dos homens adultos podem estar relacionadas às taxas de mortalidade menores de crianças.
Os homens, comprados aos poucos durante a "fase de carregamento" do navio, entravam em grande quantidade no final da etapa, a menos de um mês ou até a menos de uma semana da partida, verificaram os pesquisadores.
"As condições dos escravos no momento da embarcação é criticamente importante para determinar por que eles sucumbiam mais durante a travessia", diz o estudo.
"Isto pode estar associado a pressões sobre os capitães para levar homens adultos para satisfazer as expectativas dos compradores, o que os encorajava a ser menos rigorosos na seleção."
"Os homens também eram tipicamente vistos como instigadores de rebeliões dentro dos navios, e sofriam mais fatalidades durante esses incidentes."
"Além disso", justificam os pesquisadores, "os homens eram normalmente encarcerados em celas separadas de mulheres e crianças, e normalmente ficavam presos por ferros, sobretudo quando o navio ainda estava próximo da África".
* BBC- Colaborou Sílvia Salek, de Londres.
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DIREITO À TERRA


Lançamento do livro: Direito à terra no Brasil: a gestão do conflito - 1795-1824
Autora: Mácia Maria Mendes Motta
Data: 23 de Junho, terça-feira, às 18:30
Local: Companhia das Índias, Alameda Casa Editorial e Livraria Museu da República.
Rua do Catete, 153 - Palácio do Catete - RJ
Tel. 21-2556-2858

O TUTU DA BAHIA


Pode um sonho verdadeiro sumir da face da terra sem deixar vestígio? Então o que foi feito dos sonhos e idéias libertárias da velha Bahia após a derrota da Sabinada, no dia 16 de março de 1838? E, a partir daí, pelas próximas décadas, teríamos mesmo um período de pura conformidade, como pensou a historiografia tradicional? Eis, em síntese, os questionamentos iniciais, as perguntas básicas de pesquisa que deram origem a este surpreendente O tutu da Bahia; transição conservadora e formação da nação, 1838-1950.. Trabalho sério e meticuloso, porque o pesquisador, depois de levantar uma cuidadosa lista com mais de seiscentos nomes de pessoas que participaram de revoltas, inicia uma aventura intelectual detetivesca atrás de cada “suspeito”, como quem procura agulha em palheiro, para descobrir simplesmente o que foi feito dos velhos revolucionários e suas idéias, crenças e sonhos depois da derrota de 1838. E com isso, penetrar profundamente na mentalidade e no cotidiano do período. Onde todos víamos apenas paz e progresso relativos, o pesquisador enxergou conflito básico de idéias, movimento oculto, efervescência e vida.. Trata-se de uma pesquisa minuciosa e precisa, portanto, onde o historiador sai em busca não apenas dos chamados “grandes homens”, as lideranças mais conhecidas e visíveis, como o mulato (a expressão é da época) ou negro (a expressão é de hoje) Dr. Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira, mas busca também as sempre esquecidas lideranças intermediárias, homens e mulheres do povo comum da cidade de Salvador da Bahia. O resultado é uma pesquisa surpreendente e inovadora em seu propósito de estudar não os vencedores, mas os derrotados. E não apenas os momentos de pico da luta e resistência, mas no decorrer da vida, nos momentos de coerência e verdade existencial. Não os “grandes nomes” e “grandes momentos” da história, mas o povo comum e o cotidiano nosso de cada dia.. Não encontraremos, nas páginas que seguem, nem a idéia de constante pureza revolucionária, nem de calmaria paralisante. O que Dilton Araújo nos apresenta são trajetórias humanas reais, carne e sangue da história, com tudo de grande, frágil e duvidoso que pode comportar a existência humana. Um livro bem pensado e bem escrito; uma pesquisa nova e reveladora.
Lançamento do livro O Tutu da Bahia: transição conservadora e formação da nação 1830 – 1850, escrito por Dilton Oliveira de AraújoQuando: 09 de junho de 2009, terça-feira.Onde: Museu de Arte Sacra daUniversidade Federal da BahiaRua do Sodré, s/n. Centro.Tel: (71) 3243-6511Horário: Às 18 horas.

O BANQUETE SAGRADO - VILSON CAETANO


Lançamento do Livro “O BANQUETE SAGRADO”, de Vilson Caetano de Sousa Junior.

O Banquete Sagrado
Notas sobre os “de comer” em terreiros de candomblé
Quem são os convidados para o banquete?
Quais as comidas servidas? Aonde será arrumada a mesa?
Na cozinha, na sala, no terreiro? Onde comprar? Como fazer?
E porque fazer daquele modo e não de outro?
E o sagrado é profano? E o profano reitera o sagrado?
Responder a essas questões é a intenção de Vilson Caetano de Sousa Junior.
No rastro de trabalhos anteriores e outras publicações ele vem desvelando
um pouco dos usos e costumes da cultura afro-brasileira.
Lançamento do Livro
BIBLIOTECA PÚBLICA DO ESTADO DA BAHIA
Rua General Labatut 27 Barris
Contato 71 3116 6918
09 de JUNHO de 2009
19 horas
Apoio
FAPESB – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia

Brasil dominou tráfico de escravos no mundo


O mais completo banco de dados já organizado sobre o tráfico de escravos no mundo confirma que o Brasil e os portugueses tiveram um papel central no comércio negreiro durante séculos.
Organizado por historiadores da Universidade de Emory, em Atlanta, nos Estados Unidos, e de Hull, na Inglaterra, o banco de dados reúne quase 35 mil viagens de navios negreiros realizadas entre 1501, quando há registro da primeira leva de escravos, e 1867, quando o tráfico foi abolido. O site, a que a BBC Brasil teve acesso, será lançado junto com um volume de ensaios cuja previsão é chegar às livrarias em janeiro de 2008.
O banco de dados é uma volumosa atualização de um CD-Rom lançado em 1999 por Richardson e o historiador David Eltis, de Emory, que continha informações sobre 27 mil viagens de navios negreiros.




Hegemonia


Para pesquisadores brasileiros, a nova edição online é ainda mais importante porque o grosso das informações adicionadas no banco trata de expedições à América Latina, em especial ao Brasil.
Mais de 5,2 mil jornadas de navios brasileiros e portugueses foram mapeadas pela primeira vez. Levando em conta todas as nacionalidades, quase 20 mil viagens que já estavam incluídas na primeira edição ganharam novos dados.
Eltis e Richardson sublinham que os novos dados mostram uma hegemonia de portugueses e brasileiros no comércio de escravos "bem maior do que pensávamos há cinco anos".
Embarcações brasileiras e portuguesas carregaram quase 5,8 milhões de escravos, cerca de 95% deles para o Brasil. Navios britânicos, que o senso comum julga serem os mais ativos no comércio negreiro, levaram cerca de 3,1 milhões.
"Os ingleses, na verdade, não foram os maiores mercadores de escravos, como muitos supõem. Agora, parece que a dominância britânica do tráfico de escravos se resumiu a apenas oito de treze décadas entre 1681 e 1807, entre dois longos períodos de hegemonia brasileira e portuguesa em que a participação britânica foi trivial", escrevem os pesquisadores.

'Chutômetro'

Os novos dados conferem nova dimensão a fatos já conhecidos de historiadores brasileiros, como o de que o comércio de escravos era dominado por agentes baseados no Brasil e não em Portugal – ou seja, na colônia, e não na metrópole.
Estudos conduzidos pelo historiador da UFRJ Manolo Florentino mostraram que três quartos dos mercadores que controlavam o tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro entre 1790 e 1830 eram sediados no Brasil.
Outra informação que o banco de dados contesta é a de que um contingente igual ao dos mais de 10 milhões de escravos que chegaram às Américas morreu na travessia.
O mapeamento indica que 12,5 milhões deixaram a costa africana durante o período da escravatura, ou seja, o número de mortos ficaria em torno de 2,5 milhões.
"Estas estimativas foram feitas em uma época em que se trabalhava com o 'chutômetro'", diz Florentino. "O trabalho de Eltis e Richardson tem o mérito de criar uma padronização, e de aproximar da realidade as estatísticas."

Mar de informação

Usuários poderão examinar de onde saiu e onde chegou cada uma das embarcações, a duração da viagem, quantos escravos foram comprados e vendidos (e a que preço), a nacionalidade do navio e até o nome do capitão.
Na introdução da obra, a ser publicada pela imprensa da Universidade de Yale, os organizadores esperam oferecer subsídios para o que chamam "uma nova era de estudos sobre o comércio escravagista".
Os artigos, assinados inclusive por pesquisadores brasileiros, como o historiador Manolo Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, oferecerão uma primeira interpretação da mais completa base de dados sobre o tráfico negreiro disponível no mundo.
O professor David Richardson, da Universidade de Hull, explica que a idéia por trás do banco de dados é prover informações para que pesquisadores se debrucem sobre aspectos menos conhecidos do tráfico negreiro.
"Existe uma mudança em relação à pesquisa sobre o tráfico negreiro. Já temos o quadro geral de como a atividade funcionava, agora precisamos desconstruir essas viagens e analisar o que realmente acontecia nos navios", diz Richardson.
"O estudo do dia-a-dia do tráfico negreiro é que vai trazer seres humanos para dentro da História, fazer com que os escravos deixem de ser apenas números."
ACESSE:
http://www.slavevoyages.org/tast/index.faces

Chávez cancela programa "Alô Presidente"

O presidente de Venezuela, Hugo Chávez, cancelou a transmissão de seu programa de rádio e televisão "Alô Presidente", programado para este sábado (30), interrompendo a série de transmissões iniciada na quinta-feira (28).
Chávez, que havia anunciado uma verdadeira "telenovela de quatro dias" para celebrar o décimo aniversário do programa, transmitiu na quinta e na sexta-feira programas de aproximadamente seis horas cada.
Para o programa deste sábado havia sido convocado, de início, um debate entre o presidente Chávez e o escritor peruano Mario Vargas Llosa --crítico do governante venezuelano-- que, depois,
foi descartado pelo próprio mandatário.
"Posso ajudar moderando, mas o debate é entre intelectuais e eu sou simplesmente um presidente, um soldado", disse Chávez no "Alô Presidente" de ontem, ao ratificar que o diálogo deveria ser com os pensadores "revolucionários e socialistas".
Vargas Llosa, o ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda e o escritor Enrique Krauze, também mexicano, mostraram disposição em ir ao debate, mas com a condição de falar com Chávez e não com os intelectuais partidários do socialismo com os quais o presidente queria organizar o evento. Depois, o escritor peruano considerou que a proposta de Chávez "nunca foi séria".
Amanhã, Chávez deve transmitir seu programa da região de Guárico
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JORNAL DE RESENHAS

Em 2001, por ocasião do seu aniversario de 80 anos, o jornal Folha de São Paulo comemorava o fato de que chegava “a ter, com a publicação do caderno diário Ilustrada, do semanal Mais! e do mensal Jornal de Resenhas, cerca de cem páginas de jornal voltadas para a cultura em uma semana”. Bons tempos. De lá pra cá, o jornal cancelou a publicação do caderno de resenhas e diminuiu bastante o espaço dos cadernos culturais (Ilustrada e Mais!). O espaço dedicado aos lançamentos literários, ao debate crítico das publicações, ou mesmo para resenhas mais extensas, se tornou quase inexistente. Esta perda de visibilidade da resenha livresca não é um fenômeno exclusivo deste periódico paulistano. O Estadão, infelizmente, não realiza uma cobertura muito melhor. Até mesmo outras iniciativas editoriais, como a revista Entrelivros, não conseguiram prosperar. Como se sabe, a revista foi cancelada no final de 2007, tendo lançado 32 exemplares. Por tudo isso, é bastante louvável a iniciativa da Discurso Editorial em relançar o Jornal de Resenhas. O caderno agora é publicado sem nenhum vínculo com qualquer grande periódico (mas conta com o apoio do Ministério da Educação, da Caixa Econômica e da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), com uma tiragem elevada (75.000 exemplares), distribuído ao mercado universitário e vendido em bancas e livrarias (por um preço razoável, 3 reais). Dizem que a periodicidade é mensal, porém encontrei esses dias na livraria apenas o primeiro número, de março, por isso não estou certo disso. A publicação é uma iniciativa de um grupo de professores da FFLCH-USP e traz resenhas assinadas por professores da referida universidade, bem como das demais estaduais paulistas (UNICAMP e UNESP) e de federais. Os textos tratam de diversas áreas, no primeiro número há resenhas de livros de história (3), filosofia (3), economia (1), cinema (2), obras literárias (2) e crítica cultural (4), além de um ensaio, assinado por Sérgio Miceli, sobre a obra de juventude de Borges. Os artigos são breves, mas nada que se compare às micro-resenhas da imprensa diária, realizando com sucesso sua proposta de divulgação e debate do mercado de livros. Na falta de uma publicação de grande qualidade, o Jornal de Resenhas é uma iniciativa interessante e feliz, ocupando um espaço meio abandonado pelas demais publicações. Veremos que aparece nos próximos números...
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Colaborador desta postagem: João José Reis

NÃO IGNORE A HISTÓRIA!


O concurso As 7 maravilhas portuguesas no mundo ignora a história da escravidão e do tráfico atlântico. Não deixem isso acontecer.
Há mais ou menos vinte anos, vários países europeus, americanos e africanos vêm afirmando a memória dolorosa do comércio de africanos escravizados e valorizando o patrimônio que lhe é associado. Essa valorização se traduziu não somente na publicação de um grande número de obras historiográficas, mas também se expressou na realização de projetos como A Rota do Escravo iniciado pela UNESCO em 1994.
Apesar das dificuldades e das lutas políticas que envolveram aemergência da memória do passado escravista das nações europeias,americanas e africanas, de dez anos para cá a memória e a história docomércio atlântico passaram a fazer parte da memória pública de muitos países nos três continentes circundando o Atlântico. Em 2001, através da Lei Taubira, a França foi o primeiro país a reconhecer a escravidão e o tráfico atlântico como crimes contra a humanidade. Também na França, o 10 de Maio é doravante “dia nacional de comemoração dasmemórias do tráfico negreiro, da escravatura e das suas abolições”. Em 2001, em Durban na África do Sul, a Terceira Conferência da ONU contra o racismo inscreveu em suas declarações finais a escravidão como“crime contra a humanidade”. Em 1992, na Casa dos Escravos na Ilha de Gorée no Senegal, o Papa João Paulo II expressou suas desculpas pelo papel desempenhado pela Igreja Católica durante o tráfico atlântico.Bill Clinton, George W.Bush, e o próprio Presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, condenaram publicamente a participação passada de seus países no comércio atlântico de africanos escravizados. Em 2006, Michaelle Jean, governadora geral do Canadá, escolheu o Castelo de Elmina em Gana para denunciar o passado escravista. Em 2007, durante as comemorações do aniversário de duzentos anos da abolição do tráfico de escravos pela Inglaterra, foi a vez do ministro Tony Blair expressar publicamente seu profundo pesar pelo papel da Grã-Bretanhano comércio de africanos escravizados.
Em pleno ano de 2009, o governo de Portugal e instituições portuguesas como a Universidade de Coimbra, escolheram um caminho oposto ao descrito acima. No primeiro semestre desse ano essas instituições apoiaram a realização de um concurso para escolher as Sete Maravilhas Portuguesas no Mundo. Na lista das Sete Maravilhas a serem votadas pelo público na internet (
http://www.7maravilhas.sapo.pt/), constam não somente o Castelo São Jorge da Mina (Elmina), entreposto comercial fundado pelos portugueses em 1482, mas também a Cidade Velha (RibeiraGrande) na Ilha de Santiago em Cabo Verde, além de Luanda e da Ilha de Moçambique. Ao descrever esses sítios, a organização do concurso optou por omitir o uso desses lugares para o comércio de escravos. No texto descrevendo o Castelo São Jorge da Mina ou Elmina chegou-se ao cúmulo de afirmar que aquele local foi entreposto de escravos somente apartir da ocupação holandesa em 1637.
Para ser fiel à história e moralmente responsável, consideramos que a inclusão desses “monumentos” no dito concurso deveria ser acompanhada de informações completas sobre o papel deles no tráfico atlântico,assim como sobre seu uso atual. O Castelo de São Jorge da Mina ou Elmina, por exemplo, é hoje um museu que tenta retratar a história do tráfico. Trata-se de um lugar visitado por milhares de turistas de todo o mundo, entre os quais muitos representantes da diáspora africana que buscam ali prestar homenagem a seus ancestrais. O governo português, as instituições que apóiam o concurso e sua organização ignoraram a dor daqueles que tiveram seus antepassados deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos. Seria possível desvincular a arquitetura dessas construções do papel que elas tiveram no passado e que ainda têm no presente enquanto lugaresde memória da imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colônias européias ? Segundo as estimativas mais recentes (
http://www.slavevoyages.org/), Portugal e posteriormente sua ex-colônia, o Brasil, foram juntos responsáveis porquase a metade dos 12 milhões de cativos transportados através do Atlântico.
Em respeito à história e à memória dos milhões de vítimas do tráfico atlântico de escravos, viemos através desta carta aberta repudiar a omissão do papel que tiveram esses lugares no comércio atlântico de africanos escravizados. Convidamos todos aqueles que têm um compromisso com a pesquisa do tráfico atlântico de escravos e da escravidão a repudiar que essa história seja banalizada e apagada em prol da exaltação de um passado português glorioso expresso na suposta"beleza" arquitetural de tais sítios de morte e tragédia.

O Programa de Pós-graduação em História, juntamente com o Departamento de História, da Universidade Estadual de Maringá realizará no período de 09 a 11/09/2009 a quarta edição do Congresso Internacional de História. O objetivo do evento, realizado a cada dois anos, é integrar historiadores, professores, alunos de pós-graduação e de graduação dos mais diversos países, promovendo atividades e debates sobre o atual estado da arte da produção historiográfica. O prazo para envio de resumos vai até até 19 de julho de 2009 e as normas podem ser acessadas no seguinte endereço http://www.pph.uem.br/cih

CURSO: DIREITO À MEMÓRIA E À VERDADE


O projeto Direito à Memória e à Verdade da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República iniciou em 29 de agosto de 2006 com o objetivo de recuperar e divulgar o que aconteceu no período da ditadura no Brasil, 1964 – 1985. São registros de um passado marcado pela violência e por violações de direitos humanos. Disponibilizar esse conhecimento é fundamental para o País construir instrumentos eficazes e garantir que esse passado não se repita mais.
A partir deste projeto a Ágere Cooperação em Advocacy desenvolveu o curso Direito à Memória e à Verdade que será aplicado à distância via Internet, para professores da rede pública de ensino médio, buscando oferecer aos mesmos uma formação, com reflexão crítica e numa perspectiva dos direitos humanos, da história do Brasil durante a ditadura militar. Ao formar professores estaremos garantindo que as gerações atuais e futuras tenham o seu direito à memória e à verdade respeitado.
O curso oferece 3000 vagas e será gratuito para os participantes, pois conta com o apoio da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República.

SEMANA DA ÁFRICA

A III Semana da África acontece de 25 a 27 de maio de 2009, em Salvador.
As inscrições em mini-cursos e oficinas vão até segunda-feira, dia 25 demaio, através do endereço eletrônico <semanadaafrica@hotmail.com>
As inscrições de ouvintes serão feitas junto com o credenciamento doevento, dia 25 de maio, a partir das 17:00h, na Reitoria da UFBA.
Maiores informações no site <www.semanadaafrica.blogspot.com>.

REVISTA ÁFRICA E AFRICANIDADES


É com imenso prazer que comunico a publicação da 5ª edição da Revista África e Africanidades. Trata-se de um periódico online com publicação trimestral e acesso totalmente gratuito voltado para divulgação das temáticas africanas e afro-brasileiras. A Revista África e Africanidades é dividida em três partes: a primeira é destinada a publicação de artigos e resenhas acadêmicos; a segunda possui caráter informativo e de entretenimento, voltada para o publico em geral; e por último o Caderno África e Africanidades na Sala de Aula que tem por objetivo subsidiar a prática pedagógica e a formação continuada de docentes da educação básica bem como pesquisas escolares de alunos desse nível de formação. Entre os dias 15 de maio a 15 de julho de 2009 nossa equipe receberá e selecionará contribuições para publicação em nossa 6ª edição (agosto de 2009). Para participar veja regras e linhas temáticas em nosso site.
Acesse http://www.africaeafricanidades.com/
Atenciosamene,
Nágila Oliveira dos Santos
Diretora / Editora

EMPREGUINHO

Um sujeito vai visitar um amigo deputado federal e aproveita para lhe pedir um emprego para o seu filho que tinha acabado de completar o supletivo do 1º grau. - Eu tenho uma vaga de assessor, só que o salário não é muito bom... - Quanto doutor? - Pouco mais de 10 mil reais! - Dez Mil!!!!???? Mas é muito dinheiro para o garoto! Ele não vai saber o que fazer com tudo isso não, doutor!!!! Não tem uma vaguinha mais modesta? - Só se for para trabalhar na assembléia. Meio período e eles estão pagando só 7 mil! - Ainda é muito doutor! Isso vai acabar estragando o menino! - Bom, então tenho uma de consultor. Estão pagando 5 mil reais por mês, serve? - Isso tudo é muito ainda, doutor. O Senhor não tem um emprego que pagasse uns mil e quinhentos ou até dois mil reais??? - Ter eu até que tenho, mas aí é só por concurso e é para quem tem curso superior, pós-graduação ou mestrado, bons conhecimentos em informática, domínio da língua portuguesa, fluência em inglês e espanhol e conhecimentos gerais... além do mais, ele terá que COMPARECER AO TRABALHO TODOS OS DIAS....

LANÇAMENTO DE LIVRO


TRAFICANTES NO PODER



Ao chegar ao Brasil, o governo português soube utilizar o apoio dos homens mais ricos da Colônia: Os comerciantes de escravos. Da noite para o dia, o Rio de Janeiro foi elevado à condição de capital do império português. Mas à época já era um dos principais portos de uma rede comercial que conectava várias partes do mundo. A mercadoria que sustentava essa rede internacional eram os escravos.Com a chegada da Corte, o negócio só fez crescer. Durante os treze anos da permanência de D. João no Brasil (1808-1821), cerca de 250 mil escravos desembarcaram no Rio de Janeiro. Para se ter uma idéia do que isto significa, os Estados Unidos importaram da África, nos 250 anos de sua história escravista, perto de 400 mil escravos.Não é exagero afirmar que as principais riquezas movimentadas na sociedade brasileira dependiam das relações escravistas. Na cidade, a venda de utensílios de todo tipo, frutas e alimentos cozidos (as “quitandas”), além dos serviços, era feita por pequenos comerciantes varejistas. Neste comércio local, uma figura merece destaque: os escravos “de ganho”. Eles pagavam uma diária (chamada “jornal”) aos seus donos e ofereciam ofícios à crescente população urbana. O que o escravo “de ganho” lucrasse a mais, ficava para ele. O comércio entre as capitanias ficava a cargo de negociantes com maior volume de capital, por via marítima ou terrestre – neste caso, utilizando-se dos tropeiros. Montados em mulas, estes homens traziam farinhas, grãos, couro, carne e diversos outros produtos para o Rio de Janeiro, principalmente de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. E o comércio de longa distância, que ligava a cidade fluminense ao resto do mundo, cabia aos grandes negociantes. Tecidos da Índia, vinho, bacalhau e azeite europeus, prata e ouro sul-americanos e escravos africanos entravam e saíam no porto carioca diariamente.Todas estas modalidades de comércio tinham como elementos mais importantes os escravos, seja como agentes, seja como mercadoria. Eram eles que batiam de porta em porta vendendo alimentos. Era em troca deles que mineiros, paulistas e sulistas plantavam alimentos ou criavam gado para vender no Rio. Era atrás deles que os grandes negociantes atravessavam o oceano rumo à Costa da Mina, Congo ou Moçambique. Os panos da Índia comprados na Ásia não vestiam apenas as cortesãs européias: eram muito apreciados na África. A prata da América espanhola e o ouro mineiro serviam para comprar estes panos, que posteriormente eram trocados por cativos no continente africano.Os três tipos de comércio (local, regional e de longa distância) precisavam de investimentos distintos de capital. É nessa hora que surge a figura do grande negociante, presente em todas as transações. No topo deste grupo, figuravam os traficantes de escravos. O termo traficante não tinha o sentido de ilegalidade dos dias atuais — significava, no período colonial, negociante. No Rio de Janeiro estavam os maiores traficantes de escravos das Américas.Sua prosperidade ganhou impulso com a descoberta de ouro em Minas Gerais na década de 1690, que gerou uma grande demanda de recursos e mercadorias diversas – dos escravos às ferramentas. A partir da segunda metade do século XVIII, estes negociantes, estabelecidos nas proximidades do porto do Rio de Janeiro, dominaram o crédito, as instituições seguradoras, o tráfico de escravos, a importação e a exportação dos produtos. Eram os donos dos maiores navios, os responsáveis pela maior quantidade de viagens, e em 1790 constituíam a principal elite econômica do Brasil. Financiavam até mesmo a elite rural, através de empréstimos para a compra de escravos e manutenção dos caros engenhos.A carreira de um traficante podia ter vários pontos de partida. Normalmente, antes de se tornar um grande mercador, ele passava por ramos menores de comércio e aprendia que especulações e flutuações de preços, fenômenos naturais como calmarias e tempestades, interferiam nos lucros. Portanto, estaria sempre preocupado com prazos e não se concentraria em uma única atividade comercial.Isso explica por que os comerciantes de escravos eram responsáveis por grande quantidade de empregos diretos e indiretos, nos quatro continentes: na Europa, maquinários de última geração eram comprados para seus navios; na Ásia, famílias inteiras trabalhavam na produção e transporte dos tecidos que comercializavam; na África, chefes tribais e suas cortes adquiriam prestígio com os panos da Índia e diversos outros produtos. As sociedades africanas acabaram reorientando suas economias para encher de escravos os navios negreiros, e com isso intensificaram-se bens e serviços específicos para atender às demandas daquele comércio, como a venda de alimentos e bebidas, o funcionamento de presídios (praças-fortes portuguesas) e a manutenção de embarcações.Da mesma forma, o capital movimentado por esses homens no Rio de Janeiro era imenso. Deles dependia uma vasta cadeia de profissionais: pilotos para navegação; médicos e cirurgiões para cuidar dos escravos enfermos e enfraquecidos por semanas trancafiados nos “tumbeiros” (como também chamavam os navios negreiros); ferreiros, marceneiros e carpinteiros para cuidar dos maquinários, móveis e ferramentas de seus navios e escritórios; “línguas” (intérpretes) para facilitar a comunicação com cidadãos e escravos oriundos de terras distantes; caixeiros e advogados para ajudar nas questões contábeis e jurídicas; tanoeiros para fazer tonéis que guardavam comida e água da tripulação e dos prisioneiros (uma lei portuguesa de 1684 obrigava que se servisse 1,4 litro d’água e comida três vezes ao dia para cada escravo durante a travessia da África à América); marinheiros e soldados para a segurança e serviços que o navio exigia.Como se pode imaginar, as relações dos traficantes não se restringiam aos escravos e à gente comum. Quando D. João chegou ao Rio de Janeiro, encontrou esta elite de negociantes já credora das principais famílias da terra. Na cidade que se tornara residência real, boa parte das lojas, armazéns, casas térreas, sobrados e prédios urbanos pertenciam a eles. Isso sem contar os terrenos, sítios e fazendas que faziam parte do seu diversificado rol de investimentos. Num destes terrenos, em São Cristóvão, o traficante Elias Antônio construiu respeitável residência. O local era imenso e, para os padrões brasileiros, suntuoso.O Palácio da Boa Vista (depois Paço de São Cristóvão e atual sede do Museu Nacional), foi oferecido pelo comerciante a D. João. Seria uma residência bem mais apropriada ao monarca, que até então morava na sede do vice-reino do Brasil, atual Paço Imperial, na Praça XV. O príncipe-regente aceitou o mimo de bom grado. Um pouco afastado da corte, o palácio atendia a diversas funções de trabalho e lazer da casa real, recebendo transformações ao longo dos reinados de D. João, D. Pedro I e D. Pedro II.A doação do palácio a D. João demonstra a ligação da corte com a nata de comerciantes da cidade. Com negócios no Oriente, África e diversas regiões do Brasil, Elias Antônio Lopes estava entre os mais importantes mercadores do Rio de Janeiro. E esta não havia sido sua primeira doação à família real. Logo após o desembarque da comitiva lusitana, em 7 de março de 1808, D. João passou diversas listas de “subscrições voluntárias” para remediar as necessidades financeiras da corte. A primeira lista traz o nome de Lopes e de vários outros traficantes de escravos, como José Ignácio Vaz Vieira. Ambos, apesar de praticarem atividades nada enobrecedoras para o perfil aristocrático (que desprezava a atividade comercial), souberam se articular com a família real, a ponto de receberem o cobiçado hábito da Ordem de Cristo. Elias Antônio Lopes, que faleceu em 1815, viveu apenas sete anos ao lado de sua majestade, tempo suficiente para freqüentar a vida palaciana e receber favores reais como a nomeação de Fidalgo Cavaleiro da Casa Real e o título do Conselho de Sua Majestade.Tais comerciantes alimentaram a sociedade brasileira com escravos até 1850, quando o Império proibiu o tráfico negreiro. Mas durante décadas, desde a chegada da corte, eles alcançaram um novo status social, quando o governo português instalado no Brasil lançou mão, para o seu sustento, das fortunas destes negociantes, construídas através do tráfico de almas.

Rodrigo de Aguiar Amaral é doutorando em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professor na Pós-Graduação em História da África e do Brasil das Faculdades Integradas Simonsen e autor da dissertação Nos Limites da Escravidão urbana: A vida dos pequenos senhores de escravos na Urbes do Rio de Janeiro, c.1800-c.1860 (UFRJ, 2006).

Saiba mais:
CAVALCANTI, Nireu Oliveira. “O comércio de escravos no Rio setecentista”, in FLORENTINO, Manolo. (org.) Tráfico, Cativeiro e Liberdade. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2005.
FLORENTINO, Manolo. Em costas Negras: uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro: séculos XVIII e XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
FRAGOSO, João Luís Ribeiro. Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1992.
MALERBA, Jurandir. A Corte no exílio. Civilização e poder no Brasil as vésperas da independência (1808-1821). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
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Revista de Historia da Biblioteca Nacional -Postado por Eduardo Marculino