LANÇAMENTO: REVOLTAS ESCRAVAS NO BRASIL
REVOLTAS ESCRAVAS NO BRASIL
Org. João José Reis e Flávio dos Santos Gomes
Catorze
ensaios sobre as lutas da resistência escrava no Brasil analisam as maiores
insurreições contra o regime escravocrata e investigam suas causas, protagonistas
e consequências.
Reunião de ensaios que abordam os principais levantes
e conspirações que solaparam o regime escravagista, Revoltas escravas no
Brasil procura compreender as origens e anseios dos heroicos personagens
que arriscaram a vida para resistir à opressão.
Com ensaios de: Eduardo Spiller Pena, Flávio dos Santos Gomes, Iacy Maia Mata, Isadora Moura Mota, João José Reis, Luiz Geraldo Silva, Lara de Melo dos Santos, Luiz Felipe de Alencastro, Marcos Ferreira de Andrade, Maria Helena P. T. Machado, Mário Maestri, Paulo Roberto Staudt Moreira, Ricardo Pirola, Ricardo Tadeu Caires Silva, Thiara Bernardo Dutra e Yuko Miki.
JOÃO JOSÉ REIS é historiador e professor da UFBA. Dele, a Companhia das Letras publicou, entre outros, A morte é uma festa (1991), pelo qual recebeu os prêmios Jabuti (categoria ensaio) e Haring (melhor obra historiográfica latino-americana), Rebelião escrava no Brasil (2003) e Ganhadores (2019). Em 2017, pelo conjunto de sua obra, o autor ganhou o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras.
FLÁVIO
DOS SANTOS GOMES é historiador e professor da UFRJ. Escreveu, entre outros
livros, A hidra e os pântanos (2006) e O alufá Rufino (2011), com João José
Reis e Marcus J. M. de Carvalho. Organizou, com Lilia M. Schwarcz, o Dicionário
da escravidão e liberdade (2018) e a Enciclopédia negra (2021), que contou
também com a colaboração de Jaime Lauriano.
Revoltas escravas no Brasil, Vários autores; Organização João José Reis e Flávio dos
Santos Gomes
Número de páginas: 672
Preço: R$ 109,90 / e-book: 44,90
Lançamento: 17/09/21
Assessoria de comunicação
Grupo
Companhia das Letras
Mariana
Figueiredo – Tamiris Busato
Telefone:
(11) 3707-3513 / (21) 3993-7521
mariana.figueiredo@companhiadasletras.com.br
tamiris.busato@companhiadasletras.com.br
ALFORRIADA NO DENDÊ
Dentre o rol das alforrias condicionais encontramos as mais diversas exigências de senhores e senhoras para com seus escravos e escravas. Os alforriados por condição podiam servir aos seus senhores até morrerem, ou servir aos seus filhos; prestar serviços dos mais diversos como carregar cadeira, dentre outros. Para Thereza não foi diferente, ao ser alforriada seu senhor exigiu que quando ele retornasse à cidade de Salvador ela cozinhasse para ele. Thereza, conquistou sua alforria no dendê, e seu senhor não aguentou perder.
Carta de Liberdade [da preta] [Thereza]
Digo eu Joze Francisco da Silva [Porto] que entre os mais bens que possuo, que entre móveis como de raiz é bem assim uma Escrava de nome Thereza de nação do Gentil da Costa, cuja escrava a forro como se fosse livre de ventre, como eu e meus herdeiros, de hoje em diante e poderão procurar, ficando ela obrigada a todo tempo que eu tornar a esta Cidade vir para minha companhia, não como Cativa, se não para me cozinhar, não tornando se não será obrigada a filho meu. Por verdade lhe passei esta de minha letra e sinal. Bahia, cinco de novembro de mil oitocentos vinte três, Joze Francisco da Silva Porto. Como testemunha João Alvares Norte, João Joze da Silva, Tabelião Motta. Bahia, vinte quatro de setembro de mil oitocentos vinte três. Simões. Eu abaixo assinado firma do atesto e jurarei em Juízo, sendo necessário em como a letra do escrito acima é do próprio Joze Francisco da Silva Porto, assim como também a outra assinatura é do próprio João Alvares Norte, Caixeiro que foi do dito. Bahia, quatro de dezembro de mil oitocentos e vinte três. Joze Francisco da Silva Porto. Bahia, quatro de dezembro de mil oitocentos e vinte e três. Joaquim de Santa Ana. Nicerio. Reconheço a letre e firma dos abaixo assinados retro por próprias. Bahia, nove de dezembro de mil oitocentos e vinte e três. Estava o sinal público em testemunho de verdade. Francisco Teixeira de Mata Bacellar. E trasladada da própria que me foi apresentada a que me reporto, a entreguei ao dito abaixo assinou, e com ela e outro oficial de Justiça esta conferi, concertei, subscrevi e assinei. Bahia, 12 de dezembro de mil oitocentos e vinte e três e Eu Francisco Teixeira da Mata Bacellar, Tabelião a subscrevi e assinei.
Fonte: APEB, Seção Judiciária, Livro de Notas 209, página 235.
Brazil Culture Connections: Valorizar nossa religião com nosso acarajé
ACESSE: https://anchor.fm/brazilcultureconnections/episodes/Valorizar-nossa-religio-com-nosso-acaraj-e14k59i
APOIE NOSSO QUILOMBO FOTOGRÁFICO: ZUMVÍ!
Vamos
contribuir para a preservação da memória negra baiana com a montagem de uma
sede para Zumví Arquivo Afro Fotográfico.
O NEGÓCIO
Ao longo
dos 30 anos o Zumví vem registrando sistematicamente as manifestações do
movimento negro, e o cotidiano dos afrodescendentes em diversas temáticas e
contextos populares. Principalmente a memória do movimento negro baiano e entre
outros temas, compõem-se de um acervo com cerca de 30.000 negativos sobre a
cultura afro-baiana. Todo material se encontra armazenado na residência do
fotógrafo Lázaro Roberto, no bairro da Fazenda Grande do Retiro, infelizmente,
em precárias condições de armazenamento.
O acervo
vem recebendo outras colaborações, como a do poeta e militante Jonatas
Conceição da Silva, que doou todo seu acervo, composto de 1.618 fotogramas, em
P&B, e colorido, em 2006, pouco antes de seu falecimento, em 2009. O
fotógrafo Rogério Conceição, desde o ano de 2016, vem contribuindo com doações
de seu material fotográfico. Em 2020, o ZUMVÍ recebeu mais uma grande doação de
arquivos, no campo do audiovisual e do cinema Negro. Parte do acervo do
cineclubista e militante Luiz Orlando, falecido em 04/08/2006, foi doado pela
sua família. Tal acervo se encontra em dois meios: físico e digital. São dezenas de fotografias,
centenas de documentos, cartazes, xerox, cadernetas e etc. Com total de 8.273
laudas.
Em 2020,
buscando sustentabilidade, o Zumví começou um processo de organização para
venda de suas fotografias. Para 2021 houve um planejamento para potencializar
as vendas e organizar o acervo institucionalmente, infelizmente a Pandemia da
COVID-19, fez esse planejamento ser revisto e passamos realizar algumas vendas
on line, atualmente esse contato acontece por email. Neste momento estamos em processo de
construção de um e-commerce em nosso site (zumvi.com.br) para disponibilizar de
maneira mais organizadas fotografias e outros produtos. Entretanto, o plano de
organizar uma sede na qual possamos manter o acervo em boas condições de
armazenamento, ao mesmo tempo que se possa expor e vender produtos, e realizar
outras atividades de mobilização e articulação voltados à memória, precisou ser
adiado um pouco. Neste momento, estamos aqui em busca de mais esse objetivo, no
ajude a organizar nossa sede!
Como
medidas de proteção à Covid-19, reforçamos que a equipe do Zumví atualmente é
bastante reduzida e a montagem do espaço ocorrerá mantendo o limite estabelecido
pela prefeitura de pessoas em espaço fechado.
Sempre que possível o local ficará com janelas abertas para boa
circulação do ar, além do uso constante de máscaras, álcool em gel e
distanciamento entre as pessoas.
Com o
recurso arrecadado pretendemos montar e manter as despesas de nossa sede por 03
meses. Atualmente temos em caixa recursos que nos permitem unicamente manter o
aluguel de um pequeno espaço por alguns meses, precisamos complementar esse
valor para comprar equipamentos necessários à preservação dos fotogramas,
montar espaço de trabalho, como também expor as fotografias e outros produtos
do Zumví para venda. Assim, precisamos comprar, móveis, equipamentos, imprimir
algumas fotografias para expor no espaço, e pagar água, luz e internet por três
meses, tempo enquanto acumulamos capital de giro para manter nossas contas
pelos meses subsequentes.
Se
conseguirmos atingir a Meta 02 de R$35.000,00 poderemos adquirir uma mapoteca,
envelopes em cruz para tiras de negativos e contratar um consultor
especializado para capacitar os membros do Zumví para acelerar o processo de
higienização e digitalização dos fotogramas que estão sob a guarda do Zumví
atualmente.
Match-funding
é como uma vaquinha turbinada: uma nova modalidade de fomento, que mistura o
financiamento coletivo (ou crowd-funding) com aporte de parceiros, que
multiplicam a arrecadação. Para cada R$ 1 arrecadado pelos projetos
selecionados por intermédio da plataforma da Benfeitoria, o Fundo Colaborativo
Enfrente contribui com mais R$ 2, até que o valor de R$15.000 seja alcançado.
LANÇAMENTO: CATÁLOGO DIGITAL FOTOGRÁFICO ZUMVÍ
Hoje,
lançamos o nosso Catálogo Digital Fotográfico! Trata-se de um livro digital que
apresenta fotografias a partir da preservação e difusão do trabalho do Zumví,
que sempre concentrou seu olhar para as lutas sociais e a cultura do povo negro
baiano.
Convidamos
você a visualizar a reunião de 30 anos de memória de preservação do povo negro
baiano. Basta acessar https://www.zumvi.com.br/ e visualizar as diversificadas
e inéditas faces de Salvador e do Recôncavo Baiano.
O projeto
tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da
Fundação Pedro Calmon (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc,
direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo,
Governo Federal.
La Vai Verso: a Lavagem do Bonfim n’O Alabama (1863-1871)
La Vai Verso: a Lavagem do Bonfim n’O Alabama (1863-1871)
Seleção, comentários e notas
de Mariângela de Mattos Nogueira
O livro La Vai Verso: a Lavagem
do Bonfim n’O Alabama (1863-1871) reúne seis poemas publicados no jornal O
Alabama, que circulou durante quase três décadas na Bahia do século XIX. A
publicação, em formato digital de e-book, pode ser acessada na Biblioteca
Virtual Consuelo Pondé (http://200.187.16.144:8080/jspui/handle/bv2julho/1056).
De autoria de Mariângela de Mattos Nogueira, o projeto é um trabalho de
garimpagem e informação sobre um passado vibrante da Cidade da Bahia.
Os versos sempre bem humorados
servem como mostruário dos costumes e da cultura daquele momento e merecem ser
lidos para que não se esvaiam no vento do esquecimento e também porque são bons
de ler. Ali, está o retrato da Bahia em estrutura literária de versos em
redondilha e, também, quase como crônicas ou reportagens de acontecimentos.
O trabalho de seleção desses
dizeres tão baianos produz informações sobre as quadras repletas de humor e a
partir disso se sabe mais sobre a Bahia, passando-se por personagens, ruas e
situações. Aparecem também os nomes de pessoas que ficaram na história, porque
fizeram essa história, agora contada por Mariângela. Ao longo de toda a sua
escrita, a autora encontra fundamento para o que é dito em cada estrofe,
tecendo a contextualização que ajuda a colocar o leitor na cena e
possibilitando que as coisas tenham nexo histórico, social, cultural.
Então, com uma escrita saborosa e
precisa, bem construída, Mariângela Nogueira retoma os poemas e faz com que
seus versos transportem o leitor para o que era o trajeto para o Bonfim, com
todas as pândegas a que tinham direito os que acompanhavam o cortejo. É como se
o leitor pudesse fazer parte do evento porque os poemas e os detalhes que os
acompanham no livro são dispostos de modo complementar e descritivo do momento,
seus hábitos e costumes.
Tecnicamente, o e-book tem 96 páginas.
E, afetivamente, em uma cidade que em muitos cantos se desmancha por falta de
uma atenção à sua memória, a proposta de fazer circular O Alabama mais uma vez,
e mais especificamente a coluna Lá Vae Verso, é um respiro especialmente por
ser a leitura muito passível de fruição. Lá Vae Verso vai pelo caminho que leva
ao Bonfim.
O projeto tem apoio financeiro do
Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do
Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela
Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal
REVISTA AFRO-ÁSIA 63
Sumário
Expediente
Artigos
Tecendo redes imperiais: uma
dimensão asiática do comércio britânico de escravos no Atlântico no século
XVIII
Kazuo Kobayashi
A importância do café para São
Tomé e Príncipe frente à proibição do comércio de escravizados pela Inglaterra
Alan de Carvalho Souza
Catarina Juliana e sua sociedade
de culto: rituais e práticas religiosas na Angola setecentista
Daniel Precioso
“Com duas gejas em cada uma das
fontes”: escarificações e o processo de tradução visual da diáspora jeje em
Minas Gerais durante o século XVIII
Aldair Rodrigues
A escravidão e o acesso à terra
nas concepções de Luís Antônio de Oliveira Mendes (1792-1821)
Magnus Roberto de Mello Pereira
"Por sua liberdade me
oferece uma escrava": alforrias por substituição na Bahia, 1800-1850
João José Reis
Cruzando caminhos em Ibicaba:
escravizados, imigrantes suíços e abolicionismo durante a Revolta dos Parceiros
(São Paulo, 1856-1857)
Isadora Moura Mota
Inventar uma Sunnah: o Estado Islâmico, salafismo e inovação
Gilvan Figueiredo Gomes, Gilvana
de Fátima Figueiredo Gomes
Diversidade sexual e de gênero,
Estado nacional e paisagens heterotópicas no Irã: Foucault e depois
Fabiano Gontijo
Em busca da "redenção de
Cam": racialidade e interseccionalidade numa prisão de mulheres
Wallesandra Souza Rodrigues,
Alessandra Teixeira
Tarzan, um negro: para uma
crítica da economia política do nome de “África”
Marcelo R. S. Ribeiro
Epistemologias para
convivialidade ou Zumbificação
Fernando Baldraia
Biblioteca de Clássicos
Para além da sociologia e da
antropologia sociocultural: sobre o lugar do mundo não ocidental em uma teoria
social futura
Shalini Randeria, apresentação e
tradução de Ricardo Pagliuso Regatieri
Resenhas
A modernidade da escravidão e o
capitalismo norte-americano
Henrique Espada Lima
Negritude: uma identidade legal
em consequência da liberdade
Luciana da Cruz Brito
Liberdade negada
Paulo Roberto Staudt Moreira
Belém, cidade negra na Amazônia
Matthias Röhrig Assunção
O posto de honra de Luiz Gama
Wlamyra Albuquerque
"Nossa história é outra como
é outra nossa problemática": Beatriz Nascimento por sua obra
Lucilene Reginaldo
Campos de batalha intelectual e
novos paradigmas do pensamento africano
Leila Leite Hernandez
Testemunhos e reflexões para a
compreensão de Timor-Leste
Jorge Bayona
Aprendendo a dançar
Carlos Sandroni
Narrativas étnicas confluentes em
literaturas das Américas
Licia Soares de Souza
Debate sobre a resenha de
"Não somos bandidos"
Michel Cahen, Juvenal de Carvalho
ACESSE NA ÍNTEGRA:
https://periodicos.ufba.br/index.php/afroasia/issue/view/2182/showToc
GRACINDA, LIBERTA E SOLTA NOS BATUQUES DA BAHIA!
Ao alforriar
sua escrava Gracinda José Luiz Bananeira acreditava que ela o serviria
fielmente até a sua morte, ledo engano, o som do batuque da Bahia falou mais
alto. Já liberta, mesmo sob condição, Gracinda não pensou duas vezes e partiu
para o samba! Não era a primeira vez que um escravo do mesmo senhor buscava o
caminho da liberdade. Em 1848 um seu escravo havia fugido e foi colocado prêmio
de cinquenta réis pela sua captura, Juvêncio fugira no barco de Albino Luiz
Boa-Morte em 6 de setembro do ano anterior, Juvêncio era exímio marinheiro,
carapina e marceneiro; com tantas habilidades não ficaria sem serviço Bahia a
fora. Gracinda também não se deixou prender pela alforria condicional, seguiu o
caminho da liberdade e, segundo relato do Bananeira, encontrou na Ilha de Itaparica,
na localidade do Jaburu se refúgio e diversão. Bananeira, um senhor octogenário,
viria a morrer quatro anos depois, como noticiou o Monitor: José Luiz Bananeira,
branco, viúvo, 82 anos, moléstia interna. Gracinda seguiu batucando e sambando
no Jaburu.
José Luiz Bananeira tendo uma cria de nome Gracinda, crioula, que libertou sob condição de acompanhá-lo e servi-lo enquanto vivo for fosse, acha-se ela fugida do poder do Suplicante à seis anos, dando-se à relaxação e depravação dos batuques, sem fazer caso algum do estado valetudinário na idade octogenária dele Suplicante, caído na maior indigência e sem ter quem o sirva, pois a mesma crioula é a única que tem semelhante obrigação dentre os demais aos escravos libertos gratuitamente em número de onze.
Em tão triste situação vem implorar de Vossa Excelência a necessária providência para a captura da referida crioula Gracinda e do seu ocultador (que com ela mora à Rua Nova do Queimado e costuma leva-la para os batuques do Jaburu no Mar Grande) este afim de ser compelido ao pagamento dos dias de serviço, e aquela empregar-se na faxina da Cadeia de Santo Antônio, onde ficará à Ordem de Vossa Excelência até que corrigida possa ser alugada a alguém, visto não querer prestar os devidos serviços ao Suplicante. Dignando-se Vossa Excelência de ordenar por ofício ao Subdelegado do 1º Distrito de Santo Antônio, que faça efetiva a prisão de ambos, e proferindo o seu respeitável Despacho nesta súplica para qualquer Inspetor de Quarteirão, Guarda Nacional ou Policial também poderem prende-los agenciada a diligência pelo próprio Suplicante que submissamente. Pede a Vossa Excelência na forma implorada. E.R.M. Bahia, Abril de 1872. José Luiz Bananeira.
Documento
encontrado por Lisa Earl Castillo, a quem agradeço pela contribuição para a postagem.
Fonte:
Arquivo Público do Estado da Bahia, Seção de Arquivos Colonial/Provincial,
Série Polícia, Maço: 6337.
O Monitor
(BA) - 1876 a 1881
Correio
Mercantil : Jornal Politico, Commercial e Litterario (BA) - 1836 a 1849.
UM PRÍNCIPE AFRICANO EM BUSCA DE UMA ESPOSA NA BAHIA DO SÉCULO XVIII
Em cumprimento das Ordens que Vossa Excelência foi servido participa-lhe, examinei do modo possível as disposições em que se acha o Príncipe Africano para receber o Batismo e que da resulta deste mesmo exame informei o Eminentíssimo Cardeal Patriarca, como Vossa Excelência me ordenara; e informei-o por escrito para ele melhor ponderar as provas que puder descobrir, e para a vista delas resolver o que julgasse, mas justo e acertado. Resta me informar também a Vossa Excelência de algumas obrigações que fiz, e que porventura por não lhe ser inteiramente inúteis para as providências que houverem de dar-se relativas ao mesmo Príncipe. Ele é, se não me engano, um homem de bom caráter, muito sincero, verdadeiro, generoso, humano, dócil; e em extrema sensível ao bem que lhe fazem, principalmente a tudo o que ele julga ser obséquio a sua pessoa. Deu-me a entender por meio do seu intérprete, que sentia não ter muito dinheiro para repartir pelos pobres no dia do seu Batismo, confessando ao mesmo tempo com sinais expressivos de gratidão que Sua Alteza lhe tinha feito mercê de mandar-lhe contribuir com todo o necessário.
Fonte: Projeto
Resgate, Bahia, Avulsos. Caixa: 200, Documento: 14462.
PASSAPORTE DE ANTONIO PEREIRA REBOUÇAS, CAROLINA PINTO REBOUÇAS, SEUS FILHOS, CRIADOS E AGREGADOS.
Fevereiro
de 1846
Desta
Cidade se transporta para a Corte do Rio de Janeiro o Senhor Antonio Pereira
Rebouças, Deputado da Assembleia Geral Legislativa do Império pela Província
das Alagoas, com sua Senhora Dona Carolina Pinto Rebouças e seus filhos
Antonio, Ladislau, André, Anna e Carolina, e as pessoas constantes da relação junta
assinada pelo Secretário desta Província. E para que se lhe não ponha embaraço
algum mandei dar a presente sob o selo das Armas do Império, por mim assinada. Palácio
do Governo da Bahia, 12 de fevereiro de 1846. Lugar do selo. Francisco José de
Souza Soares de Andrade.
Relação
das pessoas a que se referi a Portaria supra.
Zeferina
Simplicia Pires, crioula forra, ama de leite, com sua filha Maria.
Adão José
da Silva, criado, pardo forro.
Luiz de
França, crioulo.
Zeferino,
crioulo.
Luiz
Antonio, crioulo.
Constantino,
africano.
Domingos,
africano.
Vicente,
africano.
Militão,
africano.
Lourenço,
africano.
Miquelina,
cabra, com sua filha Rozalina Salustiana, crioula.
Joana,
crioula.
Carolina,
Africana.
Leucadia,
africana, com sua filha crioula Paulina.
Lucia, africana,
com suas filhas crioulas Damiana e Roza.
Florinda,
africana.
Agostinha,
africana.
Luiza,
africana.
Maria
Luiza, africana liberta, agregada.
Palácio
do Governo, 12 de fevereiro de 1846. José Maria Servulo de Sampaio, servindo de
Secretário.
Fonte: Arquivo Público do Estado da Bahia, Seção
de Arquivos Colonial/Provincial, Série Polícia, Registro de Passaportes
1842-1857. Maço: 5896. Páginas: 45-46.
Para saber mais acesse: https://www.geledes.org.br/saga-dos-engenheiros-reboucas/
DOCUMENTOS SOBRE A DITADURA MILITAR NA BAHIA DISPONÍVEIS PARA PESQUISA ON-LINE
Criada pelo Decreto nº 14.227, de 10 de dezembro de 2012 e foi instalada, com a posse dos seus membros, em agosto de 2013 e encerrada em 12 de agosto de 2016 com a entrega do relatório final ao Governador do Estado da Bahia e à População Baiana.
A
Comissão Estadual da Verdade (CEV) tem a finalidade de esclarecer as violações
de direitos humanos durante o período da Ditadura Militar no Brasil e na Bahia.
A
Comissão Estadual da Verdade (CEV) era composta por 7 membros designados pelo
Governador do Estado, oficialmente investidos de poderes para identificar e
reconhecer os fatos ocorridos e as pessoas que participaram dos atos, tanto
como vítimas quanto os que de alguma forma foram responsáveis por essas
violências. A CEV era composta por: Joviniano Soares de Carvalho Neto, Amabília
Vilaronga de Pinho Almeida, Antônio Walter Santos Pinheiro, Carlos Navarro
Filho, Dulce Tamara Lamego Silva e Aquino, Jackson Chaves de Azevedo e Vera
Christina Leonelli.
Relatórios
de Atividades da Comissão Nacional da Verdade e da Comissão Estadual da
Verdade; Fichas de Depoentes; Depoimentos; Dossiês de investigação de mortos e
desaparecidos; Processos de denúncias sobre maus tratos; Audiências Públicas;
Recortes de Jornais...
IDEIAS SUBVERSIVAS DE UM FREI ABOLICIONISTA NA CAPITANIA DA BAHIA NO SÉCULO XVIII
Em 1794, Dom
Fernando José, Governador da capitania da Bahia, enviara missiva ao Ministro da
Coroa Martinho de Mello e Castro a respeito das ideias subversivas de um Frei
barbadinho.
Chegado à
Bahia por volta de 1780, o frei seguiu por 14 anos professando, doutrinando e
catequisando as almas da cidade e dos sertões baianos, mas decorridos 14 anos
de sua estadia e vivência na Colônia, passou a questionar a escravidão africana. Suas
ideias abolicionistas arriscavam subverter a ordem vigente; com a consciência em conflito, passou a indagar a legitimidade da escravidão feita através da guerra justa
ou injusta, fazendo do confessionário o seu palanque abolicionista. Isso não
passaria despercebido aos olhos e ouvidos das autoridades locais, nem mesmo o
sagrado manto da confissão seria capaz de ocultar tais ideias. Ao desenrolar
sua narrativa ao Ministro da Coroa, Dom Fernando exalta as qualidades do Frei
José, mas admite a gravidade de suas ideias para paz local, e que, “espalhada aquela doutrina, seria grande nos escravos a revolução e grande a
aflição do espírito nos Senhores se timorata a consciência”.
Ilustríssimo
e Excelentíssimo Senhor.
O
Arcebispo desta diocese, levado daquela vigilância que sempre mostra em atalhar
qualquer doutrina em matéria espiritual que possa perturbar a tranquilidade e
sossego desta Capitania, ou opor-se às leis e ordens de Sua Majestade, me fez
saber que o padre frei José de Bolonha missionário capuchinho italiano tivera o
desacordo e indiscrição de seguir a má opinião a respeito da escravidão, a qual
se propagasse e abraçasse inquietaria contaminando as consciências dos
habitantes dessa cidade e traria para o futuro consequências funestas para a
conservação e subsistência desta colônia.
Depois
deste religioso viver neste país perto de quatorze anos, com procedimento
exemplar, cumprindo com as obrigações de seu ministério, apesar de algumas
imprudências em que rompia, e de que se abstinha sendo delas advertido pelos
seus superiores, merecendo o conceito de homem virtuoso e zeloso pelo seu
serviço de Deus, se persuadiu ou o persuadiram de que a escravidão era
ilegítima, e contrária à religião, ou ao menos que sendo estas umas vezes
legítimas e outras ilegítimas, se devia fazer a distinção entre escravos
tomados em guerra justa ou injusta, chegando a tal ponto a sua presença que,
confessando pela festa do Espírito Santo a várias pessoas, pôs em prática esta
doutrina, obrigando-os que entrassem na indagação desta matéria tão
dificultosa, por não dizer impossível de se averiguar, a fim de dar liberdade
àqueles escravos que, ou fossem furtados ou seduzidos a uma escravidão injusta,
sem refletir que, quem compra escravos, os compra regularmente a pessoas
autorizadas para os venderem, e debaixo dos olhos e consentimento do Príncipe,
e que seria maldito e contra a tranquilidade da sociedade exigir de um
particular quando compra qualquer mercadoria, a pessoa estabelecida para os
vender, que primeiramente se informassem donde elas provém, por averiguações,
além de inúteis, capazes sem dúvida de aniquilarem toda e qualquer espécie de
comércio.
Examinada
a origem desta opinião que este padre por tanto tempo não seguira, se veio no
conhecimento de que algumas práticas que tivera com os padres italianos da
Missão de Goa transportados na Nau Belém surta este porto, e hospedados no
hospício da Palma deram lugar a que este religioso se capacitasse desta
doutrina, não tanto por malícia e dolo como por falta de maiores talentos e
conhecimentos teológicos, e em razão de uma consciência escrupulosa.
Para que
uma doutrina tão perniciosa não se espalhasse, o arcebispo imediatamente o
mandou suspender de confessor, rogando-me o remetesse neste navio que segue
viagem, e que o Mestre não o deixasse saltar para a terra sem ordem positiva de
Vossa Excelência; e conferindo com o mesmo Arcebispo sobre esta matéria, para
se darem mais providências que parecem acertadas, julguei conveniente chamar à
minha presença o reitor dos referidos missionários de Goa, estranhando-lhe
vivamente a sua indiscrição, e mostrando-lhe vivamente que esta matéria era
sumamente delicada e melindrosa, e que ao Príncipe unicamente tocava
providência sobre ela, se algum dia assim o julgasse conveniente, e que
finalmente era grande inconsideração e temeridade, à vista de um prelado tão
sábio e doutor, e de todo o clero desta cidade, suscitar semelhante questão.
Procurou-se justificar-se na minha presença o Reitor, referindo-me que o Padre
Frei José de Bolonha, perguntando-lhe o seu parecer sobre este ponto, lhe
respondera, que havia escravidão legítima e ilegítima, mas que o não persuadira
a que obrasse no confessionário o que obrou, antes lhe devera, que
oferecendo-se dúvida a devera comunicar ao Ordinário; mas sem embargo desta
defesa, que me não satisfaz, por maior cautela ordenei ao Comandante da Nau
Belém, fizesse recolher para bordo aos ditos Missionários, e não ordenasse sair
para terra, sem ordem positiva minha. Deus Guarde a Vossa Excelência. Bahia, 18
de junho de 1794. Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Martinho de Mello e Castro.
Dom Fernando José de Portugal.
FONTE:
Arquivo Público do Estado da Bahia, Seção Colonial e Provincial, Cartas do Governo a Sua Majestade, Maço 137, 1794-1797.
Ainda que
oprimido da gota sou obrigado a expor a Vossa Excelência o que inesperadamente
acontece.
O Padre
Frei José de Bolonha, Missionário Barbadinho, Italiano, em quase 14 anos nesta
Bahia, teve sempre a reputação de um home verdadeiramente Apostólico, zeloso da
salvação das almas e infatigável no seu ministério. É que este mesmo agora
praticamente no tribunal da conciliação não quis absolver os penitencies sem
que estes lhe prometessem a respeito dos escravos fazer uma exata averiguação,
se estes foram cativos em justa guerra ou furtados; como ele se persuadia
suceder muito frequentemente. Sobre os furtados, queria que atendendo o preço
que eles custaram, e tendo servido o tipo que correspondesse a que preço lhe
dessem os Senhores a Liberdade. Admirando eu esta sua repentina e prejudicial
novidade o mandei chamar severamente o repreendi, como a sua ação merecia, e o
suspendi logo do exercício de confessor.
Antes de
prosseguir a resposta deste Padre, me devo lembrar dos cinco Missionários do
Instituto de São Vicente de Paulo, que vindo na Nau Belém de Goa e Angola,
chegaram enfim a esta Bahia. Em três meses da sua estada aqui no Hospício da
Palma foi sempre exemplar a sua conduta. Esta me moveu a pedir ao seu Prelado
mandasse um deles a fazer nos quatro Conventos de Religiosos umas práticas em
que lhes compusessem vivamente a obrigação dos três votos que professavam. O
conceito que um deles formara-me excitou a rogar-lhe no confessionário
concorressem para o bem das almas desta Cidade. Não assentiram a esta mesma
petição alegando algumas razões que nada convenciam. Não penetrei então o
verdadeiro motivo da sua repugnância. Esta persuade agora ser este o não quererem
manifestar no tribunal da penitência o seu sentimento sobre a escravidão.
Deixados agora estes, volto ao Padre Frei José.
Este já
andava tocado do mesmo sentimento, ainda que o não tinha praticado no
confessionário. Não tendo, contudo, este tipo de comunicação com os ditos
Padres, só a teve com um deles nos dias próximos aquele, em que querendo seu
desatino manifestando-lhe o seu sentimento ou a sua dúvida com os negócios do
Padre acaba de firmar-se no mesmo sentimento inteiramente, Não quero dizer que
o Padre inspirasse a Frei José o por em prática o qual pensamento no tribunal
da penitência; pois assim ele como os companheiros nunca aqui o praticaram,
concordas todos em não confessar se alguma pessoa de confidência, como sucedem
com Frei José, o qual com as suas dúvidas concitou o Padre a manifestar o seu
juízo sem que, como se deve presumir, lhe inspirasse a praxe no confessionário.
Impedido
eu pela moléstia de ir buscar o Governo, lhe mandei dar parte de tudo para
cooperarmos logo no princípio, pois sem sofrer o mal com todas as funestas
consequências que daqui podiam resultar. Ele além do desinteresse que chega ao
sumo grau, que que nele não se é ser direito, mas pessoal, muito zeloso em tudo
o que toca a Religião e ao Estado, sem demora me veio falar. Concordamos ambos
que Frei José fosse remetido para Portugal, não por despacho da petição, que
para isso pouco antes me fizera, mas em castigo da sua culpa. Assentamos mais
que os outros Padres hospedes no Hospício da Palma, também mandados recolher a
bordo da Nau em que vieram impedindo assim a comunicação de si e doutras. Esta
era juntamente uma satisfação ao público escandalizado com o sistema de que se
seguiram muitos males assim espirituais como temporais. Confessava Frei José
que não persista todos estes males.
É certo
que ele, por um zelo indireto, cometia algumas imprudências, de que corrigido,
se emendava. Nunca julguei chegasse a esta assim capital sobre matéria tão
importante e delicada, faltando-lhe até uma reflexão abria a qualquer, como era
consultar o seu Arcebispo e o seu Prelado Regular. A nímia adesão ao seu
próprio juízo, e a sujeição ao de outro Padre que consultou o precipitaram,
quando ele no dia imediato ao do Espírito Santo me pediu Licença para embarcar,
e com esta alcançar o passaporte do Governo, expondo-me a causa de se retirar
por estar persuadido do seu novo sentimento, eu a viria a conceder, se pouco
depois me não constasse ter ele exteriorizasse o que seu juízo fora e dentro do
Sacramento. Julguei então que não devia ir já na figura de um passageiro
voluntário, mas na figura de réu. Procurei suavizar isto mesmo permitindo fosse
livre para a embarcação, e para sair dela na chegada a Lisboa esperasse o
Capitão Ordem expressa de Vossa Excelência.
Em tudo
quanto ir dito, obrei de acordo com o Governo, tendo já ouvido o parecer de
quais que eu deveria atender. Desejei obrar em tudo procurando só agradar a Deus
e a Sua Majestade. Asseguro a Vossa Excelência que nenhum dos Padres
Barbadinhos deste Hospício está tocado ainda levemente do errado parecer do
Frei José, antes cada um deles longe de pensar assim está sumamente aflito com
a novidade do seu companheiro. Jugo o mesmo dos outros, que estão paroquiando
em algumas aldeias dos Índios, cumprindo todos bem o seu ministério.
Algunhas
muitas vezes, entre fatigas e trabalho correm grande parte do Arcebispado
confessando, pregando e crismando gentes e todos os outros, que fazem disto
tudo quanto me conste, sem interesse algum temporal. O que agora digo, o
atestará no momento da morte, e na proximidade de aparecer no tribunal divino.
Concluo
com o Padre Frei José. Comecei pelo seu zelo apostólico e acabo dizendo que me
parecem sempre humilde, penitente, desinteressadíssimo. Errou agora, enquanto
maiores homens em literatura e piedade tem errado! A prova dita permite muitas
vezes estes erros para os confundir e humilhar. Se eu cumprindo a mesma
obrigação arguir, com para o castigar, não devo por isso deixar de
compadecer-me e implorar também a compaixão de Vossa Excelência com um homem,
que pecou, mais por ingenuidade que por malícia. Faltaria eu a meu maior
ministério e ao agradecimento a Deus, se tendo só reprimido seu erro, me
esquecendo de quase 14 anos que trabalhou neste Arcebispado incansavelmente.
Resta só dizer, se no que antes obrei, e agora escrevo, não hei acertado,
desculpe-me a moléstia do corpo, que com aflição do espírito se há argumentado.
A que oprimindo-me a mão impede assinar eu mesmo da carta.
Ilustríssimo
e Excelentíssimo Senhor Martinho de Mello e Castro, aos 20 de junho de 1794.
Deus Guarde A Vossa Excelência muitos anos. Bahia. Frei Antonio Arcebispo da
Bahia.
Tendo
novamente a matéria de uma das minhas cartas antecedentes, nela nada dizia, nem
agora digo, que a escravidão dos pretos olhada absolutamente, logo no seu
princípio é lícita ou ilícita, nada também do uso ou abuso, ou dos Senhores
sobre os seus escravos. Concentrava-me ao sucesso presente e sobre esta
acrescento algumas reflexões.
Se
exprimi o universal conceito que nesta Bahia tinha o Padre Frei José de Bolonha
pelo seu auxílio e constante zelo Apostólico. Igualmente expus o meu amor e respeito
aos cinco Padres que vieram da Índia pela sua exemplar conduta. Deles, deixado
agora Frei José, pelo presentemente. Como poderão alguns por ignorância ou
malícia ou também por uma espécie de piedade e compaixão censurar o que com
eles o Governo e eu obramos em s mandar recolher à sua Embarcação, exponho as
razões que assim nos moveram. O seu sentimento sobre a escravidão de baixo
daquela modificação, que já escrevi na carta antecedente, se manifesta pelas
razões seguintes propostas agora com mais detalhes.
1ª O
Padre Frei José, falando muitas vezes sobre esta matéria continuou sempre em
confessar sem adotar em quase 14 anos este novo sentimento. Rompeu nele
passando até o praticar no confessionário, logo imediatamente que saiu de uns excoricios.
Em um dia de trabalho teve larga conversação com um dos Padres, servindo aqui
muito esta reflexão, que em todo o tempo antes com nenhum deles conservara.
Parece logo que daquela conversação procedeu passar ele Frei José da dúvida
antecedente a formar-se no conceito de ser ilícita a escravidão, como se
prática, pela diuturnidade do tempo.
2ª O
mesmo Padre quando me veio pedir licença para se retirar para Portugal, me deu
por motivo o estar totalmente persuadido de ser ilícita a escravidão como se
pratica, já pela dúvida de ser justa a guerra em que foram apreendidos, e
depois vendidos, já porque, passado tempo em que com a utilidade do seu serviço
tivessem compensado o que custaram, se lhes devia a liberdade. Ele mesmo nessa
ocasião disse que além do mais para se formar no seu conceito, o movera a
autoridade e as razões daquele Padre, com que conversara, acrescentando que
todos os outros quatro eram do mesmo parecer.
3ª Por
uma carta do Prefeito dos Barbadinhos de Angola ao do Hospício desta Bahia,
consta ter-se manifestado em Angola nos sobreditos Padres o mesmo sentimento.
Não há motivo para que deixe de ter-se esta carta.
4ª Hum
homem aqui respeitável, além do caráter, pela probidade e literatura, atesta
que um dos Padres por motivo de amizade e agradecimento a alguns benefícios
instava com ele para que praticasse como necessária aquela doutrina a respeito
dos escravos.
De tudo
isto se faz manifesto que o sentimento dos Padres de interno passou a
exteriorizar-se. Parece logo ser obreiras uma providência também externa,
atendida a circunstância do tempo presente, e especialmente a condição do país,
em que espalhada aquela doutrina, seria grande nos escravos a revolução e
grande a aflição do espírito nos Senhores se timorata a consciência. É certo
que já sem a exterioridade se faria como evidente o sentimento daqueles Padres.
Em quase três meses que precederam, nenhum deles em público confessou
seculares, com exceção talvez de alguns, que não tivessem escravos, ainda
instando eu, exercitassem esse santo ministério, e pedindo a caridade na sua
estada fossem uteis a estes povos.
Ainda que
em todo esse tempo podia sair a Embarcação, se fariam muitas confissões, e as
mesmas gerais que fossem obreiras em alguns penitentes, se podiam comentar. E
quando fosse tão rápido o embarque, que alguma se não concluísse, sempre
preponderava o bem das outras muitas que tivessem precedido. Logo o motivo de
não confessar com este, em todos era, o que fica proposto. Ainda que este se
impusesse, nada com eles se obrasse, se não concorressem as circunstâncias
externas.
Como se
ignora, quanto a Nau Belém aqui se demore, Governo e eu assentamos agora
tomassem os ditos a desembarcar para o Hospício da Palma. Esta dada ao público
a satisfação, e com a correção não há perigo do mal, que se escreva. Parece
justa esta consideração com uns homes na verdade exemplares, e ainda que um
deles na conversação com Frei José oprimisse o seu sentimento, nada influiu no
seu procedimento de praticar essa doutrina no confessionário sem a conhecer o
Arcebispo, e o Prelado Regular. Essa aqui porque ele disse que os Padres estão
inocentes, querendo inculcar que o não moveram a exercitar com os confessados
aquela doutrina. Perdoe-me Vossa Excelência a repetição de muitas coisas nessa
segunda carta sobre a mesma matéria.
Ilustríssimo
e Excelentíssimo Senhor Martinho de Mello e Castro, Deus guarde a Vossa
Excelência muitos anos. Bahia, aos 25 de agosto de 1794.
Projeto Resgate, fundo Eduardo de Castro e Almeida.



















