IDEIAS SUBVERSIVAS DE UM FREI ABOLICIONISTA NA CAPITANIA DA BAHIA NO SÉCULO XVIII
Em 1794, Dom
Fernando José, Governador da capitania da Bahia, enviara missiva ao Ministro da
Coroa Martinho de Mello e Castro a respeito das ideias subversivas de um Frei
barbadinho.
Chegado à
Bahia por volta de 1780, o frei seguiu por 14 anos professando, doutrinando e
catequisando as almas da cidade e dos sertões baianos, mas decorridos 14 anos
de sua estadia e vivência na Colônia, passou a questionar a escravidão africana. Suas
ideias abolicionistas arriscavam subverter a ordem vigente; com a consciência em conflito, passou a indagar a legitimidade da escravidão feita através da guerra justa
ou injusta, fazendo do confessionário o seu palanque abolicionista. Isso não
passaria despercebido aos olhos e ouvidos das autoridades locais, nem mesmo o
sagrado manto da confissão seria capaz de ocultar tais ideias. Ao desenrolar
sua narrativa ao Ministro da Coroa, Dom Fernando exalta as qualidades do Frei
José, mas admite a gravidade de suas ideias para paz local, e que, “espalhada aquela doutrina, seria grande nos escravos a revolução e grande a
aflição do espírito nos Senhores se timorata a consciência”.
Ilustríssimo
e Excelentíssimo Senhor.
O
Arcebispo desta diocese, levado daquela vigilância que sempre mostra em atalhar
qualquer doutrina em matéria espiritual que possa perturbar a tranquilidade e
sossego desta Capitania, ou opor-se às leis e ordens de Sua Majestade, me fez
saber que o padre frei José de Bolonha missionário capuchinho italiano tivera o
desacordo e indiscrição de seguir a má opinião a respeito da escravidão, a qual
se propagasse e abraçasse inquietaria contaminando as consciências dos
habitantes dessa cidade e traria para o futuro consequências funestas para a
conservação e subsistência desta colônia.
Depois
deste religioso viver neste país perto de quatorze anos, com procedimento
exemplar, cumprindo com as obrigações de seu ministério, apesar de algumas
imprudências em que rompia, e de que se abstinha sendo delas advertido pelos
seus superiores, merecendo o conceito de homem virtuoso e zeloso pelo seu
serviço de Deus, se persuadiu ou o persuadiram de que a escravidão era
ilegítima, e contrária à religião, ou ao menos que sendo estas umas vezes
legítimas e outras ilegítimas, se devia fazer a distinção entre escravos
tomados em guerra justa ou injusta, chegando a tal ponto a sua presença que,
confessando pela festa do Espírito Santo a várias pessoas, pôs em prática esta
doutrina, obrigando-os que entrassem na indagação desta matéria tão
dificultosa, por não dizer impossível de se averiguar, a fim de dar liberdade
àqueles escravos que, ou fossem furtados ou seduzidos a uma escravidão injusta,
sem refletir que, quem compra escravos, os compra regularmente a pessoas
autorizadas para os venderem, e debaixo dos olhos e consentimento do Príncipe,
e que seria maldito e contra a tranquilidade da sociedade exigir de um
particular quando compra qualquer mercadoria, a pessoa estabelecida para os
vender, que primeiramente se informassem donde elas provém, por averiguações,
além de inúteis, capazes sem dúvida de aniquilarem toda e qualquer espécie de
comércio.
Examinada
a origem desta opinião que este padre por tanto tempo não seguira, se veio no
conhecimento de que algumas práticas que tivera com os padres italianos da
Missão de Goa transportados na Nau Belém surta este porto, e hospedados no
hospício da Palma deram lugar a que este religioso se capacitasse desta
doutrina, não tanto por malícia e dolo como por falta de maiores talentos e
conhecimentos teológicos, e em razão de uma consciência escrupulosa.
Para que
uma doutrina tão perniciosa não se espalhasse, o arcebispo imediatamente o
mandou suspender de confessor, rogando-me o remetesse neste navio que segue
viagem, e que o Mestre não o deixasse saltar para a terra sem ordem positiva de
Vossa Excelência; e conferindo com o mesmo Arcebispo sobre esta matéria, para
se darem mais providências que parecem acertadas, julguei conveniente chamar à
minha presença o reitor dos referidos missionários de Goa, estranhando-lhe
vivamente a sua indiscrição, e mostrando-lhe vivamente que esta matéria era
sumamente delicada e melindrosa, e que ao Príncipe unicamente tocava
providência sobre ela, se algum dia assim o julgasse conveniente, e que
finalmente era grande inconsideração e temeridade, à vista de um prelado tão
sábio e doutor, e de todo o clero desta cidade, suscitar semelhante questão.
Procurou-se justificar-se na minha presença o Reitor, referindo-me que o Padre
Frei José de Bolonha, perguntando-lhe o seu parecer sobre este ponto, lhe
respondera, que havia escravidão legítima e ilegítima, mas que o não persuadira
a que obrasse no confessionário o que obrou, antes lhe devera, que
oferecendo-se dúvida a devera comunicar ao Ordinário; mas sem embargo desta
defesa, que me não satisfaz, por maior cautela ordenei ao Comandante da Nau
Belém, fizesse recolher para bordo aos ditos Missionários, e não ordenasse sair
para terra, sem ordem positiva minha. Deus Guarde a Vossa Excelência. Bahia, 18
de junho de 1794. Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Martinho de Mello e Castro.
Dom Fernando José de Portugal.
FONTE:
Arquivo Público do Estado da Bahia, Seção Colonial e Provincial, Cartas do Governo a Sua Majestade, Maço 137, 1794-1797.
Ainda que
oprimido da gota sou obrigado a expor a Vossa Excelência o que inesperadamente
acontece.
O Padre
Frei José de Bolonha, Missionário Barbadinho, Italiano, em quase 14 anos nesta
Bahia, teve sempre a reputação de um home verdadeiramente Apostólico, zeloso da
salvação das almas e infatigável no seu ministério. É que este mesmo agora
praticamente no tribunal da conciliação não quis absolver os penitencies sem
que estes lhe prometessem a respeito dos escravos fazer uma exata averiguação,
se estes foram cativos em justa guerra ou furtados; como ele se persuadia
suceder muito frequentemente. Sobre os furtados, queria que atendendo o preço
que eles custaram, e tendo servido o tipo que correspondesse a que preço lhe
dessem os Senhores a Liberdade. Admirando eu esta sua repentina e prejudicial
novidade o mandei chamar severamente o repreendi, como a sua ação merecia, e o
suspendi logo do exercício de confessor.
Antes de
prosseguir a resposta deste Padre, me devo lembrar dos cinco Missionários do
Instituto de São Vicente de Paulo, que vindo na Nau Belém de Goa e Angola,
chegaram enfim a esta Bahia. Em três meses da sua estada aqui no Hospício da
Palma foi sempre exemplar a sua conduta. Esta me moveu a pedir ao seu Prelado
mandasse um deles a fazer nos quatro Conventos de Religiosos umas práticas em
que lhes compusessem vivamente a obrigação dos três votos que professavam. O
conceito que um deles formara-me excitou a rogar-lhe no confessionário
concorressem para o bem das almas desta Cidade. Não assentiram a esta mesma
petição alegando algumas razões que nada convenciam. Não penetrei então o
verdadeiro motivo da sua repugnância. Esta persuade agora ser este o não quererem
manifestar no tribunal da penitência o seu sentimento sobre a escravidão.
Deixados agora estes, volto ao Padre Frei José.
Este já
andava tocado do mesmo sentimento, ainda que o não tinha praticado no
confessionário. Não tendo, contudo, este tipo de comunicação com os ditos
Padres, só a teve com um deles nos dias próximos aquele, em que querendo seu
desatino manifestando-lhe o seu sentimento ou a sua dúvida com os negócios do
Padre acaba de firmar-se no mesmo sentimento inteiramente, Não quero dizer que
o Padre inspirasse a Frei José o por em prática o qual pensamento no tribunal
da penitência; pois assim ele como os companheiros nunca aqui o praticaram,
concordas todos em não confessar se alguma pessoa de confidência, como sucedem
com Frei José, o qual com as suas dúvidas concitou o Padre a manifestar o seu
juízo sem que, como se deve presumir, lhe inspirasse a praxe no confessionário.
Impedido
eu pela moléstia de ir buscar o Governo, lhe mandei dar parte de tudo para
cooperarmos logo no princípio, pois sem sofrer o mal com todas as funestas
consequências que daqui podiam resultar. Ele além do desinteresse que chega ao
sumo grau, que que nele não se é ser direito, mas pessoal, muito zeloso em tudo
o que toca a Religião e ao Estado, sem demora me veio falar. Concordamos ambos
que Frei José fosse remetido para Portugal, não por despacho da petição, que
para isso pouco antes me fizera, mas em castigo da sua culpa. Assentamos mais
que os outros Padres hospedes no Hospício da Palma, também mandados recolher a
bordo da Nau em que vieram impedindo assim a comunicação de si e doutras. Esta
era juntamente uma satisfação ao público escandalizado com o sistema de que se
seguiram muitos males assim espirituais como temporais. Confessava Frei José
que não persista todos estes males.
É certo
que ele, por um zelo indireto, cometia algumas imprudências, de que corrigido,
se emendava. Nunca julguei chegasse a esta assim capital sobre matéria tão
importante e delicada, faltando-lhe até uma reflexão abria a qualquer, como era
consultar o seu Arcebispo e o seu Prelado Regular. A nímia adesão ao seu
próprio juízo, e a sujeição ao de outro Padre que consultou o precipitaram,
quando ele no dia imediato ao do Espírito Santo me pediu Licença para embarcar,
e com esta alcançar o passaporte do Governo, expondo-me a causa de se retirar
por estar persuadido do seu novo sentimento, eu a viria a conceder, se pouco
depois me não constasse ter ele exteriorizasse o que seu juízo fora e dentro do
Sacramento. Julguei então que não devia ir já na figura de um passageiro
voluntário, mas na figura de réu. Procurei suavizar isto mesmo permitindo fosse
livre para a embarcação, e para sair dela na chegada a Lisboa esperasse o
Capitão Ordem expressa de Vossa Excelência.
Em tudo
quanto ir dito, obrei de acordo com o Governo, tendo já ouvido o parecer de
quais que eu deveria atender. Desejei obrar em tudo procurando só agradar a Deus
e a Sua Majestade. Asseguro a Vossa Excelência que nenhum dos Padres
Barbadinhos deste Hospício está tocado ainda levemente do errado parecer do
Frei José, antes cada um deles longe de pensar assim está sumamente aflito com
a novidade do seu companheiro. Jugo o mesmo dos outros, que estão paroquiando
em algumas aldeias dos Índios, cumprindo todos bem o seu ministério.
Algunhas
muitas vezes, entre fatigas e trabalho correm grande parte do Arcebispado
confessando, pregando e crismando gentes e todos os outros, que fazem disto
tudo quanto me conste, sem interesse algum temporal. O que agora digo, o
atestará no momento da morte, e na proximidade de aparecer no tribunal divino.
Concluo
com o Padre Frei José. Comecei pelo seu zelo apostólico e acabo dizendo que me
parecem sempre humilde, penitente, desinteressadíssimo. Errou agora, enquanto
maiores homens em literatura e piedade tem errado! A prova dita permite muitas
vezes estes erros para os confundir e humilhar. Se eu cumprindo a mesma
obrigação arguir, com para o castigar, não devo por isso deixar de
compadecer-me e implorar também a compaixão de Vossa Excelência com um homem,
que pecou, mais por ingenuidade que por malícia. Faltaria eu a meu maior
ministério e ao agradecimento a Deus, se tendo só reprimido seu erro, me
esquecendo de quase 14 anos que trabalhou neste Arcebispado incansavelmente.
Resta só dizer, se no que antes obrei, e agora escrevo, não hei acertado,
desculpe-me a moléstia do corpo, que com aflição do espírito se há argumentado.
A que oprimindo-me a mão impede assinar eu mesmo da carta.
Ilustríssimo
e Excelentíssimo Senhor Martinho de Mello e Castro, aos 20 de junho de 1794.
Deus Guarde A Vossa Excelência muitos anos. Bahia. Frei Antonio Arcebispo da
Bahia.
Tendo
novamente a matéria de uma das minhas cartas antecedentes, nela nada dizia, nem
agora digo, que a escravidão dos pretos olhada absolutamente, logo no seu
princípio é lícita ou ilícita, nada também do uso ou abuso, ou dos Senhores
sobre os seus escravos. Concentrava-me ao sucesso presente e sobre esta
acrescento algumas reflexões.
Se
exprimi o universal conceito que nesta Bahia tinha o Padre Frei José de Bolonha
pelo seu auxílio e constante zelo Apostólico. Igualmente expus o meu amor e respeito
aos cinco Padres que vieram da Índia pela sua exemplar conduta. Deles, deixado
agora Frei José, pelo presentemente. Como poderão alguns por ignorância ou
malícia ou também por uma espécie de piedade e compaixão censurar o que com
eles o Governo e eu obramos em s mandar recolher à sua Embarcação, exponho as
razões que assim nos moveram. O seu sentimento sobre a escravidão de baixo
daquela modificação, que já escrevi na carta antecedente, se manifesta pelas
razões seguintes propostas agora com mais detalhes.
1ª O
Padre Frei José, falando muitas vezes sobre esta matéria continuou sempre em
confessar sem adotar em quase 14 anos este novo sentimento. Rompeu nele
passando até o praticar no confessionário, logo imediatamente que saiu de uns excoricios.
Em um dia de trabalho teve larga conversação com um dos Padres, servindo aqui
muito esta reflexão, que em todo o tempo antes com nenhum deles conservara.
Parece logo que daquela conversação procedeu passar ele Frei José da dúvida
antecedente a formar-se no conceito de ser ilícita a escravidão, como se
prática, pela diuturnidade do tempo.
2ª O
mesmo Padre quando me veio pedir licença para se retirar para Portugal, me deu
por motivo o estar totalmente persuadido de ser ilícita a escravidão como se
pratica, já pela dúvida de ser justa a guerra em que foram apreendidos, e
depois vendidos, já porque, passado tempo em que com a utilidade do seu serviço
tivessem compensado o que custaram, se lhes devia a liberdade. Ele mesmo nessa
ocasião disse que além do mais para se formar no seu conceito, o movera a
autoridade e as razões daquele Padre, com que conversara, acrescentando que
todos os outros quatro eram do mesmo parecer.
3ª Por
uma carta do Prefeito dos Barbadinhos de Angola ao do Hospício desta Bahia,
consta ter-se manifestado em Angola nos sobreditos Padres o mesmo sentimento.
Não há motivo para que deixe de ter-se esta carta.
4ª Hum
homem aqui respeitável, além do caráter, pela probidade e literatura, atesta
que um dos Padres por motivo de amizade e agradecimento a alguns benefícios
instava com ele para que praticasse como necessária aquela doutrina a respeito
dos escravos.
De tudo
isto se faz manifesto que o sentimento dos Padres de interno passou a
exteriorizar-se. Parece logo ser obreiras uma providência também externa,
atendida a circunstância do tempo presente, e especialmente a condição do país,
em que espalhada aquela doutrina, seria grande nos escravos a revolução e
grande a aflição do espírito nos Senhores se timorata a consciência. É certo
que já sem a exterioridade se faria como evidente o sentimento daqueles Padres.
Em quase três meses que precederam, nenhum deles em público confessou
seculares, com exceção talvez de alguns, que não tivessem escravos, ainda
instando eu, exercitassem esse santo ministério, e pedindo a caridade na sua
estada fossem uteis a estes povos.
Ainda que
em todo esse tempo podia sair a Embarcação, se fariam muitas confissões, e as
mesmas gerais que fossem obreiras em alguns penitentes, se podiam comentar. E
quando fosse tão rápido o embarque, que alguma se não concluísse, sempre
preponderava o bem das outras muitas que tivessem precedido. Logo o motivo de
não confessar com este, em todos era, o que fica proposto. Ainda que este se
impusesse, nada com eles se obrasse, se não concorressem as circunstâncias
externas.
Como se
ignora, quanto a Nau Belém aqui se demore, Governo e eu assentamos agora
tomassem os ditos a desembarcar para o Hospício da Palma. Esta dada ao público
a satisfação, e com a correção não há perigo do mal, que se escreva. Parece
justa esta consideração com uns homes na verdade exemplares, e ainda que um
deles na conversação com Frei José oprimisse o seu sentimento, nada influiu no
seu procedimento de praticar essa doutrina no confessionário sem a conhecer o
Arcebispo, e o Prelado Regular. Essa aqui porque ele disse que os Padres estão
inocentes, querendo inculcar que o não moveram a exercitar com os confessados
aquela doutrina. Perdoe-me Vossa Excelência a repetição de muitas coisas nessa
segunda carta sobre a mesma matéria.
Ilustríssimo
e Excelentíssimo Senhor Martinho de Mello e Castro, Deus guarde a Vossa
Excelência muitos anos. Bahia, aos 25 de agosto de 1794.
Projeto Resgate, fundo Eduardo de Castro e Almeida.
UM FOTÓGRAFO FRANCÊS NA ÁFRICA DO OESTE IMAGENS DO PERÍODO COLONIAL 1899-1923
O PROJETO
Acreditamos
que as fotografias de Fortier têm um grande valor histórico pois muitas vezes o
fotógrafo se preocupava em mostrar a África do Oeste de forma documental. Mas
para que essas imagens possam ser consideradas documentos históricos é
importante entender o contexto em que foram feitas. Para isso, saber que outras
fotografias fazem parte do conjunto onde está presente uma determinada imagem
também nos ajuda a entender qual a lógica do fotógrafo na organização de seu
material.
A
imensidão e a complexidade da obra de Fortier tornam-na de difícil decifração.
Até hoje não se sabe o total de clichês de autoria do fotógrafo que, como
dissemos, beiraria 4.500 imagens. Elas foram publicadas no formato
cartão-postal em diversas séries e subséries com características distintas, o
que permite certos arranjos.
Organizamos
com critérios cronológicos as séries por ele editadas e produzimos tabelas para
identificar as primeiras edições das imagens que aparecem em séries diversas.
Essa
“memória visual”, impressa em frágeis pedaços de papel estampados – é
importante informar que até hoje não foi encontrado nenhum negativo de autoria
de Fortier – estava dispersa pelo mundo, ou seja, já não existia enquanto obra
completa de um fotógrafo. Esse foi o motivo que nos fez decidir recriar, pouco
a pouco, por meio de aquisições na internet, o conjunto de suas publicações de
cartões-postais. Agora a coleção está reunida pela primeira vez e os originais
se encontram no Acervo África, em São Paulo, Brasil. Nosso intuito é fazer conhecer
o imenso legado de Edmond Fortier de forma organizada, por meio da publicação
de livros, websites e exposições.
ACESSE: https://edmondfortier.org.br/
QUERELAS DE FACAS E MORDIDAS ENTRE UM PARDO E UM CABRA NO ENTRUDO DE 1767
Diz Francisco
Xavier de Moura, pardo, menor de vinte anos, com pouca diferença, natural da
Cidade da Bahia, e residente na Comarca de Sergipe Del Rei, da mesma cidade, que
naquela ouvidoria geral do crime querelara do suplicante um Cabra Vicente
Ferreira com o fundamento de que em folguedos do Entrudo com ele e com outros,
barriado os rostos com o dito folguedo o entrudaram, e no entrudo o suplicante
o ferira em um dedo, assegurando ser com faca; e correndo livrando. Com carta
de seguro foi preso sem fração de seguro; e faz o dito prova legal de ser uma
dentada no tal folguedo; nestes termos deu o queixoso perdão ao suplicante,
requerendo o exame cirúrgico que com efeito se fez, de não haver lesão nem
deformidade, pediu na forma da lei se julgasse o perdão por conforme, no que
não foi atendido, mandando-se fosse a sentença presente, e afinal foi
sentenciado em seis anos de degredo para os lugares de África, enquanto melhor
por criação dos enjeitados, pelo fundamento de estarem o rosto barriado no dito
folguedo; quando esta circunstância não é caso de sentença ter lugar, com menor
semelhante pena, ao passo que se não precedeu contra os mais corréus que foram
perdoados e livres, e pelo que sente aquela sentença rigorosa, lhe parece que pelo
merecimento dos outros e perdão do queixoso devia ser absoluto: por meio da
presente suplica vem a presença de Vossa Majestade Fidelíssima como seu Rei e
Senhor para lhe mandar passar provisão e conserto se dela virem os próprios autos
para na casa da suplicação se reverem, reformasse ou confirmasse a sentença,
não se procedendo por modo algum contra o suplicante é a última decisão do caso
na casa de suplicação. A vossa Majestade Fidelíssima como se Rei e supremo
senhor se servido mandar se lhe passe a dita provisão para virem aos próprios
autos sem ficar treslado dos meios por ser o suplicante um pobre só virem na
casa de suplicação.
Fonte:
http://resgate.bn.br/docreader/DocReader.aspxbib=005_BA_AV&pesq=Entrudo&pagfis=99703
CATHARINA LOBA, CIGANA VENDEDORA DE FAZENDAS NA CIDADE DA BAHIA 1767
Dizem Catharina
Loba e suas filhas, naturais da Cidade da Bahia de Todos os Santos, que elas as
suplicantes costumavam vender pelas Ruas públicas da dita Cidade com o título
de mulheres Ciganas, e não sendo, na realidade, por serem filhas daquela Cidade,
mas sim sendo parentes muito antigas, se intitulavam por ciganos os quais eram
filhos do Alentejo o que nos trariam por documentos se lhe não fosse tão penoso
serem ciganos de nação mas seriam seus parentes muito remotos, ciganos mas não
de nação, como na dita Cidade contendam com as Suplicantes por terem o título
de Ciganas em lhe não deixarem vender pelas ruas as fazendas que vão desta
Cidade, pois é a fazenda que costumam a vender e a compram aos mesmos
mercadores da dita Cidade para haverem de ganhar alguma coisa para se
sustentarem em razão de não terem em que poder ganhar para se sustentar razão
porque recorrem a Vossa Majestade se digne a por sua real piedade conceder-lhe
a Licença para que possam vender a dita fazenda em que se inclui a fazenda da
Índia.
Por Vossa
Real Majestade seja servido conceder-lhe a dita licença que pedem que as
suplicantes por ela rogaram a Vossa Majestade e por toda a família Real, pois
os filhos padecem grandes misérias. E.R.M.
Fonte: http://resgate.bn.br/docreader/DocReader.aspx?]bib=005_BA_AV&Pesq=%22ruas%22&pagfis=99661
Revista Afro-Ásia n. 62 (2020)
CLICK NA IMAGEM E ACESSE NA ÍNTEGRA
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Silveira de Oliveira Malacco, Ivan Sicca Gonçalves
“Aceite a
benção e um apertado abraço de sua carinhosa mãe”: escravidão, diásporas e a
perenidade dos laços familiares (Porto Alegre, Salvador, século XIX)
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quando estava acabando o tempo dos escravos”: devoção, redes familiares e
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III Seminário Internacional sobre Antropologia e História da Indústria Baleeira das Costas Sul Americanas
Entre os dias 23 e 25 de março de 2021 ocorrerá o “III Seminário Internacional sobre Antropologia e História da Indústria Baleeira nas Costas Sul Americanas”. Esse encontro acontecerá por meio totalmente virtual e os seus organizadores gostariam de convidar a comunidade acadêmica e externa a participar das diferentes atividades que serão realizadas. Durante os dias do evento, os convidados, palestrantes e conferencistas, compartilharão resultados das pesquisas realizadas em seus países. Todos esses intelectuais têm uma longa trajetória de pesquisa acerca da caça de baleia em seus respectivos países e em diferentes partes do globo, abordando o tema em diversas temporalidades históricas.
Assim,
nos três dias, teremos conferências, mesas redondas, exibição de obras fílmicas
comentadas, exposição de fotografias e gravuras relacionadas à caça de baleias
em diferentes partes do mundo. Esperamos com a realização desse evento, de
magnitude internacional, fomentar novas pesquisas, realizar discussões
produtivas, promover debates e fortalecer a memória e a História da caça da
baleia em dimensões globais.
Baleias e Império: os Estados Unidos e a expansão baleeira nos mares do Atlântico Sul (1761-1844)
RESUMO
Este
artigo analisa a expansão baleeira norte-americana, ocorrida entre o final do
século XVIII e a primeira metade do XIX, em direção ao litoral brasileiro.
Foram escrutinadas fontes em dois arquivos e museus da Nova Inglaterra, o
Mystic Sea Port e o Whaling Museum. No primeiro, consultamos as relações de
viagens baleeiras ocorridas entre a segunda metade do século XVIII até 1920.
Também arrolamos documentos avulsos, cartas de marinheiros e comandantes,
relações de embarcações e informações sobre os portos da região. No Whaling
Museum analisamos logbooks de viagens ao Brasil, cartas náuticas, mapas e
fontes avulsas. Na Gazeta de New Bedford, levantamos informações sobre
expedições à costa brasileira realizadas entre 1843 e 1845, os balanços da
produção de óleo de baleia, espermacete de cachalotes e ossos de baleias. Foram
examinadas e sistematizadas informações sobre os comandantes, as embarcações e
suas rotas, além de dados quantitativos a respeito de baleias e cetáceos
abatidos no litoral brasileiro. Por fim, destacamos o grande peso da indústria
baleeira americana naquela conjuntura de afirmação do capitalismo e
globalização da economia.
ACESSE NA ÍNTEGRA: https://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/165401
JOANA ANGÉLICA DE JESUS HEROÍNA DA INDEPENDÊNCIA E SENHORA DE ESCRAVOS
Nascida
em 12 de dezembro de 1761, Joana Angélica de Jesus tornou-se heroína e mártir da
Independência do Brasil. Reza a lenda que ao invadirem as dependências do
Convento da Lapa, as tropas portuguesas foram recepcionadas pela Madre, que
exclamou: “Para trás, bandidos. Respeitem a casa de Deus. Recuai, só
penetrareis nesta casa passando por sobre o meu cadáver”. Não há notícias
de documento histórico que revele tal fala. O fato ocorrido em 20 de fevereiro
de 1822, ficou marcado na história da nossa Independência. Representante da
Igreja Católica a Abadessa Joana Angélica não poderia fugir ao costume, como a
instituição da qual fazia parte, ela também possuía escravos, como muitas outras
freiras enclausuradas, que eram remetidas para essas masmorras pelos seus pais,
muitas vezes para manterem as suas filhas longe das tentações mundanas, entretanto,
não estavam tão protegidas assim, que nos diga o nosso Gregório de Mattos. Joana
Angélica foi proprietária da escrava Florinda, que a passou para duas de suas
irmãs de convento, sendo passada a sua alforria em 22 de junho de 1816, a carta
foi registrada em cartório oito anos depois, em 28 de fevereiro de 1824, dois
anos após a morte de sua antiga senhora. A carta é de texto simples e não traz detalhes
se a alforria foi condicional ou não, mas, pelo tempo que levou entre a feitura
da carta e o seu registro em cartório, provavelmente tenha sido por condição
das novas proprietárias. Segue a carta na íntegra.
Digo eu a
Madre Abadessa Soror Joanna Angelica de Jesus que entre os bens que possui esta
Religiosa comunidade é bem assim uma escrava de nome Florinda de São José, a
quem foi dada a Madre Joanna Maria de Jesus e Madre Anna Maria da Encarnação
para o seu serviço dentro desta clausura a que a dita escrava a liberto de hoje
para sempre e poderá gozar de sua liberdade como se nascesse livre do ventre de
sua Mãe. E para clareza passo esta por mim assinada. Bahia, e Convento de Nossa
Senhora da Conceição da Lapa 22 de junho de 1816. Soror Joanna Angelica de Jesus,
Abadessa. Soror Joanna Maria das Chagas Escrivã, Soror Thomazia Maria do
Coração de Jesus Disereta, Soror Maria Bernardina do Paraíso Disereta.
Reconheço as firmas supra. Bahia, 27 de fevereiro de 1824, estava o sinal
público, em testemunho de verdade. Francisco Teixeira da Mata Bacelar. Ao
Tabelião Mata. Bahia, 27 de fevereiro de 1824. Simões. E nada mais continha a
dita carta de liberdade que aqui lavrei da própria que entreguei a quem me
apresentou, e abaixo assinei, e com outro oficial concertei nesta Cidade da
Bahia aos 28 de fevereiro de 1824, eu Francisco Teixeira da Mata Bacelar
Tabelião a escrevi e assinei.
Fonte:
Arquivo Público do Estado da Bahia
Seção Judiciária
Livro de Notas 210, página: 23
Negras cores de escravidão para não se ver Raça, classe e nação na viagem de Miguel Calmon a plantações asiáticas (1905)
RESUMO
Inicialmente,
o artigo enfoca três excursões de Miguel Calmon a plantações de fumo dos
holandeses em Sumatra. Conecto a análise do relato de viagem de Calmon ao
estudo da ideologia dos senhores de terras da Bahia no pós-abolição e
evidencio, nas suas percepções, a autonomia dos trabalhadores. Também indico as
estratégias patronais de organização do trabalho livre, centradas no aluguel e
usufruto da mão-de-obra. Na continuação, o artigo demonstra como, após o
regresso do viajante, sob sua liderança, contactar índios representava
descobrir trabalhadores nacionais. Além de sublinhar a importância da
mobilidade, para os índios, em lidarem com as estratégias de sua teórica
proteção, argumento que a mobilidade era igualmente uma arma de luta para a
classe trabalhadora. Pretendo assim contribuir para ampliar a pesquisa sobre os
mundos do trabalho, iluminando conexões tanto globais quanto brasileiras.
Palavras-chave:
coolies; índios; trabalhadores
Reconstruindo vidas fragmentadas
Pesquisador da UMD co-lidera nova coleção digital que reúne histórias de povos escravizados
Por Dan Novak M. Jour. '20 01 de dezembro de 2020
Sequestrado
em casa. Vendido como bens móveis. Separado de seus entes queridos. Trabalhou
até a morte. Escrito fora da história nacional. Os horrores inimagináveis vividos
por africanos escravizados e seus descendentes podem sugerir que a escravidão
apagou nomes, identidade e personalidade.
Mas, por décadas, historiadores e genealogistas vasculharam os arquivos, reunindo milhões de documentos que traçam viagens de escravos, vendas, batismos, casamentos e outros eventos que formam as histórias de vida de escravos nomeados. No entanto, grande parte dessa pesquisa foi compilada isoladamente em instituições separadas, tornando mais difícil seguir os fios de indivíduos e famílias.
Daryle Williams, historiadora da Universidade de Maryland e reitora associada do College of Arts and Humanities, está trabalhando para abordar isso como uma das lideranças em um novo banco de dados on-line enorme que será uma ferramenta de pesquisa e descoberta inestimável: Enslaved.org: Peoples do histórico comércio de escravos.
“Temos muitos e muitos tipos diferentes de fontes que incluem indivíduos nomeados”, disse Williams, que se especializou em escravidão no Brasil do século 19. “Nosso objetivo em parte é ser capaz de fornecer uma plataforma para registrar e recuperar essas pessoas.”
O novo banco de dados, alojado na Michigan State University (MSU) e apoiado por uma doação de US $ 2 milhões da Andrew W. Mellon Foundation, fornecerá recursos educacionais para salas de aula K-12, bem como conjuntos de dados revisados por pares para estudantes e acadêmicos de nível universitário . O projeto lançou hoje uma nova fase para receber contribuições do público e de pesquisadores acadêmicos.
Antes, os pesquisadores podiam encontrar um registro de propriedade de um proprietário de plantação falecido, listando os escravos pelo nome, mas não saber se os mesmos indivíduos apareciam em um registro de batismo separado. Enslaved.org permitirá que os pesquisadores cruzem as referências desses conjuntos de dados simultaneamente usando dados abertos vinculados para construir biografias, traçar linhagens familiares e ver tendências mais amplas para compreender a experiência pessoal da escravidão.
“A história pessoal é complexa, assim como a forma como os dados eram coletados durante a era do comércio de escravos. Enquanto continuamos a digitalizar registros, como os manuscritos, para preservá-los, sabemos que há mais na história de cada pessoa. Esperamos que este banco de dados cresça e evolua com o tempo”, disse Walter Hawthorne, co-investigador do projeto, professor de história e reitor associado de assuntos acadêmicos e estudantis no College of Social Science da MSU.
Da remoção dos memoriais confederados ao debate sobre as reparações e ao bem-sucedido (e polêmico) Projeto 1619 do The New York Times, os Estados Unidos estão entre as muitas nações que enfrentam um acerto de contas com a escravidão e suas consequências históricas e modernas. Enslaved.org busca humanizar aqueles mais diretamente afetados, enquanto convida todos a ver a escravidão humana como parte de nossa história.
FONTE:
https://today.umd.edu/articles/reconstructing-fragmented-lives-88e94570-0f28-4604-ace2-777e74777e37
A massive new effort to name millions sold into bondage during the transatlantic slave trade
Nineteenth-century shackles on display in the basement
of the Freedom House Museum in Alexandria, Va., where enslaved people were once
held before being transported to the South. (Matt McClain/The Washington
Post)
Sydney Trent
Dec. 1, 2020 at 12:34 p.m. EST
Daryle Williams was emotionally torn, pushing the
decision right up against deadline. As a history professor at the University of
Maryland, Williams had been researching the slave trade in 19th-century Brazil
when he came upon two newspaper ads featuring runaway Africans. One mentioned a
mother, Sancha, escaping with her two sons — Luis, 9, and Tiburcio, 4 — in
1855. The other referenced a young woman, Theresa, who fled with her nursing
daughter, in 1842.
Tasked with entering his findings into what has become part of a groundbreaking new public slavery database, Williams was unsure about what to do. Should he create a separate line for the baby, even without a name?
“From one database perspective, I could have erased her” from the record, Williams said. And yet, even anonymous, the baby ”was part of the lived historical experience. … She was important for Theresa. She should be important for us as well.”
In mid-November, Williams carved out a spot — an act of hope that over time and with the labor of others, the baby’s identity might one day be revealed.
That infant girl, one tiny dot in the vast constellation of Africans swept into the transatlantic slave trade, is included in a massive project aimed at illuminating the lives of the 12.5 million Africans, and their descendants, sold into bondage across four continents.
Enslaved: Peoples of the Historic Slave Trade, a free, public clearinghouse that launched Tuesday with seven smaller, searchable databases, will for the first time allow anyone from academic historians to amateur family genealogists to search for individual enslaved people around the globe in one central online location.
It launches four centuries after the first enslaved Africans arrived on the shores of the English colony of Virginia in 1619. By then, the transatlantic slave trade was already more than a century old.
ACESSE NA ÍNTEGRA:
https://www.washingtonpost.com/history/2020/12/01/slavery-database-family-genealogy/
QUANDO ENGRAXAVA-SE NA BASE DO CUSPE
A Notícia ouve o decano dos engraxates.
A indústria do lustro na Bahia. Quem fez adotar a
água.
Por certo,
a A Notícia, dando-se ares aristocráticos, só ouvisse as altas personagens da
colmeia social, desprezando os humildes, os pequenos trabalhadores que
enxameiam nos quatros cantos da cidade, não teria direito à acolhida generosa que
lhe tem dispensado o povo, o chamado Zé Povo, desde sua aparição.
E, por que
nosso propósito é palestrar, inquerir, ouvir gregos e troianos, os ditos por
nobres e os considerados plebeus, no regímen democrático que proclamamos ser o
imperante no Brasil; e porque, repetimos, é esse nosso propósito, informados de
que o Manoel, que engraxa botas na Praça 15 de Novembro, era o mais velho dos
de sua profissão, resolvemos ouvi-lo no seu posto de honra.
- Cava-se
muito Manoel?
- Nada,
esta malvada macaca da asthma não me deixa trabalhar direito.
- Mas,
sempre se faz alguma coisa, hein?
- Quando
não se faz muito, sempre se faz para o burro.
- Burro?
- Sim, carne
do sertão.
- Desde
quando, Manoel, você engraxa?
- O
senhor é de jornal?... E interviu?
- Quase.
- Pelos
meus cálculos, eu trabalho na escova e na caixa desde 1880.
Ora,
brasileiros de meu tempo foram o Victor, que hoje anda vendendo rosários
registros e outras bugigangas; Manoel, um branco, que ficava na porta da loja
Athayde, na esquina da ladeira da Montanha; um que também vendia o Alabama, e mais
dois que ficavam na porta do Banco da Bahia. Dos seis, que os éramos ao todo,
só eu continuei no ofício.
- Mas, vocês
não foram os introdutores da “indústria do lustro” na Bahia...
- Não,
foram os italianos. Todos eram meninos, e alguns deles hoje se acham estabelecidos.
Os pais ficavam nas sapatarias, fazendo o remonte. Andavam com as caixas, como
os homens do realejo, presas as costas por duas correias. Não usavam paletó. Era
a camisa de mangas arregaçadas, e o colete de veludo. As calças tinham nos
joelhos grandes contrafortes de fazenda diferente. Não vê como estas estão
remendadas? Eram assim que usávamos então. Eu fiquei com o costume.
-
Estacionavam nos pontos como vocês fazem agora?
- Não, andávamos
por toda a cidade, batendo com as escovas na caixa, a procura de quem quisesse lustrar.
E sabem como engraxávamos? Arriávamos a caixa sobre o passeio, se o havia no
lugar, ajoelhávamo-nos e assim é que limpávamos as botinas. Eu tenho nos dois
joelhos cada calo medonho! Outra coisa: nesse tempo não se usava água, era com
cuspe (que porcaria!) que se lavavam as botinas, para depois passar graxa, porque
não havia ainda a pomada. O finado doutor João Lopes foi quem me fez trabalhar
com água. Toda a vez que eu o chamava para limpar as botinas, ele gritava logo:
“Só se for com água, com cuspe não quero!” De modo que eu fui forçado a adaptar
água e, como eu, todos os outros.
- O preço
do lustro era o mesmo atual?
- Não,
três vinténs.
- Desde
1888, e lustrei as botinas dos Diretores da Faculdade doutores Rodrigues da
Silva, Alexandre de Cerqueira Pinto e Ramiro Monteiro...
- E
estudantes?
- Conheci
como estudantes os doutores Manoel Victorino, Octaviano Pimenta, Tibúrcio
Suzano, Celestino, Calazans e muitos, muitos mais, dos quais eu levaria um dia
inteiro a dizer os nomes.
- Sempre
vocês pagaram impostos?
- Não, acho
que a primeira vez que se tratou de impostos para nós foi no tempo da “Gazeta
da Tarde”, quando o professor Bahia era deputado. Luiz Tarquínio, quando foi
vereador, exigiu que a gente andasse fardado com numeração no boné. O doutor
Freire de Carvalho, quando intendente, foi quem entendeu que nós devíamos usar
estas cadeiras...
-
Recorda-se da época em que mais ganhou?
- Perfeitamente,
foi pelas festas dos chilenos.
Muito nos
já havia dito o Manoel, para a formação de uma “interviu”, pelo que resolvemos deixá-lo.
- Adeus
Manoel, leia amanhã a “A Notícia”, ultimando a palestra, dissemos-lhe.
Idalino.
Fonte: A
Notícia, 29 de dezembro de 1914
Disponível
em: memoria.bn.br
LIVROS TOMBO MOSTEIRO DE SÃO BENTO
Fundação Pedro Calmon lança Prêmio de R$ 7 milhões para Cultura
Os
projetos e iniciativas dos segmentos do livro, leitura, memória, bibliotecas
comunitárias e arquivo já podem participar do Programa Aldir Blanc, gerido pelo
Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura (SecultBa). O
Prêmio Fundação Pedro Calmon foi publicado hoje (08) no Diário Oficial do
Estado e visa premiar cerca de 350 propostas, com cerca de 7 milhões reais em
todo Estado.
Voltado
para os trabalhadores da cultura e para a criação de subsídios para a
manutenção de espaços culturais, a Fundação Pedro Calmon (FPC/SecultBa) recebe
projetos culturais nessas áreas até o próximo dia 27 de outubro. Sem
prorrogação de inscrição, o Prêmio Fundação Pedro Calmon tem objetivo de
reconhecer e fomentar as iniciativas culturais da sociedade civil que tenham
por finalidade preservar e divulgar o acervo documental; estimular e promover
as atividades relacionadas com bibliotecas, assim como, promover ações de
fomento e difusão do livro e da leitura nos diversos territórios de identidade
do Estado da Bahia
O Prêmio
é voltado para o reconhecimento às iniciativas culturais da sociedade civil nos
processos de criação, produção, difusão, formação, pesquisa, entre outras
expressões artísticas e culturais. De acordo com o diretor geral da FPC, Zulu
Araújo, o Prêmio “contemplará todos os trabalhadores e trabalhadoras da
cultura. Teremos ações afirmativas em todas as categorias, proporcionando a
inclusão plena de nossos artistas, técnicos e trabalhadores”.
Os
proponentes poderão apresentar apenas uma iniciativa cultural em uma das
categorias contempladas pela FPC. Na categoria Livro e Leitura serão 50
iniciativas premiadas no valor individual de R$25 mil, além de R$2 milhões para
apoio a eventos literários. Também serão 50 projetos para Bibliotecas
Comunitárias, no valor individual de R$ 25 mil.
Já no
campo da Memória serão premiadas 200 iniciativas de pesquisadores no valor
unitário de R$ 4.250 mil, totalizando um valor de premiação de R$ 850 mil. E na
categoria Arquivo, 40 iniciativas de instituições custodiadoras de acervos
arquivísticos serão premiados no valor de R$ 41.250 mil, totalizando R$ 1.650
milhão.
Festas
Literárias - Estreante entre as modalidades da Premiação, a seleção dos eventos
literários que se espalharam por todo Estado, terão uma premiação específica na
categoria livro e leitura, no valor de R$2 milhões. Serão dez iniciativas
selecionadas e que devem ocorrer entre janeiro e 10 de abril de 2021 nos
Territórios de Identidade da Bahia.
Quem pode
se inscrever? – Em atendimento aos critérios dispostos pelo Decreto estadual Nº
20.005, de 21 de setembro de 2020, podem participar das chamadas públicas
abertas pelo Programa Aldir Blanc Bahia pessoas físicas ou jurídicas com
atuação cultural, e estabelecidas ou domiciliadas na Bahia há pelo menos 24
meses. Grupos e coletivos culturais que não se constituam como pessoa jurídica
de direito privado deverão comprovar sua atuação no estado há pelo menos 24
meses.
Programa
Aldir Blanc Bahia – Criado para a efetivação das ações emergenciais de apoio ao
setor cultural, o Programa Aldir Blanc Bahia (PABB) visa cumprir os incisos I e
III da Lei Aldir Blanc (Lei Federal nº 14.017, de 29 de junho de 2020) e suas
regulamentações federal e estadual. As ações são a transferência da renda
emergencial para os trabalhadores e trabalhadoras da cultura, e a realização de
chamadas públicas e concessão de prêmios. O PABB tem execução pelo Governo do
Estado, através da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, geridas por meio
da Superintendência de Desenvolvimento Territorial da Cultura e do Centro de
Culturas Populares e Identitárias; e as suas unidades vinculadas: Fundação
Cultural do Estado da Bahia, Fundação Pedro Calmon, Instituto do Patrimônio
Artístico e Cultural.
Acesse
para saber mais sobre o Prêmio Fundação Pedro Calmon.
"Valer-se da autoridade do trono para obter sua liberdade": fuga e alforria - Bahia e Lisboa, 1761-1804
RESUMO
O artigo
analisa as circunstâncias em que escravos e senhores da capitania da Bahia
apelaram à autoridade régia em Lisboa e ponderaram sobre escravidão e liberdade
nas últimas décadas do século XVIII. Usando como fio condutor processos de
escravizados de dois grandes negociantes, procura-se compreender os personagens
envolvidos e a complexidade do contexto em que apelaram à rainha durante a
vigência do alvará de 19 de setembro de 1761. Essa lei proibia o desembarque de
escravos nos portos de Portugal e foi mobilizada tanto para fundamentar a
alforria quanto para frear os anseios de liberdade dos cativos que ali
desembarcaram com seus senhores ou fugidos. O estudo se baseia em fontes
variadas, cujo cruzamento possibilitou aproximar a lente sobre esses conflitos
e problematizar o fenômeno da alforria entre senhores de poder e prestígio.
BIOGRAFIA
DO AUTOR
Katia
Lorena Novais Almeida, Universidade do Estado da Bahia
Doutora
em História Social pela Universidade Federal da Bahia. Professora titular de
História no Departamento de Educação, Universidade do Estado da Bahia – Campus
Alagoinhas – Bahia, Brasil.
ACESSE NA
ÍNTEGRA: http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/165479

















