POUPAR PARA LIBERTAR, DUAS ALFORRIAS COM PECÚLIO DA CAIXA ECONÔMICA DA BAHIA


A mais de uma década venho tabulando cópias de cartas de alforrias registradas nos livros de notas custodiados no Arquivo Público do Estado da Bahia, com mais 27 mil cartas já tabuladas, entre 1800-1866. A cada inserção, dados e números sobressaltam a tela revelando histórias da vida de escravizados e escravizadas que das mais diversas formas investiram e conquistaram a tão sonhada liberdade, dentre elas o pecúlio em poupança na Caixa Econômica.

Delfina crioula de 24 anos, poupou seiscentos trinta e nove mil réis em duzentas e treze ações da Caixa Econômica da cidade de Salvador, somada a quantia de trezentos e sessenta e um mil réis em dinheiro, comprou sua alforria por um conto de réis, do senhor João Francisco Gonçalves. Já Guilherme de Nação Nagô, poupou trezentos e cinquenta e nove mil réis em dinheiro depositados na Caixa Econômica da cidade de Salvador. Guilherme também investiu na compra de um escravizado da mesma nação de nome Francisco, avaliado em trezentos mil réis, totalizando seiscentos e cinquenta mil réis que foram entregues a seu senhor Francisco José Ribeiro em troca da sua liberdade.

Delfina e Guilherme, cada um ao seu modo, e mais quase 30 mil escravizados e escravizadas, já tabulados no banco de dados, pouparam de diversas formas e investiram naquilo que lhes era mais caro: A tão sonhada liberdade, mesmo que precária, pois, uma linha muito tênue separava a escravidão da liberdade no período escravagista do Brasil, que durou 388 anos.

Que as 158 contas de cadernetas encontradas abertas por esses seres humanos, deixem de ser apenas números e se transforme em reparação e reconhecimento do legado nefasto da escravidão no Brasil.  

Para saber mais:

MPF cobra aprofundamento de medidas em acervo da Caixa sobre contas de escravizados no século XIX

Caixa identifica 158 cadernetas de poupança abertas por escravizados

Escravos-senhores na Bahia oitocentista – João José Reis

Sobre a Caixa Econômica da Bahia 


Liberdade do preto Guilherme Nação Nagô

Concedo a liberdade a meu Escravo Nação Nagô por receber dele a quantia de seiscentos e cinquenta mil réis, sendo trezentos e cinquenta e nove mil réis em dinheiro que o mesmo Guilherme tinha na Caixa Econômica desta Cidade e um escravo de nome Francisco de Nação Nagô no valor de trezentos mil réis, que ambas as quantias perfazem a acima declarada, e para que fique gozando de sua liberdade como se de ventre livre nascesse, digo, como se nascesse de ventre livre, lhe passei o presente título de minha letra e firma para sua clareza. Bahia, quinze de abril de mil oitocentos quarenta e sete. Francisco José Ribeiro, Número cento e cinquenta e oito. Estava o lugar do selo, cento e sessenta, pagou cento e sessenta réis. Bahia, dezesseis de abril de mil oitocentos quarenta e sete. Seixas Silva Rego. Ao Tabelião Rodrigues da Costa. Bahia, dezessete de abril de mil oitocentos quarenta e sete. Filgueiras. Reconheço a firma supra. Bahia dezessete de abril de mil oitocentos quarenta e sete. Em testemunho de verdade estava o sinal público, José Rodrigues Antunes da Costa. E trasladada da própria que conferi, concertei, subscrevi e assinei na Bahia em dezessete de abril de mil oitocentos quarenta e sete. Eu Joao Rodrigues Antunes da Costa Tabelião a subscrevi. Conferida por mim Tabelião. João Rodrigues Antunes da Costa.

FONTE: Arquivo Público do Estado da Bahia, Seção Judiciária, Livro de Notas Nº 283, página: 139v. 


Liberdade de Delfina crioula

Digo eu abaixo assinado que entre os mais bens que possuo, livre e desempregados, é bem assim uma escrava crioula de nome Delfina de idade de vinte e quatro anos, pouco mais ou menos, cuja escrava forro pelo preço e quantia de um conto de réis, que recebi da forma seguinte, a saber, a quantia de seiscentos trinta e nove mil réis em um conhecimento de duzentas e treze ações da Caixa Econômica desta cidade entrado em quatorze de julho do corrente ano, e trezentos e sessenta e um mil réis em dinheiro hoje, e poderá a dita gozar da sua liberdade de hoje para todo o sempre como se de ventre livre nascesse, e peço as justiças de Sua Majestade Imperial que cumpram e façam cumprir a presente carta de liberdade, se esta lhe faltar alguma cláusula ou cláusulas as dou por firme e valiosa como se delas fizesse especial menção. Bahia, vinte e um de dezembro de mil oitocentos cinquenta e oito. João Francisco Gonçalves. Como testemunha João Francisco Gonçalves Júnior, José Antonio Teixeira Lial. Número vinte um, cento e sessenta, pagou cento e sessenta réis. Bahia, vinte e um de dezembro de mil oitocentos cinquenta e oito. Ao Tabelião Rodrigues da Costa. Bahia, trinta de dezembro de mil oitocentos cinquenta e oito. Seixas. Reconheço as firmas supra. Bahia, trinta de dezembro de mil oitocentos cinquenta e oito. Sinal público. Em testemunho de verdade Felisberto Candido da Costa Macedo. Registrada, conferi e concertei na Bahia em supra. Eu Felisberto Candido da Costa Macedo. Tabelião.

FONTE: Arquivo Público do Estado da Bahia, Seção Judiciária, Livro de Notas Nº 342, página: 17v.